Argumento apresentado por Ricardo Almeida após a projeção do
filme Nostalgia da Luz, durante o
evento em homenagem ao Ano Internacional da Luz, promovido pelo Instituto de
Física da UFRGS.
Em 1973, eu tinha dezessete anos
e costumava assistir a filmes e comprar livros em Rivera, no Uruguai. Havia nove
anos o Brasil estava sob uma ditadura militar, e muitas obras foram proibidas
por aqui... Mas lá na fronteira a gente podia vê-las, pois ainda se respirava
os ares democráticos vindos daquelas bandas orientais. Lembro, inclusive, que
muitos casais brasileiros iam até Rivera para casar, pois los hermanos reconheciam o divórcio desde 1913 e aceitavam o
casamento de brasileiros. Enquanto isso, no Brasil, o divórcio ainda era
tratado como uma heresia.
No entanto, naquele ano houve o golpe militar no Uruguai e
também no Chile, e três anos mais tarde, na Argentina. Empresários brasileiros
reproduziam naqueles países aquilo que eles haviam feito aqui com o apoio
direto das forças armadas e das agências de espionagem norte-americanas (CIA e
outras). E todas essas ações foram financiadas por grandes empresas internacionais
que estavam se instalando em solo latino-americano em busca de mão-de-obra
barata. Recordo as milhares de Kombis e televisores que cruzaram a fronteira
logo após 1973 e, assim, aos poucos, eu fui compreendendo e me interessando
sobre as relações políticas, econômicas e comerciais que regem este mundo
dominado pelas grandes corporações.
Em 1975, fui estudar Arquitetura e Urbanismo na Universidade
Federal de Pelotas e me surpreendi quando soube do acordo realizado entre o
Ministério da Educação do Brasil (MEC) e a United States Agency for
International Development (USAID) para reformar o ensino brasileiro de acordo
com padrões impostos pelos EUA. Era muito fácil identificar o tecnicismo e a
departamentalização (fragmentação) da universidade, além da vigilância de
representantes do Serviço de Segurança Nacional – SNI – nas reitorias e até nas
salas de aula. Somado a isso, também havia uma repressão ao movimento estudantil, sendo
que os decretos 228 e 447 proibiam os estudantes de participar das discussões
políticas. Contraditoriamente, aquele ambiente hostil e opressor era um
verdadeiro convite para um jovem de dezenove anos se indignar e reagir contra
aqueles absurdos. Ainda mais aqueles
que tinham na memória alguma experiência democrática.
Lembro isso apenas para demonstrar o sentimento que deveriam
ter os mortos e desaparecidos durante os regimes militares que dominaram na
América Latina até meados dos anos 1980. O que faria um jovem que vê a sua
liberdade sendo tolhida sem explicações? O que faria um professor que não pode
ensinar a Teoria dos Conjuntos e a matemática moderna para os seus alunos? E
aquele que não pode estudar astronomia? Digo mais: o que faria uma pessoa digna
que sabe que militares e paramilitares estão torturando e matando jovens civis
inocentes em troca de um simples prazer e/ou de algum benefício pessoal? O que
vocês fariam se soubessem que alguns generais e políticos da situação
enriqueceram por meio de propinas e de desvios oriundos das empreiteiras e das
grandes obras realizadas naquele período, como a Ponte Rio-Niterói a
Transamazônica e a Hidrelétrica de Itaipu? O que vocês fariam se soubessem que
o seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS – estava financiando casas
para a alta classe média e para os mais ricos do país? São perguntas que chilenos
e brasileiros, principalmente esses dois povos, precisam fazer para que o
passado se torne apenas uma página virada da história.
O filme Nostalgia da Luz
é uma busca por esse tipo de atitude. O diretor chileno Patricio Guzmán procura
resgatar uma parte dessa memória e provocar a máxima compreensão possível dos fenômenos.
Tudo permeado por um forte desejo de justiça e também de tocar as sensibilidades.
Segundo palavras do próprio diretor “um país sem documentários é como uma
família sem um álbum de fotografias”.
O roteiro do filme é muito bem elaborado e acompanha as
reflexões de algumas pessoas que parecem viver em mundos paralelos, que pouco
se aproximam. Começa com uma belíssima apresentação do deserto de Atacama e da
magia daquele céu estrelado, onde um astrônomo faz as suas considerações sobre
a origem da vida e do Universo. Depois é a vez de um arqueólogo refletir sobre
a relação do tempo e dos acontecimentos históricos. E, finalmente, o diretor mergulha
no martírio de algumas mulheres que buscam o corpo dos seus entes queridos no
deserto, mortos pela ditadura de Pinochet. Embora fique bastante claro que a
intenção de Guzmán era aproximar esses mundos paralelos e propiciar um diálogo
entre eles, ele não consegue isso durante as entrevistas. Salvo pequenas
referências, principalmente as vindas do arqueólogo. Então o filme deixa claro
que todos fizeram um tipo de pacto do silêncio (inconsciente ou não) para não
denunciar o passado mais recente do Chile. Algo parecido com o que acontece no
Brasil, resguardadas as suas diferenças políticas e culturais.
Não se trata de um filme de ficção e nem mesmo de uma
reflexão presa ao passado. A primeira conclusão que eu faço é a de que todos os
protagonistas procuram algo que eles não sabem se irão encontrar: os astrônomos
procuram pela origem da vida e do universo, utilizando os maiores telescópios
que existem no planeta. Os arqueólogos buscam parte da memória da América
Latina, pois no deserto de Atacama – cenário do filme –, rico em salitre e sem umidade, estão
mumificados restos de corpos humanos, desde os povos primitivos, dos
colonizadores, de pesquisadores e de historiadores que se perderam naquela
imensidão. As mulheres buscam os corpos, ou parte dos corpos, dos seus entes
queridos, já que o regime de Pinochet criou campos de concentração no deserto e
também jogou milhares de corpos de opositores no mar e naquela região. Chama
atenção uma fala do arqueólogo quando diz: “conseguimos nos interessar pelo
passado mais longínquo, mas não conseguimos sequer pensar no que aconteceu
vinte e poucos anos atrás”. Eis uma das principais provocações do filme.
A segunda reflexão que me veio à cabeça foi sobre o mito de
Antígona, que trata do desejo que o ser humano tem de enterrar os seus mortos.
Um rito de passagem que serve para dar sentido à vida, além de assimilar aquele
sentimento de perda que felizmente ainda existe entre nós. Acredito que este
foi o argumento que orientou o título do filme, pois a nostalgia nos remete à
dor e à saudade, enquanto que a luz pode ser vista como uma expansão do
universo, mas também, metaforicamente, como a necessidade de um conhecimento
mais amplo e complexo. Vejam que no filme nem o astrônomo consegue se colocar
no lugar daquelas mulheres e nem elas conseguem se libertar do passado e
entender que é preciso recorrer à justiça dos homens. Ou ainda, que nós somos
insignificantes em relação ao planeta e às galáxias.
Há muito tempo eu me incomodo quando alguém cita a teoria do
Big Bang, pois para mim - aprendi isso com os mouros da Península Ibérica dos
séculos 12, 13 e 14 - “o universo não tem começo e nem fim”. Como diz o
astrônomo “toda a busca infinita sempre vai encontrar novas perguntas”, apesar
de encontrar também algumas respostas provisórias, é claro! Essa é a minha
terceira reflexão e ela não desmerece as buscas que os cientistas fazem sobre a
origem dos fenômenos. Apenas trato cada uma delas como uma fronteira cultural,
da ciência e/ou do pensamento, como pontos de referências e não como alguns
querem, infinitamente. Ou ainda, como diria Edgar Morin: “uma teoria é
científica quando a sua falsidade pode ser demonstrada”, do contrário ela seria
apenas uma demonstração de uma experiência, de uma técnica, e não da ciência,
que é sempre dinâmica e contraditória.
A minha quarta reflexão parte do princípio de que uma pessoa
pode ter a sua máxima compreensão possível dos fenômenos e nunca de todas as
dimensões desse mesmo fenômeno. Que dependendo do ponto de vista e da
capacidade de raciocínio das pessoas, a leitura da realidade pode se modificar.
O astrônomo, por exemplo, estava focado nas questões que aconteceram há milhões
de anos luz, enquanto o arqueólogo, há 10 mil anos, e as mulheres ficaram
presas aos anos da ditadura de Pinochet. A pergunta que fica é a seguinte:
seria possível aproximar essas três dimensões da realidade? Adotar uma visão
complexa e multidimensional da realidade? Eu diria que sim, mas que se trata de
um exercício cultural a ser trabalhado, no qual o filme de Guzmán contribui de
maneira exemplar. Esse parece ser o desejo do diretor.
Diferentemente dos seus documentários
anteriores, em que ele utilizou uma linguagem considerada hiper-realista, Nostalgia da Luz é uma metáfora poética
e profunda sobre o homem, a sua relação com as ciências, a religião, a
política, o planeta Terra e o Universo. O deserto de Atacama foi escolhido como
cenário porque lá coexistem todas essas dimensões da vida. No final, muitas
perguntas ficam soltas no ar — e no universo, por que não? —, e isso é mais uma
das qualidades do filme, pois cada um(a) pode responder às reflexões segundo a
sua capacidade de elaboração e das suas convicções morais, religiosas e/ou
científicas.
Percebi que o desafio do diretor era o de identificar alguns "laços" que amarram essas reflexões e que permitissem viajar além do tempo passado, presente e futuro, misturando ciências, mistérios e até religiões. Isso fica claro ao entrevistar uma jovem astrônoma, filha de pais desaparecidos, que foi criada pelos avós - sendo que esses, na sua ingenuidade, haviam entregado o casal para os militares – em que ela diz já ter assimilado e entendido o seu passado, enquanto embala o filho pequeno para dormir. Enfim, o filme não aponta soluções coletivas e nem deixa claro se a justiça desejada pelos protagonistas e pelo diretor é divina ou terrena. Mas analisando a obra do Patricio Guzmán eu diria que ele se propôs apenas a revelar um retrato do Chile atual e por isso mesmo escolheu um título que falasse de esquecimento. Ou seja, da saudade (nostalgia) do conhecimento (luz) complexo.
Porto
Alegre, outubro de 2015.
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