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Os cabelos da Terra

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado conta uma história profundamente pessoal, da arte que quase o matou, e apresenta novas imagens de paisagens, animais, pessoas e lugares esquecidos.

As contradições do silêncio

Muita gente ainda acha que era melhor viver nos anos 60, na época da Tropicália, da resistência democrática e dos grandes festivais. Quero lembrá-los(as) de que naquela época éramos vigiados e reprimidos por ditaduras militares no Cone Sul e pela Lei de Segurança Nacional, no Brasil. Então, como poderia ser melhor do que hoje? É fácil entender tal contradição quando se lê o ensaio A República do Silêncio, de Jean-Paul Sartre. A subjetividade desse texto expõe o sentimento daqueles que vivenciaram situações limites e as enfrentaram com inteligência e organização. 

A República do Silêncio
Jean-Paul SARTRE
Les Lettres Nouvelles, 1944. (Tradução: Fernando Vidal Filho)

Jamais fomos tão livres como sob a ocupação alemã. Tínhamos perdido todos os nossos direitos, sobretudo aquele de falar; insultavam-nos na cara a cada dia e era preciso que nos calássemos; deportavam-nos em massa, como trabalhadores, como judeus, como prisioneiros políticos; em toda parte, nos muros, nos jornais, nos cinemas, reencontrávamos a imunda e insípida fisionomia que nossos opressores queriam dar a nós mesmos: por tudo isso, éramos livres. O veneno nazi penetrava até em nosso pensamento, por isso cada pensamento justo era uma conquista; uma polícia todo-poderosa buscava constranger-nos ao silêncio, por isso cada palavra se tornava preciosa como uma declaração de princípio; éramos caçados, por isso cada um de nossos gestos tinha o peso de um engajamento. As circunstâncias sempre atrozes de nosso combate nos colocavam enfim a viver, sem fardo e sem máscaras, esta situação dilacerada e insustentável que se chama condição humana. O exílio, a prisão, a morte sobretudo, que se mascaram habilmente em épocas felizes, fizeram-se objetos perpétuos de nossa arreliação, e descobríamos que não são acidentes evitáveis, nem mesmo ameaças constantes, porém exteriores: era preciso ver nisso tudo nosso quinhão, nosso destino, a fonte profunda de nossa realidade de homem; a cada segundo vivíamos em sua plenitude o sentido desta pequena frase banal: “Todos os homens são mortais”. E a escolha que cada um fazia de si mesmo era autêntica pois se fazia em presença da morte, assim ela teria sempre podido se exprimir sob a forma “Melhor a morte que…”. E não falo aqui dessa elite que foram os verdadeiros Resistentes, mas de todos os franceses que, a cada momento do dia e da noite, durante quatro anos, disse não. A crueldade mesma do inimigo nos empurrava até os extremos de nossa condição e nos constrangia a colocar questões que se escamoteiam em tempos de paz: todos entre nós – e qual francês não esteve uma vez ou outra nessa situação? – que conheciam um ou outro detalhe sobre a Resistência se perguntavam com angústia: “Se me torturarem, eu agüentarei?” Assim, a questão da liberdade era posta e nós estivemos no limite do conhecimento mais profundo que o homem pode ter de si mesmo. Pois o segredo de um homem não é seu complexo de Édipo ou de inferioridade, é o limite mesmo de sua liberdade, seu poder de resistência aos suplícios e à morte. Àqueles que tiveram uma atividade clandestina, as circunstâncias de sua luta trouxeram uma experiência nova: eles não combatiam à luz do dia, como soldados; perseguidos em sua solidão, presos em sua solidão, no abandono, na miséria mais completa eles resistiam às torturas: sozinhos e nus diante dos carrascos de barbas feitas, bem nutridos e bem vestidos que zombavam de sua carne miserável e a quem uma consciência satisfeita, uma potência social desmesurada davam todas as aparências de ter razão. No entanto, no mais profundo dessa solidão, eram os outros, todos os outros, todos os camaradas da resistência que eles defendiam; uma só palavra era suficiente para provocar dez, cem prisões. Esta responsabilidade total na solidão total, não é isso o desvendamento de nossa liberdade? Esse desamparo, essa solidão, esse risco enorme eram os mesmos para todos, para os chefes e para os homens; tanto para aqueles que levavam mensagens cujo conteúdo ignoravam quanto para aqueles que decidiam sobre tudo na resistência, uma sanção única: o encarceramento, a deportação, a morte. Não há exército no mundo em que se encontre semelhante igualdade de riscos para o soldado e para o general. E é por isso que a Resistência foi uma verdadeira democracia: para o soldado como para o chefe, o mesmo perigo, a mesma responsabilidade, a mesma absoluta liberdade na disciplina. Assim, na sombra e no sangue, a mais forte das Repúblicas se constituiu. Cada um de seus cidadãos sabia que dependia de todos e que podia contar apenas consigo; cada um deles desempenhava, em seu desamparo total, seu papel histórico. Cada um deles, contra os opressores, empreendia ser si mesmo, irremediavelmente e se escolhendo a si mesmo em sua liberdade, escolhia a liberdade de todos. Esta república sem instituições, sem exército, sem polícia, era preciso que cada francês a conquistasse e a afirmasse a cada instante contra o nazismo. Encontramo-nos no presente à beira de outra República: esperamos que ela conserve, à luz do dia, as austeras virtudes da República do Silêncio e da Noite.

Diálogos com Zygmunt Bauman

Eu sonho com o dia em que a internet substitua a TV... Estamos perto disso! Assim, teremos mais controle sobre a programação e não seremos mais "programados" para assistir "a grade" e os finais sem surpresa! Enfim... Aqui vai uma entrevista que eu gostaria de ver na TV, mas só consigo ver no Youtube. Ainda bem... Seguimos?

Perspectivas


Enviado por Miguel Ângelo Dias (Florianópolis)
Há alguns anos, uma pessoa me contou que, por ter sofrido um acidente, teve que mudar sua postura, erguer mais a cabeça, e que isto lhe dera outra perspectiva: que passara a ver as coisas materiais e a vida por outro ângulo. Quando nos olhamos no espelho, nos vemos de frente; se usarmos um jogo de espelhos, poderemos nos ver de perfil e até de costas, visões bem diferentes de nós mesmos. Um objeto pode nos parecer maravilhoso quando visto de um ângulo e horrível, quando visto por outro lado.
E assim é o mundo como o vemos. Numa noite destas, um amigo, comentando sobre os prós e contras da vida, me disse: “As pessoas dizem ‘tudo bem’, ‘tudo bem’ quando nada está bem!” Ele estava coberto de razão, se olharmos por seu ângulo, afinal o mundo não anda nada bem. Agora perguntemos: “Quando o mundo andou bem? Quando foi que se viveu em perfeita harmonia, em perfeita justiça social ou mesmo em consonância com a Natureza?” Se alguém responder que foi antes de o homem surgir na Terra, a resposta não vale, por óbvia. É que o homem veio para revolucionar o mundo, construindo e destruindo. Na mais das vezes, destruindo.
        Falamos do homem como algo à parte de nós mesmos, mas nós, humanos, somos o grande problema e, simultaneamente, a solução; mera questão de perspectiva. Ver que as coisas não estão bem, é bom; ficar sempre olhando por este lado, já não é tão bom assim, pois nos consome inutilmente, nos impedindo de ver possíveis soluções.
Otimismo?
        Para o pessimista, o mundo é mau e não tem solução; o ingênuo otimista vê fácil solução para tudo. Para que algo possa ser feito para se melhorar o mundo, temos que abarcar muitas perspectivas do Universo que nos cerca, adotar uma visão holística; temos que ser realistas: lidar com possibilidades e não com certezas. A visão pessimista nos torna egoístas; o otimista age como tolo: ambos são, ao fim e ao cabo, destruidores. Quem pode construir algo é o realista, que aprende a negociar com o meio, aceitando o inevitável, mas pondo sua energia em ação com o intuito de só tentar modificar o modificável.
        Focar o passado só é válido se o fizermos para aprender algo; para o futuro, só adianta olhar se estivermos plantando alguma coisa. Vivamos bem o agora, semeando o respeito e a paz, pois, por utópico que isto possa parecer, sempre estaremos aprimorando o mundo, pelo menos à nossa volta.

As grandes lições da montanha

 
O meu amigo Fernando Recuero, o Fefa, fez recentemente um trekking no Aconcágua e nos enviou um outro olhar lá da montanha. Leiam alguns fragmentos do diário que ele escreveu:

(...) Só há uma coisa sensata a fazer: prosseguir. Mesmo quando o corpo começa a dizer não.
Os pensamentos continuam a fluir. Devaneios andinos: Não quero morrer aqui! Fico pensando: estou exausto, mas vou prosseguir... Vou caminhar, vou conseguir! E lá vamos nós, em frente, extraindo forças não sei de onde... Por certo, são forças que movimentavam nossos corpos... Não em busca de um objetivo, mas de permanecermos vivos.
O esgotamento físico está estampado em nossas caras. Parecemos uns zumbis, autômatos, uns sobreviventes... Caminhamos muito lentamente, pois a altitude impõe um ritmo lento. Falta força e fôlego! O coração há muito tempo funciona bem acelerado... Estamos o tempo todo ofegantes e muito cansados. (...)
Fotografia de Fernando Recuero (Farroupilha - RS)
As grandes lições da montanha ensinam muito sobre o que é o companheirismo e o espírito de solidariedade que existe neste ambiente extremo... E como as situações adversas aproximam e nos tornam mais humanos. As coisas ganham outro valor e sentido.
A vida e as coisas na montanha são simples como um prato de sopa e uma xícara de chá, e isto tem um valor imenso neste mundo das alturas. (...)
Não celebramos somente a ida, mas principalmente a nosso retorno. Fomos a um limite e o ultrapassamos. Mas, o mais importante é que voltamos!
Foi uma grande experiência de vida, sobre a vida.

Uma raça e diversas culturas...

A minha amiga e antropóloga Barbara Arisi (foto ao lado)  ganhou um concurso de fotos organizado pelo RAI - Royal Anthropological Institute - na Inglaterra. As fotos dela serão usadas em materiais didáticos para divulgar a antropologia. No próximo dia 8 de julho, uma delas será exposta no British Museum, quando professores e pesquisadores irão conversar com estudantes. A Barbara acredita que isso pode ajudar a conseguir um curso de fotografia e video para os jovens Matis , que vivem na Amazônia brasileira.

Vejam a foto da Victória (minha amiga, filha da Barbara e do Frank), junto com um indiozinho Matis:


Esta outra foto venceu na categoria Religião e Espiritualidade:

Utopia e barbárie

O César Cavalcanti (foto ao lado) me enviou um email anunciando o novo documentário do Silvio Tendler, intitulado Utopia e Barbárie. O filme foi lançado comercialmente em abril mas ainda não chegou em todas as capitais. Quando será que ele vem por aqui? Para quem não sabe, o Cesar Cavalcanti atualmente mora em Florianópolis e é documentarista e diretor de produção de belos filmes nacionais. Também ministra oficinas de produçăo nas áreas de cinema e vídeo.

O site do Utopia e Barbárie contém diversas entrevistas, comentários e depoimentos em vídeo. Veja no endereço: http://www.utopiaebarbarie.com.br

Mais um olhar, sintonizado com o nosso olhar em movimento.