Os outros espelhos enterrados



 “Só então cheguei aqui e descobri
Que sempre estive aqui...”.
Bebeto Alves/ Humberto Gessinger
                            “E tudo isso foi no mês que vem...”.
Vitor Ramil
Los espejos están llenos de gente.
Los invisibles nos ven.
Los olvidados nos recuerdan.
Cuando nos vemos, los vemos.
Cuando nos vamos, ¿se van?
Eduardo Galeano

Culturas que se afirmam com base em discursos dicotômicos são um fenômeno mundial. Acontece sempre que um grupo cultural, um povo ou uma nação ressalta apenas as suas diferenças em relação ao outro, na tentativa de criar a sua “identidade”, e também quando uma cultura ou grupo específico denigre a outra ou outro no intuito de fortalecer a sua visão parcial de mundo, hegemônica ou não. Na política, esse fenômeno cultural se acentuou com o surgimento dos Estados-nação, quando grupos econômicos fizeram a demarcação das fronteiras e também quando inventaram as chamadas identidades regionais, sempre com essa mesma finalidade. Essas culturas regionais, bastante influenciadas pela política, começaram a perder peso com a internacionalização do capital econômico e financeiro e, principalmente, a partir do final do século 20, no início da chamada época das globalizações (União Europeia, Mercosul etc.). Agora, com a intensificação dos intercâmbios e a cooperação entre os diferentes países, e com a popularização da internet, na prática esse fenômeno está se diluindo, embora ainda se manifeste com força em algumas regiões do planeta.

A região do Pampa, por exemplo, desde o século 19 teve forte presença de empresas “estrangeiras”, mas isso nem sempre é lembrado quando analisamos o discurso e a representação da cultura gauchesca. E, se não lembrarmos que essa região é habitada por descendentes de exilados, de imigrantes, de transplantados, de viajantes e de colonizadores, também não estaremos reconhecendo a diversidade étnica, artística e cultural “estrangeira” que formou esse território. No primeiro caso, podemos citar a presença dos saladeros e também dos grandes frigoríficos norte-americanos (Anglo, Armour e Wilson), que movimentaram a economia e a cultura regional e cuja época de pujança ainda povoa o imaginário das pessoas na fronteira do Brasil com o Uruguai. No segundo, podemos lembrar as heranças artísticas e culturais mouras, bascas, judaicas, catalãs e “castelhanas (de Castela)” que, após quase 800 anos de convivência na Península Ibérica e no norte da África, e que junto com os açorianos constituíram as primeiras ondas migratórias para a região, além dos povos bantos e sudaneses que foram escravizados e trazidos à força em navios, e que também contribuíram para alavancar a economia e para formar o imaginário regional. Sem esquecer os guaranis, os minuanos, os kaingangs e os charruas, que já habitavam a região, assim como aqueles que chegaram bem mais tarde, como são os casos dos italianos, dos alemães e, mais recentemente, dos jordanianos, dos palestinos e dos sírio-libaneses, entre outros.


Portanto, qualquer teoria sobre a cultura regional do gaúcho/gaucho não pode ignorar esse longo e diversificado processo migratório, sob pena de ela servir apenas para demarcar um território e/ou para fortalecer políticas culturais de grupos específicos. A esse fenômeno podemos chamar de nacional-regionalismo, estética de grupos e nunca de cultura regional.
 

A procura por uma identidade única apenas revelará uma visão “de fora” e aquilo que faz uma cultura ser diferente da do outro; não vai apresentar as suas singularidades mais profundas. A metáfora desenvolvida por Vitor Ramil no ensaio “A Estética do Frio”[1], por exemplo, representa uma grande contribuição para aprofundar tal reflexão e por revelar algumas diferenças entre a cultura existente no sul do Brasil (y en el Río de la Plata) e as culturas das regiões tropicais brasileiras, quando afirma que:
 

O frio é um grande diferencial entre nós e os “brasileiros”. E o tamanho da diferença que ele representa vai além do fato de que em nenhum lugar do Brasil sente-se tanto frio como no Sul. Por ser emblema de um clima de estações bem definidas – e de nossas próprias, íntimas estações; por determinar nossa cultura, nossos hábitos, ou movimentar nossa economia; por estar identificado com a nossa paisagem; por ambientar tanto o gaúcho existência-quase-romanesca, como também o rio-grandense e tudo o que não lhe é estranho; por isso tudo é que o frio, independente de não ser exclusivamente nosso, nos distingue das outras regiões do Brasil. O frio, fenômeno natural sempre presente na pauta da mídia nacional e, ao mesmo tempo, metáfora capaz de falar de nós de forma abrangente e definidora, simboliza o Rio Grande do Sul e é simbolizado por ele. (Conferência em Genebra, 2003).
 

O ensaio deixa claro que o frio não é exclusivo dos gaúchos/gauchos e que estes vivenciam as quatro estações do ano, mas também enseja leituras que podem levar a crer que o clima frio e a paisagem do pampa são determinantes na formação de uma “identidade” diferenciada. Ou seja, do ponto de vista subjetivo a metáfora não faz referência às heranças que os imigrantes da Península Ibérica trouxeram para a região, assim como os povos africanos e indígenas, entre outros. E, ao afirmar que a milonga “e seu chamado à interioridade” é a que fala dos “rio-grandenses com mais propriedade” em que se destacam “o rigor, a profundidade, a clareza, a concisão, a pureza, a leveza e a melancolia” o ensaio dá pouca importância para expressões populares, como as cerimônias de batuque, o carnaval, o candombe uruguaio, as festas quaranis e as tecno-festas que se realizam em diferentes centros urbanos.
 

É importante lembrar que essa elaboração metafórica de Vitor Ramil, como ele destaca no próprio ensaio, não pretendeu criar “em hipótese alguma, uma formulação normativa”, mas iniciar uma “uma reação ao estereótipo e seu peso, a reafirmação do antigo vínculo com os países vizinhos”. Portanto, o ensaio teve o objetivo de se diferenciar das culturas tropicais brasileiras e apontou para a necessidade de uma ruptura com a cultura hegemônica no estado do Rio Grande do Sul, que ainda valoriza as características tradicionais de regiões pastoris e que foi forjada no período de demarcação de fronteiras com os “castelhanos”. Aliás, a obra poética, literária e musical de Vitor Ramil, contêm várias conexões com outras formulações abertas, não dicotômicas, principalmente as de autores uruguaios e argentinos.
 

Mas é preciso ir muito além das questões geográficas, nacionais e/ou étnicas para reconhecer a diversidade cultural existente nesse e em outros territórios. É necessário superar aquele olhar “colonizado”, carregado de preconceitos morais e estéticos, até desenterrar o máximo de espelhos seculares que permanecem enterrados. Portanto, o desafio passa por resgatar e mezclar diferentes expressões artísticas e culturais, com os seus valores simbólicos e também com os seus prazeres estéticos e políticos. Uma visão “de fora” e de “colonizado” tende a adotar e a reforçar os estereótipos regionais e somente uma adesão ao campo da práxis será capaz de revirar essas arqueologias culturais.
 

Para reconhecer esses outros espelhos enterrados e revelar aspectos não dicotômicos da cultura que se formou às margens orientais do Rio Uruguai, seria um bom exercício responder algumas questões, tais como: Quais foram as contribuições de Cervantes ao escrever “nem tudo que reluz é ouro”, “as paredes tem ouvidos”, “uma andorinha só não faz verão” e “cavalo dado não se olha o pelo” e tantas outras citações presentes na obra Don Quijote de La Mancha? Como se refletem as traduções da Escola de Toledo, na Espanha moura/judaico/cristã, nesse caldo cultural multifacetado? Será que as traduções de Aristóteles, por Averróes, e o pensamento de Maimônides e de Sêneca são importantes para constituir uma visão “racional” e, ao mesmo tempo, “aberta” do mundo? Os povos indígenas, com a sua cosmovisão de realidade, influenciam o modo de vida do povo gaúcho/gaucho? Por que os habitantes dessa região utilizam a erva-mate (Ilex paraguariensis) como um símbolo de hospitalidade? Por que, entre os estados brasileiros, o Rio Grande do Sul possui o maior número de pessoas que se declaram adeptas à umbanda e ao candomblé? A espiritualidade dos descendentes dos povos africanos influencia a formação da subjetividade e da mitologia do sul? Por outro lado, em que medida a lenda cristã do El Cid influenciou o caudilhismo rio-grandense e platino? O quarto de empregada é um resquício da cultura Casa Grande e Senzala? Será que a Santa Inquisição, que durou até meados de 1800 na Espanha, e que perseguiu o povo judeu, assim como todos aqueles indivíduos considerados hereges, permanece viva no inconsciente coletivo dos(as) gaúchos/gauchos(as)?
 

É necessário reconhecer que há séculos um imaginário comum de convivência e conflitos culturais está latente nessa região e que a compreensão das suas histórias e das suas representações artísticas e literárias é importante para refletir sobre os mitos e o inconsciente coletivo desse povo. Mas, para isso acontecer, a realidade precisa mergulhar na ficção, nas ciências, nos rituais e nos mitos, para revelar as suas singularidades simbólicas e as suas diferentes subjetividades.
 

Contribuições como as de Cervantes, de José Hernández, de Érico Veríssimo, de Jorge Luis Borges, de Juana de Ybarbourou, de Julio Cortázar, de Ernesto Sábato, de Simões Lopes Neto, de Manoelito de Ornellas, de Ángel Rama, de Sandra Jatahy Pesavento, de Horacio Quiroga, de Juan Carlos Onetti, de Felisberto Hernández, de Alfonsina Storni, de Astor Piazzolla, de Anita Garibaldi, de Sepé Tiarajú, de Caio Fernando de Abreu, de Atahualpa Yupanqui, de Mercedes Sosa, de Jayme Caetano Braun, de Geraldo Flach e de Noel Guarany podem ser misturadas às de Eduardo Galeano, de Aldyr Garcia Schlee, de Cristina Peri Rossi, de Bebeto Alves, de Nei Lisboa, de Vitor Ramil, de Cintia Moscovich, de Jaime Roos, de Nelson Coelho de Castro, de Jane Tutikian, de Tabajara Ruas, de Charly Garcia, de Humberto Gessinger, de Jorge Drexler, de Dunia Elias, de Kevin Johansen, de Ruben Rada, de Fito Paez, de Lelia Almeida, de Hique Gomes, de Arthur de Faria, de Richard Serraria, de Marcelo Delacroix, de Dani Lopez, de Demétrio Xavier, de Leandro Maia, e de muitos outros, e reinventadas ao ritmo do candombe, da cumbia, da milonga, do tambor de sopapo, do jongo, do tango, do samba-canção, do rap, do punk e do rock, formando um movimento em espiral e assimétrico, para apresentar/representar reflexos da diversidade cultural dessa região.
 

Enfim, para essa cultura superar a sua fase dicotômica e para que os gaúchos/gauchos intensifiquem o diálogo com outros movimentos culturais planetários, será necessário reconstruir a representação e o discurso de ampla parte da sua população, cujos descendentes ainda não reconhecem as origens mais profundas dos seus costumes. O desafio passa necessariamente por repensar o passado e o presente, e acrescentar novos contornos à criação artística e cultural. E para isso acontecer será fundamental compreender que tanto o “nós” como os “outros” fazem parte da sua (in)formação cultural. Essa percepção vai depender de um olhar “de dentro”, prático, histórico e sensível, que seja capaz de juntar as partes com o todo. Que mergulhe no passado mais distante sem ficar preso nele. Que represente as culturas urbanas e que faça as suas conexões com as culturas rurais, e vice-versa. Que reconheça as quatro estações do ano e que utilize mais o E ao invés do OU. Desse modo, essas dimensões da cultura regional estarão reconhecendo as suas características universais e, ao mesmo tempo, se libertando de representações fechadas e dicotômicas, portanto, sem permanecer presa às nacionalidades, às etnias, à geografia e nem ao passado.


[1] Na apresentação do ensaio A Estética do Frio, Vitor Ramil disse: “Do tema, a estética do frio, não se pretende, em hipótese alguma, uma formulação normativa. As ideias aqui expostas são fruto da minha intuição e do que minha experiência reconhece como senso comum. A extensão do assunto e o pouco tempo para expô-lo não me permitem desenvolver suficientemente alguns pontos. Mas convido a todos para um debate após esta exposição, para que possamos retomar o que for de seu interesse e compartilhar novas reflexões”. Nesse sentido, o ensaio também propõe que sejam realizadas novas reflexões sobre a cultura existente no sul do Brasil. Escolhi usá-lo como exemplo por considerá-lo como uma das melhores reflexões já escritas e também porque ele reconheceu o meu imaginário e o da minha geração.

Relato dos Relatos Selvagens


(Relato sem acabar com o suspense do filme)


Não costumo assistir a filmes violentos, mas depois de tudo o que me relataram sobre o Relatos Selvagens, eu resolvi fazer um exercício de relaxamento e tomar coragem para encará-lo. Respirei fundo, deixei o meu lado zen em casa e me preparei para o pior... Surpresa minha foi que durante quase todo o filme eu ri pra caramba. Aliás, quase todo o público caiu em intensas gargalhadas. Mesmo diante de cenas violentas e absurdas o riso foi tomando conta do Cine Guión e eu estava surpreso comigo mesmo e com quem ria na poltrona do lado. 

O primeiro episódio, apesar de caricatural, me agradou bastante e eu até respirei aliviado. Mas no segundo, o humor negro foi tomando conta da tela e o terceiro acabou mostrando uma agressividade absurda (mas real) que envolvia racismo e aquele conhecido "instinto animal que nos habita", como me disse um analista amigo meu. Emoticon smile Ufa! Naquela hora eu pensei em sair da sala, não fosse a linguagem meio kafkiana, meio cortaziana do quarto episódio, em que Darin representa um sujeito que poderia ser qualquer um de nós (lá vem a psicanálise de novo!), quando nos sentimos impotentes frente à burocracia estatal. Sendo que o quinto episódio é bem mais digerível, mas nem por isso menos tenso e provocador.

O fato é que todos eles nos revelam a falta de valores de uma sociedade individualista que eleva a estupidez humana à sua máxima potência. En el gran finale se misturam cenas de amor, de ódio, de hipocrisia, de soberba e de tudo aquilo que uma vida de aparências pode nos oferecer... Enfim, quando eu saí do cinema, olhei para o rosto de cada pessoa que estava aguardando a próxima sessão e me perguntei: como elas irão reagir àquelas cenas horríveis e assustadoras? Mas logo me lembrei das gargalhadas e me escapou um sorriso irônico e sacana pelo canto da bôca... Depois, já na mesa de bar, após um trago e outro, acabei chegando à seguinte conclusão: rir e não se indignar com aquelas cenas, é sinal de que já estamos aceitando a violência e apenas procuramos soluções (?) individuais para combater as injustiças da vida.

Fui dormir tranquilo e gostando de ter assistido ao filme. Hoje, analisando alguns relatos que ouvi do filme, uma vontade imensa de lotar um avião e voar por aí com vários convidados(as) a bordo tomou conta de mim. Qual o motivo? Sinceramente, não sei. hehehe Vejam o filme e depois vamos conversar numa mesa de bar.

O Terror

(Qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência)

O terror tem muitas faces, mas eu quero refletir sobre três delas, que, na minha opinião, são ações quase invisíveis que algumas pessoas demoram para perceber: o terror cultural, o terror político e o terror econômico. Em geral, esses três tipos de terror agem em sintonia e seguem uma escalada muito bem planejada.

Tudo começa com a banalização da violência e a propagação do medo entre as pessoas. A força bruta é elogiada e massificada, fazendo um claro enfrentamento à nossa sensibilidade e inteligência. Como em alguns filmes norte-americanos, cidades inteiras são ameaçadas por cientistas malucos (sempre eles) que depois é salva por um super-herói ou “salvador da Pátria”. Quem não conseguir ultrapassar a essa fase das histórias em quadrinhos sempre cairá nessas velhas armadilhas. Na sua forma de agir ela se utiliza de algumas “simbologias”, como o diabo, o bicho-papão, o cientista maluco, o Jason, o minotauro o Eduardo Cunha etc., desde que seja capaz de amedrontar uma criança de dez anos de idade e de desprezar a nossa capacidade de raciocínio.

Pior: muitas escolas, igrejas, redes de TV, jornais, blogs, revistas, amigos e famílias (isso mesmo: as famílias!) reproduzem esses valores e essas práticas de terror cultural e psicológico.

Já o terror político tem o objetivo claro de desmoralizar as lideranças políticas, as organizações sindicais, os movimentos sociais e até a própria justiça. Sem dar direito a julgamentos, sem ouvir o argumento dos suspeitos, esses mesmos atores reproduzem as delações, a propagação de boatos, as perseguições e depois as cassações, etcetera e tal. O resto vocês já conhecem muito bem e até onde isso pode nos levar... Se não conhecem é porque não estudaram a história do Brasil e nem a da América Latina. E também não acompanham, ou não querem reconhecer, o que segue acontecendo em algumas regiões do planeta.

Depois dessas duas fases surge um terceiro tipo de terror que é muito cruel: a disputa pelo poder econômico. Por exemplo, quando o Banco Mundial e o FMI (leia-se empresas e banqueiros internacionais) são ameaçados por uma nova ordem econômica mundial, ou quando um país entra numa perspectiva de tornar-se uma grande potência em fontes de energia e também nas áreas da saúde e da educação, aí vem o terror econômico. Ele se usa de todos os meios possíveis para desabastecer as prateleiras dos supermercados, patrocinar greves de caminhoneiros e manifestações contra a corrupção etc. São os próprios banqueiros e grandes empresas nacionais e multinacionais que sempre compraram políticos, sindicalistas etc. que aqora apostam e financiam aquilo que mexe no bolso e na vida das pessoas, principalmente das chamadas “classes médias”, que tem medo de perder o que haviam conquistado.

Quando essas três formas de terror se juntam, um tipo de histeria tomará conta das ruas das grandes cidades, pois pessoas que nunca se importavam com a política já estarão contaminadas pelo ódio e pela banalização da violência.

Dito isso, já dá para perceber que a coisa é bem mais complexa do que uma simples partida de futebol, uma disputa por siglas partidárias e/ou pela religião de sua preferência. E que para acabar com essas ondas de terror não adianta ficar apenas apontando o dedo em riste... É preciso mergulhar no fundo do fundo do fundo, e indicar aqueles caminhos que sejam capazes de garantir a liberdade das pessoas, mas também de valorizar as velhas e as novas conquistas.

Essas ondas de terror somente serão vencidas se pessoas alegres e propositivas também se manifestarem de forma minimamente organizada, reunidas em torno de  pautas claras e objetivas de reivindicações. Como, por exemplo, lutar pelo fim do financiamento privado das campanhas eleitorais (combate a corrupção e a ação dessas empresas que dizem ser contra a corrupção), pelo julgamento dos suspeitos, pelo controle da inflação, pela retomada dos investimentos (para manter e melhorar o nível de vida das famílias) e contra os abusos da grande mídia e dos grupos fundamentalistas, sejam eles de direita ou de esquerda.

Ainda bem que muitas pessoas já vivenciaram ou possuem muitas informações sobre esses “métodos sofisticados de terror cultural, de terror político e de terror econômico. Pois quando começarem a colocar alguns empresários corruptos na cadeia, e não só os políticos, e a grande mídia reagir com desinformação, propagação de boatos etc, é sinal de que está na hora dessas pessoas contribuírem na troca de informações verdadeiras e também na mobilização, mantendo a sua rede de relacionamentos (amigos e amigas) bem informada. Ou seja, é sinal de que o esquema está sendo revelado e que, portanto, quem promove este tipo de terror não nos dará trégua.

P.S. A troca de informações inbox e as postagens endereçadas diretamente para grupos de amigos/amigas serão as armas mais eficazes e ágeis que temos no momento. O desafio passa pela construção de redes maduras, afetivas e orgânicas de relacionamentos, para além da internet.

Texto inspirado no livro História Sincera da República, de Leôncio Basbaum
Ricardo Almeida – Março de 20158

Voar como um bando de pássaros...




         Vivemos um tempo em que as informações e o conhecimento quebram distâncias, revelam virtudes e também muitos milhares de preconceitos. Se antes pertencíamos a uma cidade, hoje já nos sentimos parte de uma aldeia global e planetária. Se agora eu estou aqui, daqui a pouco estarei na casa de cada um(a), em qualquer cidade e em qualquer país, via rede caórdica e multifacetada de relacionamentos. Parece que, finalmente, cada um de nós se tornou um representante da humanidade inteira.

         E, se aquelas velhas ilusões estão caindo por terra, se algumas certezas estão se tornando em dúvidas, é sinal de que o futuro não existe mais! Mas, não te esquece de que é lá que nós iremos viver! E se a tela da TV, do computador e do smartphone estão te deixando sufocado, então ainda estás aprendendo a conviver com tantas informações que antes não tinhas.

         Esse mal-estar surge apenas quando tu passas a acreditar e armazenar todas as informações que te enviam. O segredo é separar o joio do trigo e ficar apenas com o trigo, pois esse mal-estar é uma ameaça aos nossos sonhos. E sem eles (os sonhos) não haverá o que conquistar!

        Se aqueles que deviam te ensinar a ver e a transformar a realidade estão te iludindo, nós precisamos responder-lhes com ousadia e clareza. E, se mesmo assim, algum tipo de cegueira continuar contaminando as nossas relações de amizade, temos que encontrar um lugar onde a delicadeza, a sensibilidade e a lucidez possam germinar em paz. O fim da mesmice, do egoísmo, da truculência e do conservadorismo depende da ação das pessoas que voam com a leveza de um bando de pássaros e não como folhas soltas no ar.

        E isso vai depender dos valores e da reflexão sobre a essência dos fenômenos, e não daquilo que nos propõem os livros de autoajuda, os manuais para militantes políticos, as mídias tradicionais e/ou os desabafos nas redes sociais. Novas formas de rebeldias poderão surgir se buscarmos a primavera dos nossos sonhos.

        Deixa ecoar pelos cantos da tua casa, da tua cidade, do teu estado e do teu país, uma cultura que reconheça a diversidade das opiniões, das ideologias e das crenças e vais ver a diferença! E, se não conseguires mudar, tenta cantar bem alto, pois o mundo inteiro precisa escutar essa tua nova canção.

        Nunca te esquece de que em tempos de abundância muitas pessoas acreditam que tudo foi obra dos deuses e/ou do seu esforço pessoal, e que na escassez até um gatinho manhoso começa a mostrar os seus dentes afiados. Lembra que a busca por um inimigo externo foi arma encontrada pela Alemanha nazista, depois pelo sionismo e, mais recentemente, pelos milicianos do grupo islâmico Boko Haram, na Nigéria, para encobrir disputas internacionais por fontes de energia e pelo domínio de novas tecnologias. Uma onda de crueldade irá ressurgir sempre que o sistema capitalista entrar em crise e precisar se renovar. A tática dos “gerentes do sistema” é banalizar o mal e incentivar as velhas e conhecidas atrocidades.

         Portanto, no nosso bando, a política precisa ser vista como uma ação saudável e orgânica das pessoas, assim como das suas organizações. Não dá para continuar com aquela “visão limitada”, cujo responsável é apenas o governo de plantão e/ou a oposição. Faz a tua parte enquanto dá tempo, pois um novo tipo de cegueira está contaminando as redes sociais, e muitas pessoas deixaram de voar como um bando de pássaros.

Entra sem bater na porta...

“Não sois máquinas, homens é que sois” - Charles Chaplin

Assim como as pessoas, as organizações passam por diferentes estágios até chegarem à sua maturidade. Na primeira infância, elas preocupam-se com os seus interesses individuais, corporativos, no caso das organizações, voltadas para dentro. Na sequência, experimentam a fase das descobertas técnicas, artísticas e científicas, o chamado mundo das habilidades e, somente se conseguirem superar essas duas fases anteriores, acessam o estágio do conhecimento e da criatividade compartilhada.

É comum as pessoas e as organizações permanecerem por muito tempo numa das duas primeiras fases, pois a terceira requer um forte domínio de técnicas de gestão complexas, além de exigir um desejo radical de compartilhamento de conhecimento e de sabedoria, com a sublimação de impulsos infantis (egoísmo e “dono da verdade”) e uma saudável abertura para o novo: o desconhecido.

Na segunda fase, as habilidades técnicas, científicas e/ou artísticas individuais são aprendidas e, quase automaticamente, servirão de base para superá-la. No entanto, a técnica é como um remédio que vicia. Todo sujeito que está recém se iniciando nela, no afã de aplicá-la, acaba sempre substituindo a leitura sensível da realidade pela obediência cega aos procedimentos aprendidos. Assim, a complexidade da realidade passa a não ser compreendida como ciência, no seu contraditório, mas como técnica, induzindo a avaliações precipitadas, limitadas e distorcidas, caindo nas armadilhas do saber formal e burocrático.

Por seu lado, o processo de amadurecimento exige algumas superações e até rupturas, pois ele requer a destruição das amarras forjadas na velha cultura hierárquica e/ou de “castas”, baseada em cargos e funções, originárias dos exércitos, das igrejas e dos governos tiranos, e também a assimilação de uma nova cultura voltada para projetos reais (gestão dos processos e dos resultados), a partir da convivência com as demais pessoas envolvidas.

Numa organização madura e democrática, a valorização do talento individual e coletivo será sempre um fator fundamental da sua política, pois nela as pessoas serão tratadas como sujeitos e não como “instrumentos” de uma ação pretendida. Ou melhor, como uma vida em gestação, essas organizações não estarão preocupadas em apenas apoiar ações de curto prazo. Suas lideranças possuem paciência para escutar o contraditório e muita perseverança para crescer com qualidade e em quantidade. No caso dos governos é mais complicado ainda, pois esse amadurecimento envolverá os servidores públicos de carreira. Sem eles, a execução e os resultados esperados jamais sairão do papel.

Portanto, a gestão voltada para projetos reais e a busca por melhores resultados é muito mais complexa do que sonhar, conseguir financiamentos e/ou assinar contratos. Ela requer que se adote uma visão sistêmica dos processos, e depois, que se identifique um propósito claro (pra quê estamos nos organizando?) e alguns valores centrais para serem pactuados e trabalhados coletivamente. Somente assim as pessoas entrarão sem a necessidade de bater na porta.

Sartori, Forrest Gump e as nossas façanhas



          Forrest Gump – O Contador de Histórias é uma comédia dramática que proporciona algumas reflexões contraditórias sobre a história política dos EUA na segunda metade do século 20. No filme, o diretor Robert Zemeckis revela a existência de um olhar voltado apenas para o presente (imediato), para os chamados prazeres individuais, que deixam a construção do futuro para os “outros", num mundo dominado pelo egoísmo, pela alienação, pelos selfies e pela reprodução dos hábitos de celebridades.
 

          Apesar de ser uma personagem amável, Forrest vivia sem entender o que se passava à sua volta. No entanto, mesmo atrapalhado, ele acabou se tornando uma testemunha da história política norte-americana, pois estava presente "no momento certo" e “na hora certa”, quando fatos importantes aconteciam. Assim, na sua ingênua curiosidade, ele acabou fazendo parte da história, pois sua participação (sic) foi registrada pelas lentes dos fotógrafos e pelos jornalistas de plantão.
 

          Nas poucas vezes em que falava o "soldado Gump" dizia que era fácil servir ao exército, pois bastava "fazer a cama direitinho”, “estar sempre em pé” e “responder todas as perguntas” dizendo: "Sim, senhor!". Na vida real também existem pessoas que repetem tudo o que os apresentadores de rádio e de televisão dizem, sendo que algumas decoram os "chavões" da política e adotam lógicas excludentes (desde que não sejam elas as excluídas). 

         Na maioria das vezes, sem a mínima noção de realidade, essas pessoas vivem apenas para satisfazer os seus prazeres imediatos, pessoais e egoístas.
A mãe de Forrest deu conselhos fundamentais para ele. Ela costumava repetir: "A vida é como uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar". E Forrest interpretava (?) que ninguém poderia imaginar um futuro possível e que, por isso mesmo, não adiantava fazer reflexões sobre as possibilidades e nem sobre o destino que estava a sua frente. O seu nome, por exemplo, foi uma homenagem a um antepassado da família que fez parte da história norte-americana: era uma liderança da Ku Klux Klan.
 

         De uma maneira trágica e divertida, o Contador de Histórias nos faz enxergar o mundo com os olhos desarmados e, ao mesmo tempo, com uma enorme vontade de desvendar os obstáculos e a complexidade da vida contemporânea.  Uma vida caracterizada pela abundância de informações (televisão e internet), e também pelo surgimento de redes caórdicas de relacionamentos, pelo crescimento de valores egoístas e individuais, e pela triste proliferação de grupos de pessoas céticas, dispersas e solitárias.
 

           Depois de assistir ao filme se consegue pensar melhor sobre as nossas escolhas, sobre a relação que temos com a família, com os amigos, com a história e com a política. No entanto, muitas pessoas preferem seguir a vida sem se comprometer com nada, e por isso mesmo não medem as consequências dos seus atos. Outras, idealistas, apenas fazem os seus protestos e morrem.
 

           Numa sociedade dominada pelas mídias e pelas novas tecnologias estamos perplexos assistindo muitas verdades serem substituídas pelas aparências e pelas intenções do marketing, como se tudo fosse uma propaganda ou um produto a ser consumido. Nessa confusão midiática ficou muito difícil identificar a verdadeira intenção das pessoas e os valores que orientam as relações presenciais e/ou virtuais. Algumas pessoas até dizem querer mudar a vida, mas no fundo querem apenas manter os seus privilégios (status e cargos). Outras querem acabar com as diferenças na porrada, impondo a sua verdade e não aceitando o diálogo franco e maduro.
 

             Elas estão pouco se importando com o método utilizado e distorcem o próprio sentido de cidadania e de amizade, pois agem como se não tivessem “compromissos” e “responsabilidades”. A palavra, o gesto e a intenção acabam se tornando “coisas” que perdem o seu sentido prático e sensível. Querem relações frias e impessoais, ou como se tudo fosse um verdadeiro “jogo de azar”. Mas, ao olharmos bem de perto, caso a caso, ouvindo e sentindo cada gesto, é que conseguimos perceber as diferenças, os resultados e também (é claro!) as confusões.
     

            E o que o Sartori tem a ver com tudo isso? É verdade que ele adora falar dos conselhos que recebeu da sua mãe, que nunca sabe o que vai acontecer no futuro e que possui muitos seguidores... O que muita gente não percebe é que ele quer transformar as pessoas em verdadeiros "Forrest Gumps". Ou seja, ele está tentando entrar para a história como um governador “Contador de histórias” e que segue ocultando as forças conservadoras e reacionárias que o apoiam desde a campanha política.
 

              Quem acha que o governador é um Forrest Gump está muito enganado. Na verdade, ele faz parte de uma campanha de marketing muito bem pensada, que quer privatizar o Estado e vender o máximo do patrimônio público. É bom lembrar que Sartori era líder do Governo Britto na Assembleia Legislativa, e foi responsável pela péssima renegociação da dívida do estado com a União, que hoje ele tanto reclama. À época ele também apoiou a privatizações de empresas públicas, os planos de demissões voluntárias e também aprovou aquele famigerado modelo de pedágios.  Agora, como governador, ele já tomou várias medidas “duras” que impactam na vida dos gaúchos e das gaúchas. Vejam algumas delas:

- Acabou com a Secretaria de Políticas para as Mulheres e criou uma secretaria especial para a sua esposa;
 

- Usou o helicóptero do Estado para compromissos particulares;
 

- Aprovou um reajuste de 45,9% para o seu salário (depois voltou atrás, em função da pressão popular), de 64% para seus secretários de governo e de 26,3% para os deputados estaduais;
 

- Atrasou e parcelou o salário dos servidores públicos, e responde na justiça por esse ato;
 

- Diminuiu o policiamento nas ruas em função do corte de horas extras dos policiais;
 

- Deixou de repassar recursos para hospitais e, com isso, os hospitais reduziram leitos, demitiram funcionários e baixaram a qualidade dos atendimentos;
 

- Suspendeu o pagamento dos fornecedores e dos prestadores de serviços, gerando desemprego em empresas terceirizadas;
 

- Encaminhou projeto de extinção da Fundação Zoobotânica e assim pretende desmantelar uma instituição séria, que contribui com conhecimentos essenciais para a proteção ambiental do estado;
 

- Assinou um decreto de regulamentação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) do Bioma Pampa com a nítida intenção de facilitar o agronegócio, aumentar as lavouras e acabar com os campos nativos remanescentes. Esse decreto está sendo contestado pelo Ministério Público;
 

- Não conversa com a imprensa após o anúncio das suas medidas amargas;
 

- Indicou pessoas sem a mínima experiência para áreas estratégicas do Estado, como a Secretaria de Administração, de Turismo etc;
 

- Empregou parentes de secretários e de deputados, e indicou secretários de estado para o Conselho de Administração do Banrisul, das empresas estatais, para aumentar ainda mais a renda dos seus amigos;
 

- Quer aumentar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e de Serviços (ICMS) e, com isso, vai contribuir para aumentar o preço dos alimentos, dos combustíveis, da energia elétrica, da internet, e dos serviços em geral;
 

- Os deputados da base aliada aprovaram o projeto ironicamente chamado de “Lei Escola Melhor: Sociedade Melhor”, que abre a possibilidade de privatização do ensino público e tira a responsabilidade do Estado com a educação;
 

- Os seus deputados também aprovaram a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2016 e tudo indica que haverá um arrocho salarial, e todas as consequências que isso trás (greves e mais greves).

O governador disse que essas medidas representam apenas uma "sementinha" dentro das atitudes propostas para melhorar as condições financeiras do Estado, mas vemos que a população do Rio Grande do Sul já está começando a viver um novo pesadelo. A segurança pública está ameaçada, com um considerável aumento da criminalidade e dos assaltos, as escolas vivem momentos de incertezas e de manifestações diárias, milhares de pessoas estão ficando sem atendimento de saúde e alguns municípios suspenderam ou reduziram os atendimentos pelo SUS. As ameaças de atraso nos pagamentos e o parcelamento dos salários trouxe ainda mais insegurança para os servidores, que não conseguem planejar a vida de suas famílias.
 

          Seria cômico se não fosse trágico...  Vê-se que o Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade (PGQP), aplicado pela consultoria do empresário Jorge Gerdau, é um plano que trata as pessoas apenas como números e o patrimônio público conquistado pelos nossos pais e avós como bens totalmente descartáveis. No entanto, se os riograndeses recomeçarem a escrever a sua história a partir das organizações e das lutas sociais, e não ficarem apenas falando entre os seus e/ou criticando a figura caricatural do governador, essa camuflada estratégia política e midiática poderá ser desmascarada.
 

             Ainda bem que, contraditoriamente, Sartori conseguiu unificar diversos setores contra o seu governo, e uma grande mobilização promete continuar até não se sabe quando... Tudo vai depender do grau de consciência e de organização que os gaúchos e suas lideranças conseguirem alcançar.
 

         A vida ensina aos que lutam e sabemos que num futuro próximo, esses grupos econômicos que apóiam Sartori, assim como os seus silenciosos seguidores, terão que se explicar pelo novo sucateamento do Rio Grande. Pior é que não se trata de um filme e muito menos de uma peça de ficção, e que, portanto, todos nós seremos responsabilizados pelas nossas escolhas, silêncios e atitudes. É que as nossas vidas estão em jogo, assim como as vidas de nossos amigos, filhos, netos e vizinhos. É sempre bom lembrar que um povo que não tem virtude (e que não se organiza) acaba por ser escravo de políticos inescrupulosos.

Ricardo Almeida é consultor em gestão de projetos com uso de tecnologia da informação e comunicação.