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A comida tem fronteiras?

No dia 20 de agosto de 2015, eu participei como palestrante do II Festival Binacional de Enogastronomia e Produtos do Pampa na fronteira Livramento-Rivera, al norte del Uruguay y al sur de Brasil e, juntamente com o Chef Mario del Bo, do Instituto de Gastronomia do Uruguai, tive que responder a seguinte pergunta: “A comida tem fronteiras?” A primeira e única ideia que me ocorreu foi a de que muitas comidas e ingredientes vieram com os nossos antepassados e que, aos poucos, elas foram se adaptando à região e às suas circunstâncias... Citei o croissant (crescente, em francês) que se transformou em medialuna, entre outras... Mas também citei algumas que foram criadas por aqui, como o arroz carreteiro e o charrá (será?)  etc. 


Mas achei muito importante definir o que é uma fronteira, pois entendo que algumas pessoas ainda as veem como limites, e nós fronteiriços as vemos como possibilidades de diálogos, de trocas, de interações e de convivências. Portanto eu respondi: Sim, a comida tem fronteiras, mas não tem limites. Também abordei sobre as diferenças que existem entre as fronteiras políticas (entre países) e as fronteiras culturais (entre costumes). No final, aproveitei para destacar as principais ações políticas e eventos de integração cultural que estão ocorrendo na faixa da fronteira Brasil-Uruguai. 

Saí de lá muito certo de que o festival, recém no seu segundo ano, já está maduro e forte... A comunidade assimilou a ideia e ele já envolve a agricultura familiar, os pequenos e os grandes produtores locais, os hotéis e os restaurantes das duas cidades, as escolas municipais, as universidades e a equipe do Slow Food Binacional (esqueci de alguém?). 


Portanto, eu acredito que agora os governos (locais, estadual e nacional) precisam elaborar planos e políticas culturais/turísticas de apoio aos festivais de gastronomia. O ministro Juca Ferreira, por exemplo, já sinalizou que o MinC vai publicar editais de gastronomia em 2016. E eu só tenho a agradecer à Jussara Dutra pelo convite e a todos os(as) envolvidos(as) pela organização desse importante festival regional. Vocês nos representam! Aproveitei a oportunidade e deixei a minha receita para uma "caçarola" de cultura regional (de território cultural). Modo de preparo: juntar tudo o que tem de simbólico da integração cultural e misturar bastante. Cozinhar por um bom tempo em fogo brando, cuidando pra não desmanchar os ingredientes... Adelante!!!

Integração cultural na fronteira Brasil-Uruguai

Entrevista dada ao Programa Frente a Frente da TVE RS (15/05/2014) sobre o processo de construção do Calendário da Integração Cultural Brasil-Uruguai. Com a participação do Demétrio Xavier, músico, produtor e apresentador do programa Cantos do Sul da Terra, do meu conterrâneo Danilo Ucha, colunista do Jornal do Comércio e editor do Jornal da Noite, do Marcos Santuário, editor de Cultura do jornal Correio do Povo e professor de Jornalismo da Universidade Feevale e do apresentador Carlos Machado. Publicado no Canal da TVE RS no Youtube  tvepublicars

Rebeldes ou reféns?

"Que ingenuidade - pedir a quem tem o Poder, para reformar o Poder..."

Giordano Bruno (ano de 1600)


Sempre que surge uma manifestação rebelde e criativa, a velha sociedade, composta por pessoas conservadoras, reage com a máxima "atenção" possível, pois percebe que está diante de uma ameaça à manutenção da "sua ordem” estabelecida, dos seus hábitos e também dos seus privilégios. Às vezes, para se proteger, ela adapta um pouco do seu discurso para não se parecer tão conservadora assim.

Por seu lado, nas novas organizações que surgem é comum encontrar pessoas que se contentam em ironizar, debochar, protestar nos bares, nas esquinas e/ou nas redes sociais. Muitas delas se dizem revolucionárias, mas na verdade se tornaram reféns da sociedade conservadora e não se apercebem disso. Por quê? Porque não possuem um projeto político de sociedade e nem querem participar do debate mais profundo sobre aqueles projetos que estão em disputa na vida real. Elas se contentam com o pequeno espaço conquistado (sic) para o seu frágil discurso. Ou seja, fazem o seu protesto e depois se dispersam pelos diferentes cantos da cidade e do país, sem construir novas estruturas participativas de Poder (micro ou macro). Na maioria dos casos, elas preferem endeusar-demonizar políticos e personalidades em evidência, pois acreditam que somente a eles cabe organizar as relações de Poder na sociedade.

Infelizmente, muitos de nós fomos educados (?) para não gostar da vida pública e acabamos reforçando a crença de que uma nova sociedade poderá surgir espontaneamente ou será obra de um "assalto" ao Poder. Essas pessoas não percebem que a construção de uma nova sociedade começa na velha sociedade (citando Paulo Freire). Ou seja, que a sua prática e o seu método de intervenção se reduz a uma prática comum, imediatista e vulgar. Assim, ela nunca é entendida como uma categoria da atividade humana mais sensível, que considere o contexto histórico, a cultura das pessoas e das organizações e os relacionamentos necessários para superar os grandes obstáculos.

Precisamos entender que as universidades, os governos, os partidos, as organizações da sociedade civil, a mídia e todo o aparato estatal existente, são fruto de práticas e de concepções (teorias) que dominaram e dominam a nossa vida cultural e política há alguns anos. E que, se ainda existem pessoas que curtem e compartilham as apologias ao ódio, à violência, ao consumismo e ao autoritarismo, é porque ainda co-existe entre nós um imaginário popular que ainda não reconheceu a importância desta recente e frágil experiência democrática no Brasil.

Ficar repetindo que ainda não temos um bairro-cidade-estado-país-planeta maduro, com organizações que sejam capazes de acabar com todas as injustiças e desigualdades etc. e tal é um primeiro passo para a mudança, mas não pode ser o único passo. Este "mal estar" e toda a indignação existente precisam ser canalizados para a construção de novas estruturas organizativas nas cidades, no estado e no país, que substituam as velhas estruturas conservadoras.

Quem quiser entender melhor, que pesquise um pouco mais sobre a degeneração dos propósitos humanistas ocorridos na história do Cristianismo, da Revolução Francesa, do Socialismo Real e de outras experiências reais. Quem quiser realmente mudar a vida, que comece por questionar as suas próprias práticas e concepções. Que compare a sua prática com os seus sonhos, para ver se ela está colaborando para torná-los viáveis.

Enfim, para não nos tornarmos reféns da sociedade conservadora, e para construirmos relações culturais-éticas-políticas mais maduras (e permanentes), precisamos permitir e alimentar uma mudança interior/exterior em cada um(a) de nós, a partir de uma prática subsidiada por novos conhecimentos, que melhorem radicalmente as nossas relações familiares, escolares, comunitárias e políticas. Traduzindo: as velhas estruturas organizacionais da sociedade somente se modificarão se formos criativos, e mudarmos substancialmente a base dessa mesma sociedade.

SOBRE A REFORMA POLÍTICA

O povo brasileiro, a partir das recentes manifestações e do questionamento das atuais estruturas políticas, está conquistando uma oportunidade ímpar de realizar uma reforma política no país. Aqui não se trata reformar apenas os partidos (uma parte da sociedade está representada em cada um deles), mas de todo o tipo de participação que a nossa criatividade e capacidade organizativa conseguiu acumular até agora.

É claro que o Congresso atual, com sua maioria conservadora está propondo uma saída também conservadora para a "crise" de representatividade. Não poderia ser diferente! Por isso, a melhor saída será a constituição de uma "Assembleia Exclusiva de representantes do povo", eleita apenas para esse fim. Mas como obter esta nova conquista, se as mobilizações estão diminuindo? Só nos resta preparar e organizar uma segunda onda, mas com um Propósito bem claro e com Princípios que sejam democráticos e plurais. Se não, será muito esforço para poucas conquistas.

(Inspirado num texto que li na década de 1970, publicado no Jornal Opinião)

O remédio e o veneno


“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”
Ditado popular

Estamos vivendo aqueles dias que valem mais do que vinte anos. Uma grande onda de relacionamentos virtuais e presenciais está apaixonando as novas gerações e hipnotizando os mais velhos, ainda perplexos com os recentes acontecimentos no país e no mundo. Vídeos, fotos, notícias e milhares de informações continuarão a ser publicadas diariamente nas redes sociais, na TV e nas rádios, alimentando um dinâmico ambiente de liberdade individual e coletiva.

       A geração dos anos 90, diferente das anteriores, se alimentou de informações e de conhecimentos que acabaram forjando livremente as suas múltiplas opiniões pessoais e políticas. Enquanto isso, os mais velhos ainda curtiam a internet como se ela fosse uma televisão, um jornal e/ou um telefone. Assim, desse jeito meio estranho e desencontrado, foi se criando um silencioso hiato cultural e político entre as gerações. Mas agora, depois que os mais novos revelaram todo o seu aprendizado nas ruas, foi formada uma primeira onda de indignações, de conflitos, e também de conquistas.

       Assim, como num relance, as pessoas foram jogando as suas indignações para o ar e depois, aos poucos, começaram a definir algumas pautas de reivindicações municipais, estaduais e nacional. Ao mesmo tempo, uma ala de fatalistas permanecia de plantão: os partidos estão falidos, dizia um. Todos são manipulados pela grande mídia, publicava outro. Os políticos são todos iguais, compartilhava uma amiga distante. E tudo isso que circulava apenas nas redes sociais, agora invadia as ruas. Assim, meio desajeitada, pela fragilidade das atuais estruturas organizacionais, a sociedade civil começou experimentar a democracia e a separar o joio do trigo. Quem não entender o que está acontecendo, sem dúvida alguma, vai se tornar refém dos atuais e dos futuros acontecimentos. 

      Muito mais do que um debate entre “situação” e “oposição”, já deu para perceber que estamos vivendo um importante momento histórico, simbolizado pela popularização da internet, combinado com uma nova recomposição das classes sociais no Brasil e no mundo. Nesses novos tempos, os velhos discursos que sempre reivindicavam a existência de uma direção "pré-definida" mostraram-se ultrapassados, assim como os discursos daqueles(as) velhos aventureiros que sempre querem ver o “circo” pegar fogo. Ambos concebem a sociedade como um objeto e não como formada por sujeitos reais e autônomos.

    Por isso, além de exigir mudanças profundas dos governos, precisamos trabalhar as mudanças subjetivas em nós mesmos, condenando os saques ocorridos e as depredações dos prédios públicos, por exemplo. Esse tipo de aprendizado político, às vezes, somente acontece na prática, na vivência e nas contradições da vida.

      Estamos vivendo um tempo diferente das experiências anteriores, pois ele exige o reconhecimento dos novos espaços livres, autônomos e participativos criados no território da internet. Somente assim poderemos ampliar o controle social sobre as ações dos governos municipais, estaduais e federal, como também do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Mas começando pelas direções dos nossos condomínios, das nossas associações de bairro, das universidades, das escolas, dos hospitais, dos postos de saúde, das compainhas de transportes urbanos e interurbanos, etc. Ou seja, além de protestar precisamos atuar como “retaguarda crítica” das nossas organizações. Não se trata de esvaziar a luta de rua, mas de reconhecer que os movimentos são cíclicos e que, para se tornarem consequentes, eles exigem momentos de avaliação dos avanços organizativos, dos possíveis recuos e também das novas conquistas.

      No caso do Brasil, estamos conseguindo atravessar a crise do capitalismo mundial através do incentivo ao consumo e da inclusão econômica de milhares e milhares de brasileiros no mercado de trabalho. Com isso foram mantidos os empregos e a estabilidade de muitas famílias, mas deixamos para trás a reflexão mais profunda sobre as estruturas de poder e o controle social da coisa pública e até esvaziamos as nossas entidades representativas. Dependendo dos rumos que esse processo tomar, podemos deixar mais um bom exemplo para o mundo que ainda está em crise profunda.

      Portanto, como foi dito, além de protestar é preciso avançar no controle social da coisa pública, com propósitos e princípios claros, capazes de facilitar a comunicação interna e externa e não destruir o ambiente democrático que levamos anos para construir. Uma construção coletiva desse tipo será sempre complexa e dinâmica, e não possui uma fórmula pronta, nem será implementada de cima para baixo. Tudo dependerá da cultura política que hegemonizar uma rede social orgânica ou dos processos políticos reais que ocorrem num determinado território (município, região, estado ou país), até alcançar o reconhecimento de todo o planeta.

      O Movimento Passe-Livre (MPL), por exemplo, que está organizado em vários estados, acabou conquistando muito mais do que pretendia: contribuiu para baixar o preço da passagem em algumas capitais e cidades de médio porte, abriu a caixa-preta do transporte em São Paulo e se alastrou enquanto organização autônoma e democrática. Assim, saiu fortalecido desse novo processo.

      Os governos seguem escutando, negociando e se boa parte dessa sociedade civil que foi para as ruas conseguir se organizar, poderemos avançar muito mais em importantes questões, como: UM PLANO NACIONAL DE MOBILIDADE URBANA, MAIS INVESTIMENTOS NA ÁREA  DA EDUCAÇÃO E DA SAÚDE, COMBATE À CORRUPÇÃO (que agora será tratada como crime hediondo) e UMA REFORMA POLÍTICA QUE ABSORVA PROPOSTAS DE CONTROLE SOCIAL.

      Outra grande novidade desse processo é que, pela primeira vez na história deste país, os mesmos meios de comunicação que apoiaram as ações violentas da Polícia Militar passaram a incentivar as manifestações de rua numa clara disputa pela hegemonia dos movimentos. A Polícia Militar passou a proteger as sedes das emissoras de TV e os órgãos de comunicação passíveis de ataques, pois a desconfiança sobre eles também ficou evidente. Mas, depois que todas essas notícias se alastraram em tempo real pelas redes sociais, ficou provado que a grande mídia não mais detém o controle total das informações (como anos atrás). Portanto, o nosso desafio passou a ser a escolha das bandeiras políticas (ou vocês acham que alguém é neutro nessa história?).

     Ainda é cedo para qualquer conclusão definitiva. Mas, depois dessa primeira “onda” de protestos no país, já se pode arriscar algumas opiniões. Por exemplo: 

     1º) É possível perceber que as pessoas estão se expondo muito mais do que em dias “normais”: do anarquista ao repressor, do libertário ao conservador, do oportunista ao franciscano, do novo rebelde sem causa ao novo rebelde com causa. Portanto, fica mais fácil identificar as suas contradições internas;

     2º) Ainda não dá para perceber qual é a correlação de forças (culturais, políticas e sociais) que vai ficar como herança desse rico processo. Em Porto Alegre e no RS é possível reconhecer um determinado acúmulo político, mas no estado de São Paulo, é bem diferente. No Rio de janeiro, Pará e em Pernambuco, os ingredientes são outros, e assim sucessivamente... Essa realidade irá definir a composição do Congresso e da chamada "governabilidade";

     3º) Deu para identificar claramente - nas ruas, na TV e na internet – que alguns grupos irresponsáveis queriam apenas ver o país pegar fogo. Mas também foi possível identificar muitas demandas democráticas e justas que surgiram. O desafio será o de organizá-las e potencializá-las ao máximo, até que elas se tornem projetos e programas viáveis;

     4º) O Governo Federal, assim como alguns governos estaduais e municipais já reconheceram a necessidade de mudanças, sendo que o governo do Rio Grande do Sul está (re)criando canais permanentes de participação e controle social, chamando as forças que se manifestaram nas ruas para um diálogo permanente e de construção do futuro.

     Dito isso, fica claro que, além de celebrar as nossas conquistas, é fundamental organizar redes orgânicas e autônomas de relacionamentos, elevar o nível do debate, esclarecer as desinformações e as intrigas que ainda são publicadas nas redes sociais e na grande mídia. Mas, cuidado! Também precisamos combater as manifestações autoritárias e antidemocráticas que aproveitam estes momentos de indignação e rebeldia para semear o ódio. Enfim, precisamos ser criativos. Apenas para evitar que esse maravilhoso remédio se transforme numa overdose de delírios e de lamentações.
Porto Alegre, junho de 2013.

Da infância à maturidade das nossas organizações

Dedico este texto ao meu grande amigo José Eduardo Utzig¸in memorian, que não alcançou forças suficientes para resistir às barreiras impostas pela velha cultura.

“Não sois máquinas, homens é que sois”
Charles Chaplin


       Assim como as pessoas, as organizações passam por diferentes estágios até chegarem à fase que chamamos de maturidade. Na primeira infância, elas preocupam-se com os seus interesses individuais, corporativos, no caso das organizações, voltadas para dentro. Na sequência, experimentam a fase das descobertas técnicas, artísticas e científicas, o chamado mundo das habilidades e, somente se conseguirem superar essas duas fases anteriores, acessam o estágio do conhecimento e da criatividade compartilhada.

       É comum as pessoas e as organizações permanecerem por muito tempo numa das duas primeiras fases, pois a terceira requer um forte domínio de técnicas de gestão sofisticadas e complexas, além de exigir um desejo radical de compartilhamento de conhecimento e de sabedoria, com a sublimação de impulsos infantis (egoístas) e uma abertura para o novo: o desconhecido.

       Na segunda fase, as habilidades técnicas, científicas e/ou artísticas individuais são aprendidas e, quase automaticamente, servirão de base para superá-la. No entanto, a técnica é como um remédio que vicia. Todo sujeito que está recém se iniciando nela, no afã de aplicá-la, acaba sempre substituindo a leitura sensível da realidade pela obediência cega aos procedimentos aprendidos. Nesse caso, a complexidade da realidade passa a não ser compreendida como ciência (no seu contraditório) e sim como técnica, induzindo a avaliações distorcidas e limitadas, caindo na armadilha do saber formal e burocrático.

       Por seu lado, o processo de amadurecimento exige algumas superações e até rupturas, pois ele requer a destruição das amarras forjadas na velha cultura hierárquica e/ou de “castas”, baseada em cargos, originárias dos exércitos, das igrejas e, a partir da segunda revolução industrial, dos partidos e dos governos tiranos. Mas também requer, fundamentalmente, uma nova cultura voltada para resultados (tanto de produtos como de processos), a partir da ação atenta das pessoas envolvidas.

       Em todos os casos, a valorização e a capacitação das pessoas é um fator fundamental, pois elas precisam ser entendidas como sujeitos e não como “instrumentos” da política definida. Ou seja, uma organização não consegue formar equipes conscientes e comprometidas em pouco tempo de vida. No caso dos governos é mais complicado ainda, pois a visão de futuro pretendida também precisa convencer  e envolver os servidores públicos de carreira. Sem eles, a execução e os resultados esperados jamais aparecerão.

       Portanto, percebe-se que a gestão voltada para projetos e a busca por melhores resultados é muito mais complexa do que planejar, conseguir financiamentos e assinar contratos. Ela requer, em primeiro lugar, que se adote uma visão sistêmica dos processos e depois que se escolha alguns eixos centrais para serem pactuados e trabalhados (planejamento e gestão dos processos e dos resultados) em detalhe.

Manifesto (quase) futurista




"Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára"
Cazuza
1. Um espectro ronda a vida das nossas organizações: é o fantasma da nova era da informação e do conhecimento. Estamos vivendo um desses raros momentos decisivos da história humana e, ao mesmo tempo, as nossas organizações estão cada vez mais dilaceradas. Sabe por que isso está acontecendo? É que a sociedade industrial está sendo substituída pela sociedade da informação e do conhecimento. Quem ainda não se atualizou em conceitos, métodos e sentimentos, não consegue se comunicar nessa nova dinâmica, que é totalmente diferenciada das velhas práticas hierárquicas industriais;

2. Neste momento, as nossas vidas estão em jogo, assim como as vidas futuras de nossos filhos, netos... Se por um lado, presenciamos a falência das antigas concepções (consciências) de organizações que aprendemos no passado, por outro continuamos sendo ameaçados por velhas manifestações racistas, homofóbicas e nacionalistas;

3. Os novos líderes estão sendo incapazes de compreender e traduzir a complexidade da vida moderna. Uma vida caracterizada pela forte presença de indivíduos mais bem informados, pelo crescimento de conquistas de direitos individuais, surgimento de redes de informação, velocidade da comunicação (televisão e internet), mas também pela dificuldade em traduzir tanta informação em novos conceitos, pela incompreensão da transversalidade dos fenômenos (complexidade), a má ocupação do tempo ocioso e pela triste proliferação de grupos de pessoas céticas, dispersas e solitárias (principalmente nas grande cidades);

4. Toda estrutura organizacional criada de forma espontânea e aparentemente natural tem levado as pessoas à descrença e ao desânimo. Em alguns casos, vimos uma burocratização dos relacionamentos afetivos e uma enorme dificuldade de comunicação, que respeite a diversidade de linguagens, de etnias, de sexualidades, de gêneros, de ideologias, de religiões, de classes sociais, etc.;

5. A maioria das alternativas surgidas ainda reproduzem os sistemas burocráticos, centralizados e tiranos, pois não possuem democracia interna. Embora o discurso dos seus "líderes" (?) fale em participação e em democracia, na prática não consegue esconder suas contradições (a teoria versus a prática);

6. Uma epidemia de fracassos organizacionais acontece porque a  maioria das pessoas ainda se baseia na concepção hierárquica da Igreja, dos exércitos, das velhas fábricas da 1ª e da 2ª revolução industrial e dos partidos centralizados;

7. A maioria dos desejos, dos sonhos e dos planos ficam apenas no papel, e acabam servindo para fins políticos de pequenos grupos. Ou melhor, como os novos "líderes" não percebem a importância da reflexão ampla e coletiva, pois acreditam cegamente nos seus pré-diagnósticos parciais, não incentivam a emancipação de sujeitos históricos conscientes. Isto é, não adotam uma práxis coletiva, transformadora e eficaz;

8. É preciso compreender que uma organização de "novo tipo", para ser eficaz, deve estar orientada por um propósito maior, que una a maioria das pessoas envolvidas e seja sedimentada por valores (princípios) democráticos radicais. Ao mesmo tempo, as pessoas envolvidas não podem ser tratadas como "objetos", mas como sujeitos de uma ação individual e coletiva;

9. Esta reflexão apareceu superficialmente no pensamento do jovem Marx, se aprofundou em Gramsci, e está presente na teoria de Max Weber sobre a importância das "burocracias". Tornou-se um dos pilares da pedagogia libertária de Paulo Freire e continuou sendo aprofundada nas obras de Norberto Bobbio, Edgar Morin, Zygmunt Bauman, Pierre Bourdieu e de Dee Hock – fundador e CEO Emérito Visa, além de outros contemporâneos. Ou seja, trata-se de uma profunda reflexão sobre o período pós-industrial, e principalmente da atual era da informação e do conhecimento;

10. Na história política, essa reflexão tomou corpo na crítica ao estalinismo, ao marxismo dogmático e ao surgimento dos estados burocráticos, e se fortaleceu no chamado Maio de 68, na França. No Brasil, chegou um pouco mais tarde, no início dos anos 80, contornando a construção do Partido dos Trabalhadores, da CUT e do MST;

11. Na verdade, trata-se de uma busca pela identificação do propósito (Para quê estamos aqui? O que queremos nos tornar?) e dos princípios (Os fins justificam os meios?) de cada organização. Mas também faz o questionamento da eficiência da estrutura organizacional adotada;

12. Portanto, é preciso traduzir a mais alta aspiração das pessoas envolvidas no processo organizativo e, ao mesmo tempo, criar diferentes e combinadas formas de organização que permitam a implementação de um determinado projeto coletivo e estratégico. As pessoas não podem estar organizadas apenas para "eleger o candidato X, Y ou Z" ou para "ganhar dinheiro". Um propósito precisa ser compartilhado e experimentado por todos, sem chavões e nem adjetivos, e juntamente com os princípios (valores), deve servir para orientar e unificar a ação dos membros da organização em projetos autônomos e convergentes (num centro estudantil, numa entidade de classe, na construção de um Partido, num comitê de campanha, num mandato parlamentar, numa empresa etc.);

13. Numa sociedade que tiver a democracia como princípio básico e universal, as organizações, os governos e o Estado precisam ser controlados permanentemente pela sociedade civil. Isso somente poderá acontecer se tivermos organizações de "novo tipo" vigilantes, com lideranças que reflitam sobre e compreendam esse novo momento da história humana;

14. Esse processo será sempre uma reflexão cheia de surpresas, de conflitos, de piadas e até de risos, pois em cada uma delas se revelarão as mais diferentes visões e contradições. Somente o tempo e a própria experiência é que deverão propiciar uma definição mais clara sobre os melhores caminhos a percorrer;

15. Mas é somente através da reflexão sobre essas experiências contraditórias que as pessoas se motivarão até se tornarem confiantes, para construir uma nova cultura e, consequentemente, os alicerces de uma nova sociedade. Agora, independentes de fetiches, de cargos e de status quo.
          Florianópolis, março de 2009

          Ricardo Almeida

O espelho, o reflexo e a práxis

“É que narciso acha feio o que não é espelho”
Caetano Veloso
Historiadores dizem que os colonizadores presenteavam os nativos com um espelho quando pretendiam “domesticá-los”. Esse simples gesto continha dois significados contraditórios: por um lado, os “conquistadores” conseguiam alcançar os seus objetivos, e por outro, esses mesmos nativos conseguiam enxergar pela primeira vez os seus próprios rostos e os seus belos ornamentos. Portanto, também era um exercício espontâneo de reconhecimento da existência de si mesmo, como parte de uma identidade coletiva e cultural. Os espelhos também foram utilizados por diversos escritores como símbolo de algo que permite a revelação ou a descoberta de uma subjetividade, antes oculta. Já os antropólogos dizem que uma cultura somente se reconhece a partir de outra, de uma visão crítica e distanciada de si mesma, que toda cultura precisa de uma visão “de fora” para se ver plenamente. Por isso, é muito importante exercitar esse olhar de fora, para notar que os nossos hábitos, gestos e reações afetivas não são tão naturais assim, mas que são frutos de um processo histórico, coletivo, consciente e também inconsciente.
Ainda hoje é comum encontrarmos pessoas que carregam consigo essa herança colonial que faz com que queiram “colonizar” o Outro, partindo do princípio de que a sua cultura está mais correta, e que a do Outro contém “desvios”, “erros” etc. No entanto, ao mesmo tempo, começamos a entender e a aceitar que somos uma “civilização” só, com inúmeras culturas diferenciadas e que é preciso aprender a conviver com o Outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, das suas diferenças. Finalmente, estamos considerando a subjetividade de cada uma das culturas e a relação que os indivíduos estabelecem entre si, e também a considerá-las em relação às instituições, compreendendo as diferentes singularidades políticas, econômicas, sociais e culturais.
Na teoria, já assimilamos que somos assim, justamente pela complexidade subjetivo­-objetiva que adquirimos e pelas características da própria sociedade contemporânea, onde mantemos laços e relações reflexivas permanentes com outras culturas, em maior ou menor grau. Analisando desse modo, aos poucos vamos diminuindo consideravelmente os riscos de uma apologia a um dos lados, e evitando aquele velho e conhecido pensamento maniqueísta e/ou chauvinista do “nós versus vocês”. Dentro dessa ótica é que se apresenta o maior desafio político: repensar a nossa práxis e as relações que as nossas organizações (empresas, sindicatos, associações de bairro, centros acadêmicos, prefeituras e conselhos) mantêm entre si e com os seus países, objetivando um pensamento além fronteiras, sem perder a noção de identidade e de singularidade política e cultural de cada uma.
Neste processo de reflexão e de construção individual e coletiva, precisamos estar preparados para rir e para ouvir lamentos. Pessoas céticas tentarão nos desanimar de prosseguir nesta nossa investida. Muitos daqueles que deviam ensinar a ver e a transformar a realidade irão reproduzir suas reflexões acadêmicas, sem o mínimo de comprometimento prático. Precisamos entender que alguns pensadores irão preferir a confortável postura de críticos e de observadores do que “botar a mão na massa” e tentar transformar essa complexa realidade.
Durante os períodos de crise de paradigmas, a grande maioria das pessoas ignora que as mudanças tecnológicas também acabam destruindo conceitos e que é sempre preciso repensar essas mudanças na prática e na teoria. Foi assim no início da Idade Moderna, quando Cervantes e Shakespeare inventaram o humano ao nos propor uma aventura ética e coletiva. Foi assim na Primeira Revolução Industrial, quando Kant, Hegel, Feuerbach, Marx e Engels refletiram profundamente sobre o conhecimento e a condição humana, sob as amarras da nova sociedade que surgia. Também foi assim na Segunda Revolução Industrial, quando Freud, Jung, Nietzsche, Heidegger, Adorno, Gramsci, Eric Fromm, W. Reich, H. Marcuse, R.D.Lang, Agnes Heller, Hannah Arendt e, mais recentemente, Paulo Freire mergulharam profundamente no inconsciente individual e coletivo para resgatar o papel do indivíduo oprimido na sociedade totalmente industrializada. Mesmo assim, muitas pessoas ainda ignoram que em quase todo o século 20, e principalmente a partir dos anos 70, a humanidade vivenciou diversas lutas por liberdades individuais e, definitivamente, o ser humano já não é o mesmo que existia tempos atrás. Nos últimos 500 anos, tivemos muitas lutas, buscas e conflitos. Milhões de nativos do continente americano foram massacrados a machadadas pelos colonizadores europeus, outros milhões de africanos foram arrancados de suas coletividades para morrerem como escravos nas nações além mar, duas grandes guerras mundiais destruíram várias cidades e acabaram com a vida de milhões de soldados e de civis inocentes. Apesar de tudo, ainda há quem afirme que “antes era bem melhor do que hoje”. Percebe-se que muitos ainda não entenderam o mal estar da cultura, e que ainda lhes falta muita reflexão e muita sensibilidade prática.
Neste longo período da história humana, aprendemos que o futuro não existe, mas que é nele que iremos viver. Concordo que a realidade se tornou muito mais complexa, mas também concordo que as pessoas de hoje possuem muito mais informações e conhecimentos do que antes. Se muitas daquelas nossas ilusões deterministas caíram por terra, é porque as nossas certezas já não existiam mais. Sabemos que a nossa imaginação ainda não chegou ao poder, mas também sabemos que conseguimos significativos avanços humanitários e democráticos. Apesar dos tropeços, erros, desistências e desilusões, uma dura guerra de posições e de movimentos continua existindo e a luta de alguns ainda permanece permanente. Se demos muitos passos atrás, agora já podemos dar dois ou três passos à frente.
Neste sentido, o nosso conceito de práxis deve apropriar-se dessa reflexão na nossa atividade cotidiana e perder-se nela, pois somente assim poderemos voar para o futuro como um bando de pássaros e não como folhas soltas no ar. Precisamos entender que hoje vivemos num tempo em que os conceitos e o conhecimento quebraram distâncias. Se antes pertencíamos a uma "tribo", hoje somos parte da "tribo planetária”. Se antes amávamos a natureza, hoje nos consideramos totalmente parte dela. Se só existe uma raça, hoje pertencemos à raça humana. Se agora eu estou aqui, daqui a pouco estarei na casa de cada um, em qualquer cidade e em qualquer país, via rede mundial de relacionamentos multifacetada. Portanto, em cada gesto, em cada ser humano, já é possível ver a humanidade inteira, como um jogo de espelhos que reflete diferentes tempos e identidades inter-relacionadas: um verdadeiro caleidoscópio humano que pode servir para construir uma nova prática transformadora, mas que também pode “domesticar” aquelas mentes que se bastam a si mesmas, hipnotizadas pelas novas tecnologias.
Portanto, mais uma vez, precisamos recuperar aquela emoção que nos motivou a construir os nossos “moinhos” e a realizar as nossas fantasias para tentar revelar este novo momento da história humana. Se o conhecimento, a criatividade e a ousadia já nos pertenceram no passado, agora podemos resgatá-los.  Quem sabe assim, poderemos conquistar a primavera remodelada dos nossos sonhos. Mas, tenhamos muita serenidade para definir o que fazer aqui e agora, com a máxima consciência prática/humana/crítica/histórica/sensível que adquirimos na nossa rica e contraditória experiência de vida.
Florianópolis, abril de 2010.
        Ricardo Marques Almeida