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Nostalgia da Luz


Argumento apresentado por Ricardo Almeida após a projeção do filme Nostalgia da Luz, durante o evento em homenagem ao Ano Internacional da Luz, promovido pelo Instituto de Física da UFRGS.

Em 1973, eu tinha dezessete anos e costumava assistir a filmes e comprar livros em Rivera, no Uruguai. Havia nove anos o Brasil estava sob uma ditadura militar, e muitas obras foram proibidas por aqui... Mas lá na fronteira a gente podia vê-las, pois ainda se respirava os ares democráticos vindos daquelas bandas orientais. Lembro, inclusive, que muitos casais brasileiros iam até Rivera para casar, pois los hermanos reconheciam o divórcio desde 1913 e aceitavam o casamento de brasileiros. Enquanto isso, no Brasil, o divórcio ainda era tratado como uma heresia.

No entanto, naquele ano houve o golpe militar no Uruguai e também no Chile, e três anos mais tarde, na Argentina. Empresários brasileiros reproduziam naqueles países aquilo que eles haviam feito aqui com o apoio direto das forças armadas e das agências de espionagem norte-americanas (CIA e outras). E todas essas ações foram financiadas por grandes empresas internacionais que estavam se instalando em solo latino-americano em busca de mão-de-obra barata. Recordo as milhares de Kombis e televisores que cruzaram a fronteira logo após 1973 e, assim, aos poucos, eu fui compreendendo e me interessando sobre as relações políticas, econômicas e comerciais que regem este mundo dominado pelas grandes corporações.

Em 1975, fui estudar Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Pelotas e me surpreendi quando soube do acordo realizado entre o Ministério da Educação do Brasil (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID) para reformar o ensino brasileiro de acordo com padrões impostos pelos EUA. Era muito fácil identificar o tecnicismo e a departamentalização (fragmentação) da universidade, além da vigilância de representantes do Serviço de Segurança Nacional – SNI – nas reitorias e até nas salas de aula. Somado a isso, também havia uma repressão ao movimento estudantil, sendo que os decretos 228 e 447 proibiam os estudantes de participar das discussões políticas. Contraditoriamente, aquele ambiente hostil e opressor era um verdadeiro convite para um jovem de dezenove anos se indignar e reagir contra aqueles absurdos. Ainda mais aqueles que tinham na memória alguma experiência democrática.
Lembro isso apenas para demonstrar o sentimento que deveriam ter os mortos e desaparecidos durante os regimes militares que dominaram na América Latina até meados dos anos 1980. O que faria um jovem que vê a sua liberdade sendo tolhida sem explicações? O que faria um professor que não pode ensinar a Teoria dos Conjuntos e a matemática moderna para os seus alunos? E aquele que não pode estudar astronomia? Digo mais: o que faria uma pessoa digna que sabe que militares e paramilitares estão torturando e matando jovens civis inocentes em troca de um simples prazer e/ou de algum benefício pessoal? O que vocês fariam se soubessem que alguns generais e políticos da situação enriqueceram por meio de propinas e de desvios oriundos das empreiteiras e das grandes obras realizadas naquele período, como a Ponte Rio-Niterói a Transamazônica e a Hidrelétrica de Itaipu? O que vocês fariam se soubessem que o seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS – estava financiando casas para a alta classe média e para os mais ricos do país? São perguntas que chilenos e brasileiros, principalmente esses dois povos, precisam fazer para que o passado se torne apenas uma página virada da história.

O filme Nostalgia da Luz é uma busca por esse tipo de atitude. O diretor chileno Patricio Guzmán procura resgatar uma parte dessa memória e provocar a máxima compreensão possível dos fenômenos. Tudo permeado por um forte desejo de justiça e também de tocar as sensibilidades. Segundo palavras do próprio diretor “um país sem documentários é como uma família sem um álbum de fotografias”. 

O roteiro do filme é muito bem elaborado e acompanha as reflexões de algumas pessoas que parecem viver em mundos paralelos, que pouco se aproximam. Começa com uma belíssima apresentação do deserto de Atacama e da magia daquele céu estrelado, onde um astrônomo faz as suas considerações sobre a origem da vida e do Universo. Depois é a vez de um arqueólogo refletir sobre a relação do tempo e dos acontecimentos históricos. E, finalmente, o diretor mergulha no martírio de algumas mulheres que buscam o corpo dos seus entes queridos no deserto, mortos pela ditadura de Pinochet. Embora fique bastante claro que a intenção de Guzmán era aproximar esses mundos paralelos e propiciar um diálogo entre eles, ele não consegue isso durante as entrevistas. Salvo pequenas referências, principalmente as vindas do arqueólogo. Então o filme deixa claro que todos fizeram um tipo de pacto do silêncio (inconsciente ou não) para não denunciar o passado mais recente do Chile. Algo parecido com o que acontece no Brasil, resguardadas as suas diferenças políticas e culturais.

Não se trata de um filme de ficção e nem mesmo de uma reflexão presa ao passado. A primeira conclusão que eu faço é a de que todos os protagonistas procuram algo que eles não sabem se irão encontrar: os astrônomos procuram pela origem da vida e do universo, utilizando os maiores telescópios que existem no planeta. Os arqueólogos buscam parte da memória da América Latina, pois no deserto de Atacama – cenário do filme –, rico em salitre e sem umidade, estão mumificados restos de corpos humanos, desde os povos primitivos, dos colonizadores, de pesquisadores e de historiadores que se perderam naquela imensidão. As mulheres buscam os corpos, ou parte dos corpos, dos seus entes queridos, já que o regime de Pinochet criou campos de concentração no deserto e também jogou milhares de corpos de opositores no mar e naquela região. Chama atenção uma fala do arqueólogo quando diz: “conseguimos nos interessar pelo passado mais longínquo, mas não conseguimos sequer pensar no que aconteceu vinte e poucos anos atrás”. Eis uma das principais provocações do filme.

A segunda reflexão que me veio à cabeça foi sobre o mito de Antígona, que trata do desejo que o ser humano tem de enterrar os seus mortos. Um rito de passagem que serve para dar sentido à vida, além de assimilar aquele sentimento de perda que felizmente ainda existe entre nós. Acredito que este foi o argumento que orientou o título do filme, pois a nostalgia nos remete à dor e à saudade, enquanto que a luz pode ser vista como uma expansão do universo, mas também, metaforicamente, como a necessidade de um conhecimento mais amplo e complexo. Vejam que no filme nem o astrônomo consegue se colocar no lugar daquelas mulheres e nem elas conseguem se libertar do passado e entender que é preciso recorrer à justiça dos homens. Ou ainda, que nós somos insignificantes em relação ao planeta e às galáxias.

Há muito tempo eu me incomodo quando alguém cita a teoria do Big Bang, pois para mim - aprendi isso com os mouros da Península Ibérica dos séculos 12, 13 e 14 - “o universo não tem começo e nem fim”. Como diz o astrônomo “toda a busca infinita sempre vai encontrar novas perguntas”, apesar de encontrar também algumas respostas provisórias, é claro! Essa é a minha terceira reflexão e ela não desmerece as buscas que os cientistas fazem sobre a origem dos fenômenos. Apenas trato cada uma delas como uma fronteira cultural, da ciência e/ou do pensamento, como pontos de referências e não como alguns querem, infinitamente. Ou ainda, como diria Edgar Morin: “uma teoria é científica quando a sua falsidade pode ser demonstrada”, do contrário ela seria apenas uma demonstração de uma experiência, de uma técnica, e não da ciência, que é sempre dinâmica e contraditória.

A minha quarta reflexão parte do princípio de que uma pessoa pode ter a sua máxima compreensão possível dos fenômenos e nunca de todas as dimensões desse mesmo fenômeno. Que dependendo do ponto de vista e da capacidade de raciocínio das pessoas, a leitura da realidade pode se modificar. O astrônomo, por exemplo, estava focado nas questões que aconteceram há milhões de anos luz, enquanto o arqueólogo, há 10 mil anos, e as mulheres ficaram presas aos anos da ditadura de Pinochet. A pergunta que fica é a seguinte: seria possível aproximar essas três dimensões da realidade? Adotar uma visão complexa e multidimensional da realidade? Eu diria que sim, mas que se trata de um exercício cultural a ser trabalhado, no qual o filme de Guzmán contribui de maneira exemplar. Esse parece ser o desejo do diretor.

Diferentemente dos seus documentários anteriores, em que ele utilizou uma linguagem considerada hiper-realista, Nostalgia da Luz é uma metáfora poética e profunda sobre o homem, a sua relação com as ciências, a religião, a política, o planeta Terra e o Universo. O deserto de Atacama foi escolhido como cenário porque lá coexistem todas essas dimensões da vida. No final, muitas perguntas ficam soltas no ar — e no universo, por que não? —, e isso é mais uma das qualidades do filme, pois cada um(a) pode responder às reflexões segundo a sua capacidade de elaboração e das suas convicções morais, religiosas e/ou científicas.

        Percebi que o desafio do diretor era o de identificar alguns "laços" que amarram essas reflexões e que permitissem viajar além do tempo passado, presente e futuro, misturando ciências, mistérios e até religiões. Isso fica claro ao entrevistar uma jovem astrônoma, filha de pais desaparecidos, que foi criada pelos avós - sendo que esses, na sua ingenuidade, haviam entregado o casal para os militares – em que ela diz já ter assimilado e entendido o seu passado, enquanto embala o filho pequeno para dormir. Enfim, o filme não aponta soluções coletivas e nem deixa claro se a justiça desejada pelos protagonistas e pelo diretor é divina ou terrena. Mas analisando a obra do Patricio Guzmán eu diria que ele se propôs apenas a revelar um retrato do Chile atual e por isso mesmo escolheu um título que falasse de esquecimento. Ou seja, da saudade (nostalgia) do conhecimento (luz) complexo.

                   Porto Alegre, outubro de 2015.

                  


Cine Hermes



Nunca canso de lembrar do Cine Hermes. É que a sua história se confunde com a minha infância e também pertence à memória de todos nós fronteiriços.  Além do mais, a vida do Seu Hermes se confunde com a história do século XX, pois ele vivenciou a chegada dos primeiros automóveis e das locomotivas na cidade, e também viu o surgimento do rádio, da televisão, do videocassete, dos DVDs, dos computadores e da internet. No entanto, foi com uma galena que ele acompanhou os horrores da primeira Guerra Mundial. Depois, ainda jovem, assistiu às imagens da segunda guerra nas telas dos cinemas que surgiam na fronteira... Mas agora, misturadas às trapalhadas e aventuras de Buster Keaton, Charles Chaplin, Laurel and Hard e William Boyd.

No ano de 1954, no período pós-guerra, quando as salas de cinema se proliferavam pelo mundo, o Seu Hermes resolveu comprar um projetor 16 milímetros e construir a sua própria sala de projeção. Ele era funcionário do Banco do Brasil e tinha um propósito muito simples: levar a magia do cinema para as crianças e adultos pobres da fronteira. Enquanto os cinemas das duas cidades projetavam Casablanca, E o vento levou..., Amarcord, Psicose, Lawrence da Arábia, Adivinhe quem vem para o jantar e 2001 – Uma Odisseia no Espaço, o Cinema Hermes projetava bons filmes do circuito alternativo e vários seriados da TV norte-americana.

Nos anos 1970 a fronteira Livramento-Rivera chegou a ter oito salas de cinema. Quase todas eram grandes salas... Mas, com a chegada da televisão e com muita pressão da fiscalização local, o Cinema Hermes teve que fechar as portas definitivamente em 1973.

Eis uma homenagem que fizemos para ele e também para inaugurar um pequeno cineminha na Estação Ferroviária da cidade.



Relato dos Relatos Selvagens


(Relato sem acabar com o suspense do filme)


Não costumo assistir a filmes violentos, mas depois de tudo o que me relataram sobre o Relatos Selvagens, eu resolvi fazer um exercício de relaxamento e tomar coragem para encará-lo. Respirei fundo, deixei o meu lado zen em casa e me preparei para o pior... Surpresa minha foi que durante quase todo o filme eu ri pra caramba. Aliás, quase todo o público caiu em intensas gargalhadas. Mesmo diante de cenas violentas e absurdas o riso foi tomando conta do Cine Guión e eu estava surpreso comigo mesmo e com quem ria na poltrona do lado. 

O primeiro episódio, apesar de caricatural, me agradou bastante e eu até respirei aliviado. Mas no segundo, o humor negro foi tomando conta da tela e o terceiro acabou mostrando uma agressividade absurda (mas real) que envolvia racismo e aquele conhecido "instinto animal que nos habita", como me disse um analista amigo meu. Emoticon smile Ufa! Naquela hora eu pensei em sair da sala, não fosse a linguagem meio kafkiana, meio cortaziana do quarto episódio, em que Darin representa um sujeito que poderia ser qualquer um de nós (lá vem a psicanálise de novo!), quando nos sentimos impotentes frente à burocracia estatal. Sendo que o quinto episódio é bem mais digerível, mas nem por isso menos tenso e provocador.

O fato é que todos eles nos revelam a falta de valores de uma sociedade individualista que eleva a estupidez humana à sua máxima potência. En el gran finale se misturam cenas de amor, de ódio, de hipocrisia, de soberba e de tudo aquilo que uma vida de aparências pode nos oferecer... Enfim, quando eu saí do cinema, olhei para o rosto de cada pessoa que estava aguardando a próxima sessão e me perguntei: como elas irão reagir àquelas cenas horríveis e assustadoras? Mas logo me lembrei das gargalhadas e me escapou um sorriso irônico e sacana pelo canto da bôca... Depois, já na mesa de bar, após um trago e outro, acabei chegando à seguinte conclusão: rir e não se indignar com aquelas cenas, é sinal de que já estamos aceitando a violência e apenas procuramos soluções (?) individuais para combater as injustiças da vida.

Fui dormir tranquilo e gostando de ter assistido ao filme. Hoje, analisando alguns relatos que ouvi do filme, uma vontade imensa de lotar um avião e voar por aí com vários convidados(as) a bordo tomou conta de mim. Qual o motivo? Sinceramente, não sei. hehehe Vejam o filme e depois vamos conversar numa mesa de bar.

A Liberdade é Azul (uma sinfonia inacabada)

Publicado por Ricardo Almeida

“A Liberdade é Azul” (Bleu - 1993) é a primeira parte de uma trilogia filmada pelo diretor polonês Krysztof Kieslowski, que se completa com “A Igualdade é Branca” (Blanc - 1994) e “A Fraternidade é Vermelha” (Rouge - 1994). O filme reflete o pensamento inicial do diretor em busca de um humanismo solidário e fala das dificuldades existenciais e subjetivas encontradas para a sua realização. Toda sensibilidade do cineasta está revelada no texto, nos sons e no enquadramento das cenas iniciais e se manifesta ao longo de quase todo filme.

A reflexão mais profunda se dá através de personagens que se cruzam, mas principalmente na tragédia que ocorre na vida de Julie Vignon (Juliette Binoche) após a morte do marido - um maestro e conhecido compositor europeu - e da filha, num acidente de carro. Ao ficar sozinha, ela sente que sua vida perdeu o significado, passando a viver um tipo de liberdade egoísta e totalmente esvaziada de conteúdo.

As perdas são representadas por uma casa vazia e pela envolvente música composta pelo marido morto que ecoa na cabeça de Julie, sem deixá-la viver em paz. É que, num primeiro momento, ela ainda não percebia que existia uma relação intrínseca entre a sinfonia inacabada e a sua vida, também interrompida pelo trauma.

Na busca de um sentido para a vida, ela tenta ignorar o passado, mas aos poucos vai descobrindo que está cada vez mais presa a ele. Ou seja, por mais que ela tente fugir daquela realidade dolorida, sempre surgem sombras que a chamam para “conversar” com a sua verdadeira experiência de vida.

Com o passar do tempo e com a revelação de novos fatos, ela vai descobrindo que não deve mais fugir e que somente o diálogo com as suas lembranças seria capaz de concluir aquelas duas obras incompletas: a sinfonia inacabada e a sua própria vida. Aos poucos há uma mudança na sua postura e ela começa uma nova busca pela harmonia com aquela composição, e isso passa a ser fundamental para o resgate dos seus melhores sentimentos e a trazem de volta para a realidade. Ao permitir a existência de fortes laços com outras pessoas, ela consegue sentir novamente o amor e a amizade, e o passado que tanto assombrava seus pensamentos passa a ser o elo de interação com a possibilidade de uma nova vida.

As reflexões sobre a igualdade e a fraternidade aparecem silenciosamente neste filme e depois são aprofundadas nas outras partes da trilogia. Na obra completa (nas três cores) Kieslowski nos diz que a liberdade é vazia se não vier junto com a igualdade e a fraternidade. E vice versa. Ou seja, se alguém não consegue dialogar com outras pessoas é porque ela não aprendeu a compartilhar reflexões e os seus sonhos. Na prática estaria realizando “o nada”! Ou seja, o problema é quando não reconhecemos o que aprendemos e não compartilhamos os nossos afetos.

Assista ao trailer do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=jmQ88PWzvR0

As invasões bárbaras - Por uma vida digna!

Escrito por Ricardo Almeida


Afinal, vivemos ou não num grande hospital? Essa é uma das perguntas que devemos fazer ao assistir este belo filme canadense. Se é verdade que as pessoas só se preocupam em prolongar a vida o máximo possível, sem dar um sentido digno para ela, essa metáfora do diretor Denys Arcand tem um alto grau de importância e de veracidade. Segundo essa visão, a grande maioria das pessoas já aceitou que a vida não lhes pertence mais e estamos delegando a responsabilidade sobre ela para outras pessoas. Hoje, para obtermos “saúde” (sic) e “felicidade” (sic), é só procurar a ajuda de médicos, psicólogos, psiquiatras, gurus, personal trainers, enfermeiras, políticos profissionais etc. etc. etc.

Ao mesmo tempo, o filme faz diversas referências às nossas atuais ameaças externas (inclusive no título) . Um exemplo foi o ataque às Torres Gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, que significou um revide aos norte americanos, mas também uma demonstração clara e objetiva do novo tipo de barbárie que a civilização está vivenciando. Tudo com um certo sabor de vingança e com um grande apelo e prazer midiático. O mesmo vale para os ataques de Bush ao Iraque e para os massacres ocorridos durante a revolução chinesa de Mao Tsé Tung.

Segundo Arcand, a morte banal de milhares de civis e inocentes tem sido a tônica do mundo contemporâneo, assim como também a morte de pessoas desiludidas com a vida. Mas, propositalmente, o filme nos convence que o século XX, com todos os conflitos, contradições e tecnologias mortais (campos de concentração, câmara de gás, napalm, fuzilamentos, bomba atômica etc.) não foi o período mais violento do processo "civilizatório", pois na época das grandes navegações e descobrimentos, na nossa América do Sul e na do Norte, foram massacrados mais de 200 milhões de índios. Com um detalhe: "foram mortos a machadadas!" Vejo isso como um primeiro alento do diretor.

No geral, essa reflexão contextualizada e complexa serve como pano de fundo do filme, amarrada por um belo roteiro minuciosamente construído. Mas isso, dizem alguns, fica bastante submerso na trama, já que Arcand resolveu destacar simbolicamente o maior tabu da sociedade ocidental (lembrem que o tabu da sexualidade a nossa geração já conseguiu derrubar), que é a reflexão sobre a possibilidade de uma morte digna. Ou melhor: de ter uma vida digna... Quer dizer, daquilo que você quiser, desde que não seja solitário(a) num quarto frio deste "grande hospital". 
Eu sei que falar em morte aqui no ocidente é quase uma heresia, pois a maioria das pessoas prefere se iludir que irá viver para sempre. Sei também que a sociedade de consumo trata o ser humano como “uma coisa”, e que muitas "coisas" apenas possuem um valor monetário e de troca, como se fôssemos um depósito de informações, sem nenhum conhecimento e/ou sabedoria. As maioria das pessoas está vendo a vida apenas como um prazer infinito, sem sofrimentos! E nós embarcamos juntos dentro deste sofisticado furacão midiático e social.

       No filme competem harmonicamente essas duas visões simultâneas do diretor: a psicológica (individual) e a externa (contexto social), representada pelas ameaças que não dependem somente dos nossos desejos. Por exemplo, o personagem central  é um professor e intelectual de esquerda que está morrendo juntamente com o sistema de ideias que ele representa. De outro lado, está o seu filho yupie, que quer comprar tudo e todos (diretora do hospital¸ dirigente sindical, a garota usuária de drogas e alguns ex-alunos) para proporcionar uma morte mais tranquila para o pai. Só que nesse afã, ele acaba contratando uma jovem usuária de heroína para aplicar injeções da droga no pai, e assim, diminuir o seu sofrimento. Vê-se que o plano dá certo, mas, ironicamente, nessa convivência eles conseguem revisar os seus valores e ela descobre um significado mais digno para vida. Aliás, no final (dá para contar o final?) essa personagem, já se recuperando da dependência, vai viver numa casa herdada do professor, onde estão os seus livros (História e Utopia, O Arquipélago de Gulag e outros que eu ainda não conheço...), o que avaliza essa minha conclusão parcial. E por isso, talvez, esse trabalho tenha lhe rendido o prêmio de melhor atriz em Cannes, já que, para mim, todos estavam maravilhosos e convincentes.
Esse filme é fatalista e desesperançoso? Acho que a resposta se encontra no rumo que tomaram as duas jovens personagens femininas do filme. A primeira já foi citada, e a outra vem da filha do professor, que se revela quando esta diz via internet: “sou uma mulher feliz¸ achei o meu lugar. Não sei como você fez, mas conseguiu me transmitir o seu apetite pela vida“. A frase me pareceu como um sopro de esperança do diretor, pois ela foi dita num veleiro e tendo um imenso oceano ao fundo. Vi como uma analogia ao nosso futuro, cheio de dúvidas e de incertezas. Ainda mais que o diretor dedicou o filme à sua filha.

          Embora Invasões Bárbaras proponha diversas reflexões importantes, o momento que mais chama a atenção do grande público é quando o personagem terminal diz tranquilamente para os seus velhos amigos e amigas: “Eu tive muito prazer em viver essa modesta vida na compainha de vocês, queridos amigos. É o sorriso de vocês que vou levar comigo”. Ou seja, ele consegue resgatar as suas principais relações e ter uma despedida digna do filho e dos(as) amigos(as), superando a dificuldade em abraçar e ouvir diferentes pontos de vista. Desse modo, a sua morte também não foi ocultada de ninguém.
  Dizem que quando a gente está à beira da morte, passa um filme na nossa cabeça. E quando um sistema de ideias morre, não deveria acontecer o mesmo? Acho que isso dependeria da revisão e da destruição dos dogmas e tabus que nos imobilizam, assim como da mudança de um ponto de vista, do propósito e dos valores.

          Veja o trailer do filme no link:
NOS BASTIDORES: O diretor disse em entrevista que a civilização está declinando, pois "o mundo de hoje é caracterizado por uma burrice total”. Nesse ponto eu não concordo. Acho que ele esqueceu que na Idade Média, na escravidão do século 19 e em outras épocas obscuras, a humanidade (como um todo) não tinha tanta informação e nunca esteve tão democratizada como hoje. Para mim, o que acontece é que não sabemos lidar com tanta INFORMAÇÃO e não entendemos quase nada sobre o papel do Estado, dos governos e da sociedade civil. Assim, nos sentimos ORFÃOS e permanecemos PERPLEXOS e confusos diante desta nova realidade. Mas concordo que o conhecimento cientificista nos armou muitas armadilhas dogmáticas (“ismos”) e acabamos substituíndo o “egoísta divino” pelo “eu egoísta” e depois houve a volta do “nosso egoísta divino”. Somente com a MORTE dos PARADIGMAS que nortearam a nossa geração é que fomos capazes de ver a vida como uma "grande possibilidade" e não mais como uma "certeza". O problema é que alguns "manuais" e discursos ainda são deterministas e não revelam as contradições deste mundo CAÓRDICO.
Uma observação: Quem quiser aprofundar mais sobre a dignidade e a superficialidade da vida contemporânea pode assistir o fraquinho Declínio do Império Americano, do mesmo diretor, para identificar alguns prazeres egoístas da sociedade moderna ocidental.

Forrest Gump, as caixas de bombons e a nossa história



Forrest Gump – O Contador de Histórias, do diretor norte americano Robert Zemeckis, é uma comédia super dramática. Trata-se de uma das melhores reflexões contraditórias e modernas sobre a vida humana. O diretor se utiliza da ironia para revelar a existência de um olhar voltado apenas para o presente, para os chamados prazeres privados, que deixam a construção do futuro para "os outros", num mundo bastante dominado pela idolatria, pelo consumismo, pela alienação e pela reprodução.


O personagem principal, Forrest Gump, é uma amável pessoa que vive intensamente sem entender quase nada do que se passa à sua frente. Mesmo assim, ele se torna uma importante testemunha dos maiores acontecimentos da história norte-americana, pois isso não dependia do seu grau de discernimento, capacidade intelectual ou ideologia. Seu pensamento estava voltado apenas para satisfazer a vontade dos outros. Mesmo assim, o filme nos mostra que alguém pode entrar para a história sem entender nada do que se passou. Ou seja, que basta você estar presente "no momento certo" e “na hora certa” para ser lembrado. O importante é manter a curiosidade e o atrevimento no momento em que "as coisas" estão acontecendo. Claro, se tudo for registrado pela lente de um fotógrafo, um blogueiros ou um jornalista de plantão.

Nesta nossa sociedade dominada pela mídia e pela tecnologia é muito comum a verdade ser substituída pelas aparências e pelas intenções. Fica muito difícil identificar o verdadeiro conteúdo das interações humanas. Quer ver um bom exemplo? Se um grupo quer revolucionar os costumes, construir uma sociedade livre e democrática, mais fraterna, socialista, ou seja lá o que for... ou se quiser resolver tudo “na porrada”, num golpe de mídia, a maioria das pessoas está pouco se importando com o método utilizado, pois há uma verdadeira banalização "das coisas". Assim, tudo se confunde, se embaralha, como se fossem a mesma “coisa”. Somente olhando bem de perto, ouvindo e sentindo as pessoas, é que se pode ver as diferenças.

 

Na ficção, o "soldado Gump" achava que era muito fácil servir o exército, pois bastava "fazer a cama direito, estar sempre em pé e responder todas as perguntas dizendo: "sim, sargento". Na vida real também vemos pessoas assim: repetindo o que os outros dizem, decorando "chavões", adotando uma lógica rígida e muitas vezes "sem a mínima reflexão", apenas para satisfazer os seus prazeres pessoais. Mas, voltemos à ficção!!!
A mãe de Forrest foi fundamental na sua formação e relação com a vida. O nome dele, por exemplo, foi uma homenagem a um antepassado que fez parte da história norte-americana. Mas tinha um detalhe: esse outro Forrest era líder da Ku Klux Klan. Ela sempre repetia uma frase para Forrest: "A vida é como uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar". No entanto, Forrest interpretava (?) que ninguém poderia imaginar um futuro possível e, por isso, não fazia reflexões sobre o futuro e a sua vida. Assim, ele acabou se tornando refém dos acontecimentos que surgiram à sua frente. No final do filme, ele entrega para o filho um livro que herdou da sua mãe... Claro, sem nenhuma reflexão! Dá para interpretar esse simples gesto como aquele tipo de conhecimento (verdade ou não) que repassamos quase que inconscientemente para as novas gerações.
 
Portanto, de uma maneira muito divertida, o Contador de Histórias nos faz enxergar o mundo com os olhos desarmados e, ao mesmo tempo, a responsabilidade que temos ao tentar desvendar a complexidade do mundo real. Enfim, o filme consegue contextualizar uma experiência alienada e mostrar a importância daquelas nossas velhas reflexões: "Quem somos? De onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? Esse é um drama nosso, não das pessoas que preferem se alienar dos acontecimento.

Veja o trailer do filme no link:

O Tigre e o Dragão, a verdadeira habilidade

Publicado por Ricardo Almeida


O belo filme O Tigre e o Dragão, do diretor Ang Lee, é uma fábula oriental feita com extremo prazer estético e com muita sabedoria nas palavras e também nos gestos. Não vou fazer uma análise completa do filme, pois ele é cheio de detalhes e de ensinamentos que dariam para escrever um livro com muitas páginas. Aqui, quero apenas destacar alguns momentos que me marcaram profundamente e que tento assimilar visceralmente para a minha vida. Como vou rever o filme diversas vezes, sei que farei outras reflexões tão importantes como estas. Vejam quais são as minhas preferidas:

1) O gesto é bem mais importante do que as palavras: num certo momento do filme, quando estão tentando identificar a pessoa que robou a valiosa espada do prefeito, a mestre deixa cair intencionalmente uma xícara e a pequena aprendiz rapidamente a segura no ar. Neste simples gesto fica claro que a menina possuía todas as habilidades daquele ladrão fugitivo. As palavras dela não correspondiam a realidade, e o gesto (teste aplicado pela mestre) revelou o que realmente se escondia por trás das palavras;

2) A diferença entre a sabedoria e o conhecimento: Quando a Raposa Jade (Fox - a babá) diz que ela não sabia ler e que todo o seu ensinamento veio através de fragmentos das leituras feitas pela menina aprendiz, ela revela o verdadeiro poder do conhecimento e do não conhecimento. Ou seja, se alguém aprende somente através da leitura que os outros fazem, essa sua "leitura" fica muito reduzida... E, se essa leitura foi feita por um aprendiz, pior ainda... Essas pessoas precisam ter a humildade de reconhecer o fato de que não estudaram com profundidade as lições da vida... Senão, elas acabam se tornando pessoas "embrutecidas" , "donas da verdade" e até "raivosas". No filme, o conhecimento é tratado de forma diferente da sabedoria... assim, com deve ser!!! Enquanto aquele tenta provar a veracidade das "coisas", a sabedoria tenta construir um processo pedagógico... ou seja, a sabedoria questiona quase tudo, inclusive a si mesma!


3) A verdadeira habilidade: Uma das cenas mais hilárias do filme é quando a menina aprendiz é desafiada por vários querreiros que se auto-intitulam "grandes", "fortes", "velozes", "imortais" (adjetivos inventados por mim, pois não revi o filme para escrever este texto - depois eu revejo e atualizo). Primeiro, ela fica em profundo silêncio e depois, com poucos "golpes", ela derruba quase todos... Muitos fogem!!! Neste momento, ela já estava observando o silêncio e adquirindo a sua verdadeira habilidade: aquela que nasce sem rótulos e sem esforço!


4) O uso da força e a adversidade: Nas cenas finais o mestre e a menina aprendiz travam uma luta agarrados em enormes bambus plantados... Como se os bambus representassem a necessidade da gente ser mais flexível diante de uma adversidade... A sabedoria oriental nos diz que os bambus são mais fortes do que o ferro. Enquanto o ferro fica torto ao se dobrar, o bambu quase sempre volta a sua posição original. Mesmo após os golpes, as tormentas e as chuvas.

5) O mêdo e a ousadia: Um amigo meu me disse que a menina se suicida naquele voo final... Eu prefiro dizer que ela aprende a "ousar na vida", e que essa cena faz parte de mais uma licença poética do autor. A compreensão dessa cena é muito importante para entender o filme, pois ela contém o seu maior significado: a ousadia de voar como um pássaro, e não como uma pluma.

Portanto, acho que trata-se de um filme para se ver com um certo distanciamento estético-crítico. Aquele que todo aprendiz deve adotar para perceber a profundeza "das coisas".