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Desmemórias, ilusões e novas tempestades

Para o Adelmo Genro Filho, in memoriam, pelas suas importantes reflexões sobre a consciência histórica, prática, crítica e sensível.

 “Eu avisei!”, diz um comentário. “Eles têm o apoio do STF, da Rede Globo, dos banqueiros nacionais e internacionais, dos exportadores, dos especuladores, de pastores das igrejas neopentecostais e de uma velha casta militar e, juntos, irão sacramentar o Golpe de Estado, vender as nossas riquezas e explorar ainda mais o povo brasileiro”, esclarece outra postagem. Uma terceira alerta que se trata de uma guerra híbrida, de proporções internacionais. Todas estão cobertas de razão! No entanto, se lhes tirarmos a razão, sobrará apenas o hábito que a maioria dos brasileiros tem de apostar somente em eleições e no modo tradicional de fazer política.

Com a proliferação das redes sociais, boa parte da esquerda brasileira está ficando cada vez mais saturada por eventos e sensações efêmeras compartilhadas, que se desmancham no ar, e está deixando de valorizar as grandes experiências coletivas que tivemos recentemente, como a formação de diversos comitês pela democracia, as Caravanas Lula, o Movimento #EleNão e as próprias campanhas #HaddadManu e #BoulosGuajajara. Essas experiências (com ações digitais e presenciais) já estão na memória afetiva de uma parte da população brasileira, mas precisam ser melhores compreendidas para tornarem-se referências na transmissão de saberes simbólicos para as gerações que estão chegando.

Na verdade, o Brasil ainda não cicatrizou as suas feridas históricas. Vejam que, até hoje, persiste uma forte cultura escravocrata e anti-indígena entre nós, torturadores nunca foram condenados e a impunidade segue sendo um privilégio dos sonegadores de impostos e dos vendilhões das nossas riquezas. Lembrem que não houve resistência ao golpe de 1964 e nem ao impeachment (golpe de novo tipo) da presidenta Dilma Roussef, em 2016. Aliás, apesar de algumas mobilizações importantes, as esquerdas brasileiras foram derrotadas nas campanhas pela anistia, no ano de 1978, pelas Diretas Já, em 1984, e pela Constituinte, livre e soberana, em 1988. O Partido dos Trabalhadores venceu as eleições de 2002 com a “Carta aos Brasileiros” e o “Lulinha Paz e Amor”, que tinha o empresário José de Alencar como vice e um programa de caráter republicano, democrático e popular.

Em abril de 2018, quando Lula se entregou para a Polícia Federal, no Sindicato de São Bernardo do Campo, os seus companheiros mais próximos ouviram a seguinte declaração da maior liderança do Brasil: “Foi o máximo que conseguimos reunir até aqui…”. Baseado nessa afirmação sensata e sensível, após a realização de grandes mobilizações em caravana pelo país, é possível deduzir que a maioria dos “intelectuais orgânicos” brasileiros não é tão orgânica assim, e que ainda não foram organizadas forças regionais suficientes para resistir aos frequentes golpes das elites locais aliadas ao capital financeiro internacional.

Uma reflexão madura identificaria diversos fatores que contribuíram para consolidar essa cultura contemplativa entre as esquerdas brasileiras. No entanto, a partir de uma análise das postagens que circulam atualmente nas redes sociais, é possível perceber alguns dos motivos que levam o povo brasileiro a se manter disperso e perplexo diante das adversidades. Em boa parte dessas publicações, as coisas, a realidade, o mundo sensível ainda são vistos sob a forma de objeto ou de abstrações, e não com sensibilidade histórica, crítica e prática, enfim, como práxis. Trata-se de posturas teóricas que ignoram a práxis e o comprometimento, pois são manifestações contemplativas que não levam os interlocutores a lugar nenhum. Elas não tratam as pessoas como sujeitos de uma ação coletiva e nem reconhecem a dinâmica dos movimentos sociais, pois ainda não adquiriram uma consciência objetiva/subjetiva da realidade.

Embora sejam reflexões importantes, muitas delas são apostas, provocações e/ou perguntas de escolha simples (ou isto ou aquilo?), e não percebem que somente por meio das experiências, da práxis, é que as esquerdas brasileiras conseguirão comprovar as suas verdades e o caráter terreno das suas teses e discursos. Ficar apenas disputando sobre a realidade ou não realidade de um determinado pensamento, isolados da práxis, é uma atitude meramente acadêmica e/ou contemplativa.
É verdade que a maioria do povo brasileiro ainda possui uma consciência baseada no imediatismo, pois ela é fruto das circunstâncias da vida e da educação que essas pessoas receberam. Mas não podemos ignorar que essas circunstâncias e as consciências somente poderão ser transformadas pelos próprios seres humanos – vistos como sujeitos e não como objetos –, e que a maioria dos agricultores, dos camponeses, dos operários, dos professores, dos estudantes, dos jornalistas, dos artistas, dos parlamentares etc. ainda precisa assimilar uma nova cultura política baseada na convivência, na fraternidade, na justiça e na igualdade de direitos sociais.

Somente a partir da máxima compreensão possível da realidade será possível mudar as circunstâncias e a cultura política do povo brasileiro. Ou seja: é preciso entender as incoerências entre o mundo representado pelas teorias e o mundo real, para eliminar ao máximo as suas contradições. Questões objetivas, como a defesa de um salário mínimo justo, da previdência pública, da soberania tecnológica, dos recursos naturais, da biodiverisidade, da mobilidade urbana, da liberdade de Lula, da Petrobrás, da demarcação das terras indígenas e quilombolas, das relações de trabalho, das novas formas de família etc., são as que precisam ser questionadas e praticamente transformadas, e não aquelas que estão apenas no reino dos céus.

Percebam que, além de adotar um pensamento abstrato, uma parte das esquerdas brasileiras ainda não encara o mundo como atividade humana crítica, prática e sensível nas suas relações diárias. Em geral, a sua crítica ao processo histórico pressupõe indivíduos totalmente abstratos e sem interesses econômicos, sociais, culturais e/ou políticos. Trata-se de um “sentimento fantasioso”, pautado por terceiros e construído socialmente, em que os indivíduos deixam de ser reais ou considerados no contexto de uma determinada classe, de um determinado território e de uma cultura singular.

Como a vida em sociedade é, ao mesmo tempo, teórica e prática, todos os mistérios que conduzem a teoria para este tipo de abstração encontrariam a sua solução racional na consciência histórica, prática, crítica e sensível. No entanto, o máximo que os críticos contemplativos conseguem é analisar os indivíduos isolados do seu contexto social, pois o seu passatempo é o de apenas cobrar uma atitude “dos outros”, dos partidos, dos governos e das demais organizações políticas, porém o ponto de vista de quem quer mudar a sociedade deve ser crítico e propositivo. Ou seja, não ser apenas pautado, mas reconhecer a diversidade de interesses e encontrar os caminhos que sejam capazes de transformar-nos individual e coletivamente. Para isso ocorrer será preciso se comprometer com uma parte da sociedade na defesa da humanidade inteira, além de socializar-se e de engajar-se nas lutas locais e regionais.

Por exemplo, a maioria das pessoas não sabe ou não lembra que os governos militares devolveram o país para os civis em 1985 – por via de eleições indiretas – após uma longa crise do petróleo e do capitalismo internacional, e que eles deixaram como herança uma inflação e um custo de vida muito altos, uma enorme dívida externa (com o Fundo Monetário Internacional), o êxodo rural em todas as regiões do país, a favelização e o crescimento desordenado das cidades, assim como vários casos de corrupção, de torturas e de assassinatos de opositores. Também é raro encontrar pessoas refletindo sobre as mudanças que ocorreram no mundo de lá pra cá, como o caso das empresas multinacionais ou transnacionais que instalaram os seus parques industriais em território brasileiro (e sul-americano), criaram redes de transações econômicas e de espionagem que agem fora do controle dos governos, que surgiram novas tecnologias, novas profissões, e que já se formou uma nova estrutura de classes sociais no país e no mundo. E que, apesar dessas profundas mudanças e da experiência vivida de caráter democrático e popular, principalmente durante os governos Lula e Dilma, a maioria das forças da esquerda brasileira ainda mantém antigas concepções de mundo e de organização política.

Não é por acaso que a história do Brasil se repetiu (mais uma vez) como uma farsa. Para isso não ocorrer novamente, será preciso aprender com as experiências do passado, com aquilo que as organizações fizeram ou deveriam ter feito, inclusive com as aventuras, os heroísmos e as rebeldias que ocorreram no final dos anos 60 e no início dos 70, e com esta nova derrota eleitoral. Não podemos permitir que o derrotismo e a culpa invadam a mente das pessoas, pois 47 milhões de votos em #HaddadManu não é pouca coisa… Somados aos 42 milhões de votos brancos e nulos resulta que mais da metade do povo brasileiro não votou em Bolsonaro e que agora terá a oportunidade de adquirir uma consciência histórica, prática, crítica e sensível.

Saibam que este projeto entreguista, colonialista, racista e patriarcal somente terá chances de prevalecer por meio do marketing, da mentira, da violência, da repressão e do estado de exceção, no meio das chamadas guerras híbridas. Como as novas gerações já experimentaram tempos melhores e estão surgindo organizações livres, autônomas e democráticas, existe a possibilidade de o povo brasileiro acordar de vez e, finalmente, cicatrizar as suas feridas históricas. Não se trata de um jogo de apostas, mas de saber de qual dos lados estaremos a cada luta real e concreta que surgir. De que adianta acertar apostas sobre o futuro se não estamos juntos nas lutas do povo?

Para avançar, precisamos ousar até nos libertarmos de certas ilusões, fantasias e dogmas que persistem entre nós, antes que se dispersem as forças que emergiram nessas recentes experiências coletivas. Se não articularmos as atividades e as forças que surgiram em cada município, estado e país, não vamos ultrapassar as fases do consumo de informação e nem do mero elogio às “celebridades” políticas. Ou seja, ficaremos presos à rigidez dos gabinetes parlamentares, dos dirigismos partidários e não estaremos contribuindo para o fortalecimento das organizações que já atuam junto à sociedade.

Estamos de acordo que Bolsonaro é um falsário – um falso cristão e um falso nacionalista – e também que ele e Moro representam um aprofundamento do golpe e do desgoverno Temer… Mas não concordamos que se trata de uma aposta definitiva do neoliberalismo internacional. Percebam que o governo Bolsonaro começou a sangrar antes mesmo de implementar o seu programa, pois alguns países parceiros, estratégicos do ponto de vista comercial – como a China, a Rússia, a França e a Alemanha, por exemplo, já fizeram as suas primeiras advertências aos empresários brasileiros. Além disso, apenas 46 delegações estiveram presentes na sua posse, e isso é um sinal para bons entendedores.

Por outro lado, a família Bolsonaro já está envolvida em denúncias de corrupção e eles estão definitivamente obrigados a seguir as ordens de quem realmente está mandando no Brasil: o capital estrangeiro, aliado a sua intelligentsia nacional entreguista. O desastre ficou mais evidente após a adoção das primeiras medidas do novo governo, de retorno à órbita dos EUA, de exploração da força de trabalho, do poder dado aos ruralistas para demarcação de terras indígenas e quilombolas etc. Por isso precisamos reorganizar as nossas alternativas de poder local e global: depois de um breve período de refluxo e de reflexões, devemos estar preparados para as novas disputas e tempestades que se avizinham.

Como a vida é uma possibilidade, já que não depende apenas das vontades e das opiniões das pessoas, precisamos pensar na hipótese do falso messias, dos pastores gananciosos e desta casta militar entreguista não conseguirem iludir e enganar a maioria do povo por muito tempo. Quanto irá durar esta disputa entre os donos do capital e os trabalhadores brasileiros? A resposta está diretamente relacionada ao grau de desmemoria, de desorganização, de solidão e de descrença nas reflexões políticas que persistirem entre nós. Se não aprendermos a aproximar as relações digitais das presenciais ficaremos aguardando que ocorra um milagre no Brasil, e as futuras gerações serão obrigadas a enfrentar verdadeiros tornados, ciclones e furacões.

Nota do autor: este artigo foi escrito a partir de uma releitura das Teses sobre Feuerbach, do jovem Marx. Trata-se de onze notas curtas, escritas na primavera de 1845. O texto original somente foi traduzido para outras línguas em meados do século 20. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000081.pdf

É preciso estar atento e forte...

“É preciso estar atento e forte,
Não temos tempo de temer a morte...” 
Caetano Veloso

Os nossos direitos seguem ameaçados. No entanto, com as mobilizações de rua e os novos acontecimentos, como a delação da JBS e a pressão sobre Temer, o povo está aprendendo sobre o funcionamento dos lobbies das grandes empresas nacionais e internacionais no Congresso Nacional e também nos tribunais. Por isso, precisamos permanecer atentos e fortes, pois as horas e horas de notícias negativas nos principais meios de comunicação estão revelando a trama, mas também podem deixar uma parte da população ainda mais descrente e perplexa.
O fato é que, com o fim do pacto político, representado pelo processo de impeachment da presidenta Dilma, deu início a uma guerra contra os movimentos sociais e, principalmente, contra o PT e o ex-presidente Lula. O país entrou numa fase de intensas batalhas econômicas, políticas, jurídicas, psíquicas e culturais, de abrangência nacional e internacional. Milhares de empregos foram perdidos, o Congresso ficou nu aos olhos do povo, os juízes e procuradores se destacaram na cena política, aumentou a venda de Rivotril e as baixarias invadiram as redes sociais etc., etc., etc. As redes de televisão, rádios, jornais e algumas revistas semanais, a mando dos seus patrocinadores, não pouparam esforços para atacar quem denunciava o golpe, pois queriam defender e ampliar ainda mais os seus privilégios.
A grande mídia foi cooptada pelo bloco golpista à base de muito dinheiro público. E, mesmo assim, na adversidade, surgiram diversos movimentos sociais que ocuparam escolas, praças, esquinas e, depois, as ruas, com ou sem o apoio dos partidos, para defender os interesses dos trabalhadores e das camadas exploradas e excluídas da sociedade.
Esse período de resistências jamais pode ser esquecido por quem ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Vejam que em 2017 os ventos favoráveis à resistência popular sopraram muito mais fortes do que no ano anterior: no dia 8 de março, por exemplo, as mulheres e os homens do mundo inteiro fizeram grandes manifestações contra o preconceito e a exploração das mulheres. No dia 15 de março, ocorreram atos no interior do país e nas capitais contra a perda de direitos. E no dia 28 de abril, os movimentos sociais, as centrais sindicais e indivíduos de vários matizes ideológicos e partidários realizaram a maior Greve Geral da história do país, dando uma clara demonstração de unidade em torno das pautas contra o desmonte da previdência pública e em defesa da CLT. Depois ainda houve o dia 10 de maio em que o Partido dos Trabalhadores, o MST, o MTST e a CUT demonstraram uma imensa capacidade de unidade e mobilização, quando militantes vindos das mais distantes regiões do país ocuparam a cidade de Curitiba para dar apoio à maior liderança popular que o Brasil já teve: o Lula.
Ainda em maio, tivemos aquela grande manifestação em Brasília, e no dia 28 um grande ato-show por Eleições Diretas Já!, com a participação de Caetano Veloso, Wagner Moura, Criolo,  Martinália, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mano Brown, BNegão, Daniel de Oliveira, Sophie Charlotte e Milton Nascimento.
O filósofo Antonio Gramsci diria que nós estamos entrando numa nova fase da guerra de movimento e da guerra de posição. E o poeta Paulo Leminski completaria dizendo que: “En la lucha de clases todas las armas son buenas,  piedras,  noches,  poemas...” Por isso, e também por isso, não podemos cair na tentação de uma guerra puramente ofensiva, sem recuos, reflexões e celebrações nas cidades brasileiras.
Vejam que as forças conservadoras recuaram e só se ouve falar nelas no Governo (que tem 95% de desaprovação), no Congresso (que está totalmente desacreditado), nas redes sociais (ninguém duvida que sejam robôs e/ou pessoas contratadas) e em alguns meios de comunicação, como a Rede Globo, a Band, o SBT, a Veja e as rádios regionais. Fora isso, parece que os(as) patos(as) dispersaram ou "amarelaram" de vez!
Já se ouve falar até em divisões entre o Ministério Público, o STF e a Lava-Jato, e também entre o Senado e a Câmara dos Deputados. O fantasma do Teori Zavaski paira sobre Brasília, enquanto aumenta a força nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas e nas famílias brasileiras.
Por seu lado, Temer e Aécio, pegos recentemente – com provas - no mega esquema da JBS, estão em situação muito complicada. No entanto, mesmo com toda essa divisão do bloco golpista, Temer bate na mesa e afirma que não irá renunciar. Vejam que, diferentemente da Dilma, ele enfrentou os protestos em Brasília com a cavalaria, baionetas, gás lacrimogênio, balas de borracha e até com balas letais. A Rede Globo, junto com os lobbies, segue forçando as negociações “pelo alto” até tirá-lo do cargo e providenciar um sucessor que seja capaz de aprovar as reformas anti-povo e estancar a Operação Lava-Jato. Dizem que Aécio bebe, articula e chora desesperadamente, pois ele sabe que pode “ser comido”, como foi o Eduardo Cunha.
Mas se engana quem pensa que esta guerra será apenas "uma marolinha"! Recém estamos entrando na fase mais delicada e extrema da nova luta de classes, em defesa dos direitos do povo. É hora de escolher as melhores armas! As redes sociais, os blogs, o diálogo franco e o amplo esclarecimento sobre o que está em jogo fazem parte das nossas principais tarefas de mobilização e organização para os próximos atos-shows e manifestações.
Precisamos aprender a respeitar o tempo das pessoas e das organizações. A sabedoria está em adaptar os nossos desejos às atividades que existem no mundo real, e permanecermos dispostos(as) a acumular mais forças para prosseguir em frente. Se o futuro ainda é incerto, a paciência e a perseverança revelarão quem está junto conosco nos momentos decisivos.
Ainda não sabemos se Temer renunciará antes do julgamento da ação movida contra a chapa Dilma-Temer pelo STF. Cada semana será uma batalha diferente, e qualquer das alternativas também pode significar uma jogada do PSDB, do PMDB e do DEM e seus lobistas para evitar eleições diretas e aprovar as medidas impopulares. Neste momento da disputa, a grande maioria dos deputados e senadores dos partidos de esquerda está atenta e forte, mas ainda existem alguns vacilantes, principalmente os do chamado “Centrão”, pois eles sabem que jamais serão perdoados se votarem por eleições indiretas.
A hora é de união e não de divisão! Não podemos alimentar criticas às cores da bandeira que uma agremiação resolveu levar para as ruas. Uma, porque a luta atual não passa exclusivamente pelos partidos políticos. Outra, porque a Greve Geral do dia 28 de abril nos apontou o melhor caminho: as pautas defendidas mobilizaram e unificaram diversos setores da população. Além disso, ela tocou na parte mais sensível dos golpistas – o capital – e apontou para a possibilidade de formação de uma ampla frente política no Brasil, para além dos partidos.
– Ah, mas o Lula devia ter combatido a Globo quando ele teve a oportunidade e não o fez - reclama um. O outro desabafa: – As políticas do governo Dilma estavam equivocadas! E ainda tem aquela outra que defende: – A Lava-Jato é a solução para acabar com a corrupção no Brasil! Essas pessoas preferem morrer com a razão a escutar as ruas e a somar mais e mais esforços... Digam para elas que se perdermos as ruas, não há dúvidas de que virá uma nova ofensiva da Rede Globo e dos seus conhecidos aliados.
É hora das esquerdas se unificarem em torno de um projeto para o país, que inclua as pautas da previdência pública e da CLT, além da reforma política, dos juros e do Pré-Sal, entre outras. Mas também já está mais do que na hora de elas preservarem as lideranças que não cometeram crimes e de defender um julgamento justo para todos os suspeitos. As novas e antigas lideranças precisam mostrar maturidade política e contribuir nessas complexas tarefas.
Nesta nova fase da guerra de movimento e de posição, é preciso construir juntos e também celebrar os avanços obtidos. Percebam que os gritos de #ForaTemer”, #DiretasJá e #EmDefesaDosNossosDireitos já não estão restritos aos tradicionais grupos da esquerda brasileira. E isso é muito bom para o campo democrático e popular avançar ainda mais!

Um selfie com Mujica





“Não é só uma mudança do sistema, é uma mudança de cultura, é uma cultura civilizatória. E não tem como sonhar com um mundo melhor se não gastar a vida lutando por ele. Temos que superar o individualismo e criar consciência coletiva para transformar a sociedade.” – José Pepe Mujica

Quantas pessoas você conhece que admiram o ex-presidente Mujica? E agora, me responda: quantas dessas pessoas defenderiam as ideias de Mujica? Não estou me referindo à sua situação social e nem às escolhas de vida que José Pepe Mujica fez após passar 12 anos nas prisões uruguaias. Neste momento de crise ética e política, precisamos refletir sobre a sua dignidade e também sobre o exemplo que ele vem dando para todos nós ao falar de princípios e de valores não monetários. 

Poucas pessoas sabem que Mujica gosta de ler Sêneca (50 A.C) e diversos livres pensadores do passado e do presente, e pouquíssimas se dão conta de que ele também é fruto de um longo processo histórico vivido pelo seu país, o Uruguai. Por exemplo, lá as universidades foram criadas muitas décadas antes do que as brasileiras; há quase cem anos, na Constituição de 1917, o Estado foi separado da influência da Igreja; o presidente colorado José Batlle y Ordóñez incentivou um verdadeiro laicismo radical no país e, desde lá não se vê símbolos cristãos nas câmaras de “ediles” (vereadores), nas salas de aula, nos tribunais e nem nos hospitais da rede pública. Todas as religiões são respeitadas e, na posse dos presidentes o juramento é em nome da Constituição uruguaia e não da Bíblia. Isso, por si só, já revela a seriedade e a radicalidade da democracia republicana construída pelos hermanos.

Mas tem mais: os uruguaios aboliram a escravidão quarenta e seis anos antes do que o Brasil; o país foi o pioneiro ao permitir o divórcio por iniciativa da mulher em 1913 enquanto que a lei brasileira foi aprovada apenas no final dos anos 70 (cinquenta e sete anos depois); as mulheres uruguaias conquistaram o direito ao voto em 1917 e as brasileiras somente em 1932 (quinze anos depois). Recentemente eles conseguiram avançar ainda mais nos seus direitos civis, com a legalização da relação entre pessoas do mesmo sexo, com a não punição à prática do aborto até a 12ª semana de gestação e se tornaram o primeiro país no mundo a comercializar a marijuana pelo próprio Estado, como política de saúde e de combate ao tráfico de drogas. Nós, brasileiros, em pleno século 21, ainda estamos enfrentando o conservadorismo político e religioso que invadiu o parlamento, as prefeituras, as delegacias de polícia, milhares de residências e milhões de mentes desesperadas e solitárias.

Do ponto de vista do sistema político, os partidos uruguaios são seculares e o Frente Amplio, fruto da coalizão de várias organizações e de cidadãos independentes, reúne democraticamente toda a esquerda uruguaia desde 1971 e governa aquele país desde 2005. Essa maturidade política do seu povo dificulta as manobras espúrias e o surgimento de uma bancada que imponha as "leis divinas” e/ou defenda o monopólio da comunicação. José Pepe Mujica e quase toda a torcida do Penharol e do Nacional sabem disso!

Portanto, um selfie com Mujica deveria levar em conta que além de admirá-lo (o que não está errado!) todo fã precisaria compreender o que ele e o seu povo representam. Os brasileiros, por exemplo, deveriam valorizar os postos Petrobrás e evitar as multinacionais Esso, Shell e Texas Co. Ao comprar produtos orgânicos de produtores locais estariam reconhecendo a importância de fortalecer as cadeias produtivas regionais etc e tal. Enfim, todas as ações do dia-a-dia estariam sendo consideradas como atitudes políticas, ou melhor, adquirindo um sentido humano, local e universal.

Ou seja: a vida de qualquer pessoa está cheia de provações individuais e coletivas, principalmente para aquelas que assumem um cargo público ou fazem parte de um centro estudantil, desde um policial da esquina até um chef de cozinha, de um dirigente partidário e muito mais de um governador. Pois é numa dessas situações que a concepção de poder se manifesta e os indivíduos são testados. Nunca apenas pelo discurso ou nas postagens de ocasião. Ou melhor, se quisermos saber o verdadeiro grau de liberdade que um homem ou uma mulher defende, basta arrancar-lhes a sua concepção de mulher, ou como cada um(a) se refere ou se relaciona com as mulheres negras e/ou indígenas. E mais: perguntar-lhes se têm algum preconceito homoafetivo ou de religião. 

As concepções de poder estão por toda parte, mas muitas vezes algumas faces e representações ficam ocultas, e se manifestam apenas quando alguém assume um cargo ou uma função coletiva. Nas redes sociais qualquer um(a) se sente o rei ou a rainha da cocada, mas é na vida real que a porca torce o rabo. Por isso, é bom exercitar a capacidade que cada um(a) tem de solidariedade e de fraternidade, sem perder o senso de justiça, pois o mundo que queremos construir é de homens e mulheres livres e fraternos, e não de pessoas agressivas e odiosas. Não adianta ficar adjetivando os demais ou tratando o Mujica como uma estrela de rock, pois o nosso desafio é construir uma constelação de organizações autônomas com a máxima convergência possível dos olhares e dos saberes que aprenderam a ser solidários e propositivos.

Compartilhar o poder – micro e macro - não é para qualquer um(a). Ainda mais numa sociedade que segue gerando homens e mulheres individualistas e egoístas, em que muitas pessoas já perderam a fé na humanidade e recorrem ao divino, às verdades absolutas ou ao isolamento, pois perderam a crença nos seres humanos, que são elas mesmas. Às vezes é preciso passar por situações difíceis e adversas para se colocar no lugar de outra pessoa, e para entender a subjetividade e objetividade de cada cultura e moral existente. Não queremos apenas uma mudança do sistema, mas da cultura que dá sustentação a este sistema falido.

O nosso futuro será sempre construído por meio de passos objetivos, firmes e consistentes, pois esses sim serão lembrados daqui a dez, vinte e cinquenta anos, e não por aqueles que gritam mais alto ou falam somente frases genéricas. São as atitudes individuais e, principalmente as coletivas, que permitirão gerar novas reflexões bem mais complexas e que irão nos proporcionar outras dimensões da consciência. Por exemplo: é preciso compreender que se o conservadorismo cultural e político vencer o movimento contra o golpe no Brasil, en breve Mujica y nuestros queridos hermanos uruguayos serán agredidos como estamos siendo nosotros, los brasileños. Portanto, temos que superar o regionalismo e o nacionalismo até criar uma consciência planetária que seja capaz de transformar radicalmente a nossa sociedade.

                                                      Porto Alegre, 18 de maio de 2016.

Ricardo Almeida    


As crises e a síndrome das capivaras



"Ele não se apercebe de que há com ele algo de errado
porque
uma das coisas que nele andam erradas
é não se aperceber de que há com ele
algo de errado
portanto
temos que ajuda-lo a aperceber-se
de que o fato de não se aperceber
de que há com ele algo de errado
é uma dessas coisas
que nele andam erradas..." - R.D. Laing - Laços

Aprendi que um sistema baseado no mercado e em capitais especulativos entra em crises cíclicas (ou em ondas), assim como a noite vem depois do dia, que chove mais em determinadas épocas do ano e que surgem temporais devastadores em algumas regiões do planeta.  

         Esta crise brasileira de 2014, que começou no mundo inteiro em 2008, me fez lembrar que nos anos 70 ou 80 dezenas de capivaras foram encontradas mortas próximo à Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. E que, alguns meses depois os jornais anunciaram que uma equipe de cientistas conseguiu desvendar a origem daquele estranho fenômeno. Diziam eles: com a escassez de alimentos na região, as capivaras acabaram comendo umas às outras.

Este exemplo do reino animal revela que uma crise humana também pode ser analisada desse ponto de vista — da escassez — mas que existem outras maneiras de analisar uma crise. Ou seja: ela pode ser fruto de uma crise ética, ou de uma crise de consciência, da crise de valores e até de uma crise da criatividade, como, por exemplo, uma falta de entendimento de que é preciso realizar um pacto entre uma parte da sociedade para garantir direitos e avançar naquilo que as circunstâncias históricas permitem (aquilo que Antonio Gramsci, que lia Hegel e Engels, chamou de formação de um Bloco Histórico de classes). 

Uma questão importante para a compreensão das crises é a percepção de que elas não possuem uma causa única e nem acontecem de uma forma isolada, umas das outras. Ou seja, que de uma forma quase invisível elas acabam promovendo uma escalada de ações e de reações, de explosões e até de algumas atrocidades que muitas pessoas não querem saber os seus motivos. Numa sociedade acostumada com a banalização da violência, do medo e do ódio, é comum encontrar pessoas que elogiam a força bruta e gostam de provocar a inteligência das pessoas mais sensíveis. Como nos filmes e seriados de Hollywood, cidades inteiras começam a ser ameaçadas por “malucos" e reagem apavoradas, com a intenção de serem salvas por um super-herói ou por um “Salvador da Pátria”. 

Essas pessoas não conseguem ultrapassar a fase infantil das histórias em quadrinhos e caem — ingenuamente ou não — em velhas e conhecidas armadilhas. Elas ainda sentem medo quando o diabo, o bicho-papão, o cientista maluco, o Jason, o minotauro, os lutadores de UFC, os Malafaias e os Bolsonaros aparecem nas redes sociais ou na televisão. Como se fossem crianças esquecem que possuem uma capacidade de aprender e a elaborar raciocínios mais complexos, e assim reproduzem o medo e valores absurdos nas escolas, igrejas, redes de TV, jornais, blogs, revistas, amigos e nas famílias. 
Elas formam e contribuem para a criação de uma grande massa de pessoas desinformadas, que não entendem as crises de escassez econômica, ética, moral e política — e passam a procurar um culpado pela sua crise particular.  Como na Alemanha nazista e na Itália fascista, na maioria das vezes escolhem alguma cultura/etnia ou liderança política, partidos políticos e organizações sindicais, movimentos sociais e até a própria justiça, para criticar e desmoralizar, desde que essa não lhes seja favorável. O direito a julgamento é ignorado, pois elas não estão dispostas a ouvir o argumento dos acusados e elogiam delações de ladrões — tipo Barrabás —, acusações levianas e propagam essas suspeitas etc. 

No Brasil, pessoas com mais de 30 anos de idade já atravessaram crises semelhantes, mas isso não quer dizer que elas aprenderam alguma coisa com essas experiências. Poucas lembram, mas não falam, até onde uma crise aguda pode levar as multidões. Aquelas que não reconhecem as crises cíclicas - independente de posição ideológica - costumam agredir as que se revoltam contra as crises, e isso é um triste sinal de que nenhuma delas aprendeu com os livros e com as crises anteriores.

E o que isso tudo tem a ver com as capivaras e a escassez de alimentos? É que muitas pessoas vivem somente para o presente, não entenderam o passado e, assim, não conseguem imaginar um cenário futuro. Por se preocuparem apenas com o presente, nunca param para refletir e aprender sobre os motivos da crise que estamos vivendo. Sentem medo do futuro, pois em função da escassez, da alta dos preços e das suas limitações intelectuais (por que não?), o futuro acabou se tornou algo inseguro e incerto. 

Não querem saber, por exemplo, se os freeshops de Artigas, Rivera, Acegua, Río Branco e Chuy, no Uruguai – cuja maioria é de empresas multinacionais - estão vazios em função da subida dos juros nos EUA e que houve uma fuga do capital especulativo para aquele país, pois lá essas mesmas empresas lucram muito mais. Não entendem que muitas empresas e os banqueiros internacionais estão interferindo na cena política nacional para defenderem os seus velhos privilégios, pois o velho poder econômico está sendo ameaçado. E quando um país entra em perspectiva de tornar-se uma das grandes potências mundiais, aí é briga para “cachorro grande” (ou capivara grande). Os “gerentes” nacionais utilizam todos os meios possíveis para gerar pânico e histeria no cotidiano da população local, desde subir o preço dos alimentos ou desabaster as prateleiras dos supermercados, até bombardear as famílias com notícias negativas durante meses e meses, por meio dos jornais e dos canais de televisão. Se for véspera de um período eleitoral, aí sim que  o bombardeio se tornará insuportável, ao ponto de gerar e propagar irritações e histerias nos bares, nos lares e nas redes sociais. 

Neste contexto de crise, a luta contra a corrupção sempre ressurge, e se torna um prato cheio de ódio e de irracionalidades, com ameaças ao básico direito de “presunção da inocência” de uma pessoa. Como muitas estão desesperadas e "ameaçadas" pelas crises, já não param para pensar que corruptos podem estar querendo se passar por "bons meninos", que a sonegação de impostos também representa um desvio de verbas que poderiam ser destinadas à saúde, à educação e a outras áreas importantes para a própria população. Acreditam que quem está no governo possui todo o poder de mudar “as coisas”... Aprenderam na escola que existem três poderes, mas acreditam mais na televisão, pois ainda estão descobrindo as funções do Congresso e do Judiciário. Repetem em coro: "não gosto de política",  “a política é uma coisa ruim” e "nunca precisei dos políticos". No período de fartura o mérito era todo delas, mas no de crises é do governo de plantão e dos políticos. Mesmo assim, apesar de tudo, a vida  sempre será um processo vivo e dinâmico que ensina as pessoas que resolvem compartilhar suas experiências e prestam atenção aos fatos e a repetição dos fenômenos. Por isso, não dá para desistir!
Dá para aprender que “as coisas” e as circunstâncias mudam! Por exemplo: se antes os banqueiros e empresários compravam políticos e sindicalistas para defenderem as suas pautas políticas, agora eles já estão atuando no centro das disputas – é caso do Paulo Skaf, empresário e presidente da FIESP, candidato pelo PSB ao governo de São Paulo, em 2010, de Donald Trump, empresário, investidor e personalidade da mídia norte-americano, e candidato a presidente dos Estados Unidos nas eleições de 2016, e também do recém eleito empresário-presidente da Argentina, Maurício Macri. Ou indicando os seus representantes para fazer parte dos governos – como é o caso do Joaquim Levy, diretor-superintendente do Bradesco Asset Management (Bram), como ministro da Fazenda do Brasil. Todos apostam na alienação de setores das “classes médias”, que vacilam, com medo de não conseguir pagar as dívidas ou de perder o que conquistaram, sempre com o apoio de setores mais conservadores das igrejas e da sociedade.

Como foi visto, com a escassez dos alimentos, a alta do dólar, o aumento do valor das prestações do carro e da casa própria, assim como da diminuição do consumo, essa crise política e econômica também gera uma crise ética e cultural, e que sua compreensão é bem mais complexa do que uma simples partida de futebol, de uma disputa por siglas partidárias e/ou por crenças e valores religiosos. Essas ondas ressurgem de tempos em tempos e é preciso mergulhar no fundo do fundo do fundo das crises “cíclicas” e/ou “em ondas” do sistema capitalista para conseguir superá-las.
O desafio de quem não quer alimentar o ódio, o pânico e o canibalismo político-cultural é ultrapassar a fase da crítica pela crítica e também deixar de ser pautado pela grande mídia ou por comentários provocativos nas redes sociais. Esses medos, assim como as ameaças e as intrigas, perderão peso quando pessoas alegres e propositivas tomarem a iniciativa. Não adianta dizer que tal pessoa não entende isso ou aquilo, pois o problema dela é exatamente este: ela não entende o que está se passando em sua volta e prefere orar apenas pela sua prosperidade individual (é um egoísta divino).

Não há nada de errado em se indignar e criticar quem está incentivando o ódio e a alienação das pessoas, mas ficar apenas adjetivando a alienação, se vangloriando para os amigos mais próximos, ou postando provocações, desilusões e lamentos no Facebook deveria ser considerado como uma atitude de um(a) cidadão/cidadã ultrapassado(a) no seu próprio tempo. Estamos vivendo um momento da história com muitas informações disponíveis e, por isso mesmo, está mais do que na hora de compartilhar conhecimentos com pessoas que não pertencem aos mesmos círculos de amizade, pois não serão os mais rápidos que sobreviverão, nem os mais fortes, e sim os que ousarem, forem criativos e demonstrarem uma grande capacidade de argumentação, de convencimento e, principalmente, de organização.

Ricardo Almeida
Porto Alegre, março de 2016.