O remédio e o veneno


“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”
Ditado popular

Estamos vivendo aqueles dias que valem mais do que vinte anos. Uma grande onda de relacionamentos virtuais e presenciais está apaixonando as novas gerações e hipnotizando os mais velhos, ainda perplexos com os recentes acontecimentos no país e no mundo. Vídeos, fotos, notícias e milhares de informações continuarão a ser publicadas diariamente nas redes sociais, na TV e nas rádios, alimentando um dinâmico ambiente de liberdade individual e coletiva.

       A geração dos anos 90, diferente das anteriores, se alimentou de informações e de conhecimentos que acabaram forjando livremente as suas múltiplas opiniões pessoais e políticas. Enquanto isso, os mais velhos ainda curtiam a internet como se ela fosse uma televisão, um jornal e/ou um telefone. Assim, desse jeito meio estranho e desencontrado, foi se criando um silencioso hiato cultural e político entre as gerações. Mas agora, depois que os mais novos revelaram todo o seu aprendizado nas ruas, foi formada uma primeira onda de indignações, de conflitos, e também de conquistas.

       Assim, como num relance, as pessoas foram jogando as suas indignações para o ar e depois, aos poucos, começaram a definir algumas pautas de reivindicações municipais, estaduais e nacional. Ao mesmo tempo, uma ala de fatalistas permanecia de plantão: os partidos estão falidos, dizia um. Todos são manipulados pela grande mídia, publicava outro. Os políticos são todos iguais, compartilhava uma amiga distante. E tudo isso que circulava apenas nas redes sociais, agora invadia as ruas. Assim, meio desajeitada, pela fragilidade das atuais estruturas organizacionais, a sociedade civil começou experimentar a democracia e a separar o joio do trigo. Quem não entender o que está acontecendo, sem dúvida alguma, vai se tornar refém dos atuais e dos futuros acontecimentos. 

      Muito mais do que um debate entre “situação” e “oposição”, já deu para perceber que estamos vivendo um importante momento histórico, simbolizado pela popularização da internet, combinado com uma nova recomposição das classes sociais no Brasil e no mundo. Nesses novos tempos, os velhos discursos que sempre reivindicavam a existência de uma direção "pré-definida" mostraram-se ultrapassados, assim como os discursos daqueles(as) velhos aventureiros que sempre querem ver o “circo” pegar fogo. Ambos concebem a sociedade como um objeto e não como formada por sujeitos reais e autônomos.

    Por isso, além de exigir mudanças profundas dos governos, precisamos trabalhar as mudanças subjetivas em nós mesmos, condenando os saques ocorridos e as depredações dos prédios públicos, por exemplo. Esse tipo de aprendizado político, às vezes, somente acontece na prática, na vivência e nas contradições da vida.

      Estamos vivendo um tempo diferente das experiências anteriores, pois ele exige o reconhecimento dos novos espaços livres, autônomos e participativos criados no território da internet. Somente assim poderemos ampliar o controle social sobre as ações dos governos municipais, estaduais e federal, como também do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Mas começando pelas direções dos nossos condomínios, das nossas associações de bairro, das universidades, das escolas, dos hospitais, dos postos de saúde, das compainhas de transportes urbanos e interurbanos, etc. Ou seja, além de protestar precisamos atuar como “retaguarda crítica” das nossas organizações. Não se trata de esvaziar a luta de rua, mas de reconhecer que os movimentos são cíclicos e que, para se tornarem consequentes, eles exigem momentos de avaliação dos avanços organizativos, dos possíveis recuos e também das novas conquistas.

      No caso do Brasil, estamos conseguindo atravessar a crise do capitalismo mundial através do incentivo ao consumo e da inclusão econômica de milhares e milhares de brasileiros no mercado de trabalho. Com isso foram mantidos os empregos e a estabilidade de muitas famílias, mas deixamos para trás a reflexão mais profunda sobre as estruturas de poder e o controle social da coisa pública e até esvaziamos as nossas entidades representativas. Dependendo dos rumos que esse processo tomar, podemos deixar mais um bom exemplo para o mundo que ainda está em crise profunda.

      Portanto, como foi dito, além de protestar é preciso avançar no controle social da coisa pública, com propósitos e princípios claros, capazes de facilitar a comunicação interna e externa e não destruir o ambiente democrático que levamos anos para construir. Uma construção coletiva desse tipo será sempre complexa e dinâmica, e não possui uma fórmula pronta, nem será implementada de cima para baixo. Tudo dependerá da cultura política que hegemonizar uma rede social orgânica ou dos processos políticos reais que ocorrem num determinado território (município, região, estado ou país), até alcançar o reconhecimento de todo o planeta.

      O Movimento Passe-Livre (MPL), por exemplo, que está organizado em vários estados, acabou conquistando muito mais do que pretendia: contribuiu para baixar o preço da passagem em algumas capitais e cidades de médio porte, abriu a caixa-preta do transporte em São Paulo e se alastrou enquanto organização autônoma e democrática. Assim, saiu fortalecido desse novo processo.

      Os governos seguem escutando, negociando e se boa parte dessa sociedade civil que foi para as ruas conseguir se organizar, poderemos avançar muito mais em importantes questões, como: UM PLANO NACIONAL DE MOBILIDADE URBANA, MAIS INVESTIMENTOS NA ÁREA  DA EDUCAÇÃO E DA SAÚDE, COMBATE À CORRUPÇÃO (que agora será tratada como crime hediondo) e UMA REFORMA POLÍTICA QUE ABSORVA PROPOSTAS DE CONTROLE SOCIAL.

      Outra grande novidade desse processo é que, pela primeira vez na história deste país, os mesmos meios de comunicação que apoiaram as ações violentas da Polícia Militar passaram a incentivar as manifestações de rua numa clara disputa pela hegemonia dos movimentos. A Polícia Militar passou a proteger as sedes das emissoras de TV e os órgãos de comunicação passíveis de ataques, pois a desconfiança sobre eles também ficou evidente. Mas, depois que todas essas notícias se alastraram em tempo real pelas redes sociais, ficou provado que a grande mídia não mais detém o controle total das informações (como anos atrás). Portanto, o nosso desafio passou a ser a escolha das bandeiras políticas (ou vocês acham que alguém é neutro nessa história?).

     Ainda é cedo para qualquer conclusão definitiva. Mas, depois dessa primeira “onda” de protestos no país, já se pode arriscar algumas opiniões. Por exemplo: 

     1º) É possível perceber que as pessoas estão se expondo muito mais do que em dias “normais”: do anarquista ao repressor, do libertário ao conservador, do oportunista ao franciscano, do novo rebelde sem causa ao novo rebelde com causa. Portanto, fica mais fácil identificar as suas contradições internas;

     2º) Ainda não dá para perceber qual é a correlação de forças (culturais, políticas e sociais) que vai ficar como herança desse rico processo. Em Porto Alegre e no RS é possível reconhecer um determinado acúmulo político, mas no estado de São Paulo, é bem diferente. No Rio de janeiro, Pará e em Pernambuco, os ingredientes são outros, e assim sucessivamente... Essa realidade irá definir a composição do Congresso e da chamada "governabilidade";

     3º) Deu para identificar claramente - nas ruas, na TV e na internet – que alguns grupos irresponsáveis queriam apenas ver o país pegar fogo. Mas também foi possível identificar muitas demandas democráticas e justas que surgiram. O desafio será o de organizá-las e potencializá-las ao máximo, até que elas se tornem projetos e programas viáveis;

     4º) O Governo Federal, assim como alguns governos estaduais e municipais já reconheceram a necessidade de mudanças, sendo que o governo do Rio Grande do Sul está (re)criando canais permanentes de participação e controle social, chamando as forças que se manifestaram nas ruas para um diálogo permanente e de construção do futuro.

     Dito isso, fica claro que, além de celebrar as nossas conquistas, é fundamental organizar redes orgânicas e autônomas de relacionamentos, elevar o nível do debate, esclarecer as desinformações e as intrigas que ainda são publicadas nas redes sociais e na grande mídia. Mas, cuidado! Também precisamos combater as manifestações autoritárias e antidemocráticas que aproveitam estes momentos de indignação e rebeldia para semear o ódio. Enfim, precisamos ser criativos. Apenas para evitar que esse maravilhoso remédio se transforme numa overdose de delírios e de lamentações.
Porto Alegre, junho de 2013.

Os cabelos da Terra

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado conta uma história profundamente pessoal, da arte que quase o matou, e apresenta novas imagens de paisagens, animais, pessoas e lugares esquecidos.

A amizade

A música L'Amitie, interpretada por Françoise Hardy, serve de pano de fundo no final do filme As Invasões Bárbaras, de Denys  Arcant. Afinal, o que somos nós sem os nossos melhores amigos e amigas?


As contradições do silêncio

Muita gente ainda acha que era melhor viver nos anos 60, na época da Tropicália, da resistência democrática e dos grandes festivais. Quero lembrá-los(as) de que naquela época éramos vigiados e reprimidos por ditaduras militares no Cone Sul e pela Lei de Segurança Nacional, no Brasil. Então, como poderia ser melhor do que hoje? É fácil entender tal contradição quando se lê o ensaio A República do Silêncio, de Jean-Paul Sartre. A subjetividade desse texto expõe o sentimento daqueles que vivenciaram situações limites e as enfrentaram com inteligência e organização. 

A República do Silêncio
Jean-Paul SARTRE
Les Lettres Nouvelles, 1944. (Tradução: Fernando Vidal Filho)

Jamais fomos tão livres como sob a ocupação alemã. Tínhamos perdido todos os nossos direitos, sobretudo aquele de falar; insultavam-nos na cara a cada dia e era preciso que nos calássemos; deportavam-nos em massa, como trabalhadores, como judeus, como prisioneiros políticos; em toda parte, nos muros, nos jornais, nos cinemas, reencontrávamos a imunda e insípida fisionomia que nossos opressores queriam dar a nós mesmos: por tudo isso, éramos livres. O veneno nazi penetrava até em nosso pensamento, por isso cada pensamento justo era uma conquista; uma polícia todo-poderosa buscava constranger-nos ao silêncio, por isso cada palavra se tornava preciosa como uma declaração de princípio; éramos caçados, por isso cada um de nossos gestos tinha o peso de um engajamento. As circunstâncias sempre atrozes de nosso combate nos colocavam enfim a viver, sem fardo e sem máscaras, esta situação dilacerada e insustentável que se chama condição humana. O exílio, a prisão, a morte sobretudo, que se mascaram habilmente em épocas felizes, fizeram-se objetos perpétuos de nossa arreliação, e descobríamos que não são acidentes evitáveis, nem mesmo ameaças constantes, porém exteriores: era preciso ver nisso tudo nosso quinhão, nosso destino, a fonte profunda de nossa realidade de homem; a cada segundo vivíamos em sua plenitude o sentido desta pequena frase banal: “Todos os homens são mortais”. E a escolha que cada um fazia de si mesmo era autêntica pois se fazia em presença da morte, assim ela teria sempre podido se exprimir sob a forma “Melhor a morte que…”. E não falo aqui dessa elite que foram os verdadeiros Resistentes, mas de todos os franceses que, a cada momento do dia e da noite, durante quatro anos, disse não. A crueldade mesma do inimigo nos empurrava até os extremos de nossa condição e nos constrangia a colocar questões que se escamoteiam em tempos de paz: todos entre nós – e qual francês não esteve uma vez ou outra nessa situação? – que conheciam um ou outro detalhe sobre a Resistência se perguntavam com angústia: “Se me torturarem, eu agüentarei?” Assim, a questão da liberdade era posta e nós estivemos no limite do conhecimento mais profundo que o homem pode ter de si mesmo. Pois o segredo de um homem não é seu complexo de Édipo ou de inferioridade, é o limite mesmo de sua liberdade, seu poder de resistência aos suplícios e à morte. Àqueles que tiveram uma atividade clandestina, as circunstâncias de sua luta trouxeram uma experiência nova: eles não combatiam à luz do dia, como soldados; perseguidos em sua solidão, presos em sua solidão, no abandono, na miséria mais completa eles resistiam às torturas: sozinhos e nus diante dos carrascos de barbas feitas, bem nutridos e bem vestidos que zombavam de sua carne miserável e a quem uma consciência satisfeita, uma potência social desmesurada davam todas as aparências de ter razão. No entanto, no mais profundo dessa solidão, eram os outros, todos os outros, todos os camaradas da resistência que eles defendiam; uma só palavra era suficiente para provocar dez, cem prisões. Esta responsabilidade total na solidão total, não é isso o desvendamento de nossa liberdade? Esse desamparo, essa solidão, esse risco enorme eram os mesmos para todos, para os chefes e para os homens; tanto para aqueles que levavam mensagens cujo conteúdo ignoravam quanto para aqueles que decidiam sobre tudo na resistência, uma sanção única: o encarceramento, a deportação, a morte. Não há exército no mundo em que se encontre semelhante igualdade de riscos para o soldado e para o general. E é por isso que a Resistência foi uma verdadeira democracia: para o soldado como para o chefe, o mesmo perigo, a mesma responsabilidade, a mesma absoluta liberdade na disciplina. Assim, na sombra e no sangue, a mais forte das Repúblicas se constituiu. Cada um de seus cidadãos sabia que dependia de todos e que podia contar apenas consigo; cada um deles desempenhava, em seu desamparo total, seu papel histórico. Cada um deles, contra os opressores, empreendia ser si mesmo, irremediavelmente e se escolhendo a si mesmo em sua liberdade, escolhia a liberdade de todos. Esta república sem instituições, sem exército, sem polícia, era preciso que cada francês a conquistasse e a afirmasse a cada instante contra o nazismo. Encontramo-nos no presente à beira de outra República: esperamos que ela conserve, à luz do dia, as austeras virtudes da República do Silêncio e da Noite.

Para a Dona Noemy


 
  A minha mãe nasceu numa família de músicos e hoje, quando surge uma roda, ela está sempre disposta para cantar. Lembro que lá em casa ela tocava piano, e a gente escutava Carmem Miranda, Ari Barroso, Noel Rosa, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Nora Nei, Dolores Duran, João Gilberto, Dick Farney, Nat King Cole, Frank Sinatra, Chub Checker, Elvis Presley e tantos outros. Eu nasci nos anos 50, e lembro que os adultos ainda celebravam o Pós-Guerra, com a vitória dos aliados, a vitória do Juscelino, após a trágica morte de Getúlio Vargas, a fundação da nova Capital Federal, a chegada da indústria automobilística, a luta de João Goulart pelas Reformas de Base, e até que se ouvia falar na vitória das revoluções chinesa e cubana e também na difusão da psicanálise. Em Livramento-Rivera, existiam vários cinemas e a genialidade dos filmes de Alfred Hitchcock era outra grande atração daqueles anos. A TV, o som estereofônico, o esplendor do jazz e da bossa nova e a repressão política ainda estavam por chegar.

Mas a minha "veia musical" vem de muito longe, pois a menina Noemy acompanhava os seus tios nas rádios e apresentações que aconteciam nos cinemas da cidade (veja foto acima). Na casa da minha vó e dos meus tios sempre tinha uma “seresta”, sendo que dois deles "destrossavam" o violão enquanto outros ensaiavam a percussão... Não é preciso dizer que, naquelas reuniões de família a cantoria se estendia tranquilamente pela madrugada... Mas, de vez em quando, os meus irmãos davam um show de “twist” para que o pessoal conhecesse “aquela dança diferente que surgia”. Assim, sempre de uma maneira simples, ingênua e divertida, fomos nos sensibilizando com todo o tipo de música.  O meu pai, que na época era rádio- amador, fazia a parte dele, gravando as cantorias, que depois convertia em discos de 78 rotações.

Foi neste ambiente, mas no final dos anos 60, que eu comprei o meu primeiro Compact Disc. Lembro que era para comprar uma máscara de mergulhar e que, na hora, resolvi trocar por um disco dos Beatles, com o título de “Twist and Shout”. Acho que depois disso nunca mais me separei do prazer de pesquisar e de escutar música. Até porque o meu irmão Lica também comprava muitos discos, e eu aproveitava “a carona” conhecendo, escutando e “pegando” alguns novos compositores, quando ele se descuidava. Mas, no final dos anos 70, quando eu morava na Praia do Laranjal, em Pelotas, me roubaram mais de quinhentos LPs, que eu nunca mais consegui recuperar. Ainda bem que sobraram alguns, recuperei muitos em CD e agora temos a internet para pesquisar e baixar os preferidos. 

Na minha adolescência, escutei de tudo um pouco: além dos já citados, curti Roberto e Erasmo Carlos, Renato e seus Blue Caps, Lafayette e sua Orquestra, e também João Gilberto, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho Nogueira, Maria Bethania, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Rogério Duprat, Antônio Adolfo, Bob Dylan, Joan Baez, The Doors, The Birds, Joe Cocker e claro, The Beatles e Rolling Stones. Dei umas circuladas pelo rock and roll e Boogie-Woogie do T.Rex e pela guitarra psico-libertária do Jimmy Hendrix. No final dos anos 60, Simon and Garfunkel tocava em todas as rádios, pois a trilha do filme A Primeira Noite de um Homem era toda deles. James Taylor e Carole King também faziam um enorme sucesso com You've got a friend. Nesta época de Woodstock, curti o álbum todo do festival, mas me impressionava a qualidade do Pearl e Kosmic Blues, da Janis Joplin e dos Soul Sacrifice e Abraxas, do Santana. Depois, numa época de rebeldias e de resistência democrática, entraram na minha vida musical o América, o Pink Floyd, o Jethro Tull, o Led Zeppelin, o Miles Davis, o J.J.Cale, o John Mayall, o Egberto Gismonti, o Hermeto, o Moleque Gonzaquinha, o Milton Nascimento, a Mercedes Sosa, a Elis e tantos outros... Mas tudo isso é papo para muitas madrugadas...

Agora, quando estamos experimentando um período mais estável e mais longo de democracia, estou vivendo uma fase light da minha sensibilidade musical, sem desprezar nenhuma daquelas  heranças musicais. Se é verdade que “quem puxa aos seus não degenera”, tenho que agradecer à Dona Noemy e à família Nascimento Marques pelo prazer artístico e musical que eles me transmitiram.

Gracias, viejos muchachos y muchachas.

Diálogos com Zygmunt Bauman

Eu sonho com o dia em que a internet substitua a TV... Estamos perto disso! Assim, teremos mais controle sobre a programação e não seremos mais "programados" para assistir "a grade" e os finais sem surpresa! Enfim... Aqui vai uma entrevista que eu gostaria de ver na TV, mas só consigo ver no Youtube. Ainda bem... Seguimos?

Silver Hollow

Escutem e percebam a sensibilidade deste time formado por Jack DeJohnette (bateria), Herbie Hancock (teclados), Dave Holland (baixo) e Pat Metheny (violão). Esta gravação foi realizada em 1990, no Mellon Jazz Festival (Pittsburgh, Pennsylvania). Conheci Silver Hollow lá por 1978, através do LP New Directons, de Jack DeJohnette, autor dessa pérola. As duas gravações são belíssimas, mas escolhi essa, com um solo singularísssimo de Pat Metheny. Qual foi o motivo da minha escolha? Somente escutando...

Da infância à maturidade das nossas organizações

Dedico este texto ao meu grande amigo José Eduardo Utzig¸in memorian, que não alcançou forças suficientes para resistir às barreiras impostas pela velha cultura.

“Não sois máquinas, homens é que sois”
Charles Chaplin


       Assim como as pessoas, as organizações passam por diferentes estágios até chegarem à fase que chamamos de maturidade. Na primeira infância, elas preocupam-se com os seus interesses individuais, corporativos, no caso das organizações, voltadas para dentro. Na sequência, experimentam a fase das descobertas técnicas, artísticas e científicas, o chamado mundo das habilidades e, somente se conseguirem superar essas duas fases anteriores, acessam o estágio do conhecimento e da criatividade compartilhada.

       É comum as pessoas e as organizações permanecerem por muito tempo numa das duas primeiras fases, pois a terceira requer um forte domínio de técnicas de gestão sofisticadas e complexas, além de exigir um desejo radical de compartilhamento de conhecimento e de sabedoria, com a sublimação de impulsos infantis (egoístas) e uma abertura para o novo: o desconhecido.

       Na segunda fase, as habilidades técnicas, científicas e/ou artísticas individuais são aprendidas e, quase automaticamente, servirão de base para superá-la. No entanto, a técnica é como um remédio que vicia. Todo sujeito que está recém se iniciando nela, no afã de aplicá-la, acaba sempre substituindo a leitura sensível da realidade pela obediência cega aos procedimentos aprendidos. Nesse caso, a complexidade da realidade passa a não ser compreendida como ciência (no seu contraditório) e sim como técnica, induzindo a avaliações distorcidas e limitadas, caindo na armadilha do saber formal e burocrático.

       Por seu lado, o processo de amadurecimento exige algumas superações e até rupturas, pois ele requer a destruição das amarras forjadas na velha cultura hierárquica e/ou de “castas”, baseada em cargos, originárias dos exércitos, das igrejas e, a partir da segunda revolução industrial, dos partidos e dos governos tiranos. Mas também requer, fundamentalmente, uma nova cultura voltada para resultados (tanto de produtos como de processos), a partir da ação atenta das pessoas envolvidas.

       Em todos os casos, a valorização e a capacitação das pessoas é um fator fundamental, pois elas precisam ser entendidas como sujeitos e não como “instrumentos” da política definida. Ou seja, uma organização não consegue formar equipes conscientes e comprometidas em pouco tempo de vida. No caso dos governos é mais complicado ainda, pois a visão de futuro pretendida também precisa convencer  e envolver os servidores públicos de carreira. Sem eles, a execução e os resultados esperados jamais aparecerão.

       Portanto, percebe-se que a gestão voltada para projetos e a busca por melhores resultados é muito mais complexa do que planejar, conseguir financiamentos e assinar contratos. Ela requer, em primeiro lugar, que se adote uma visão sistêmica dos processos e depois que se escolha alguns eixos centrais para serem pactuados e trabalhados (planejamento e gestão dos processos e dos resultados) em detalhe.

Aprender ou mais tentar

Descobri as melodias do Toninho Horta no mesmo período em que descobria os meus sentimentos mais profundos. Por isso, sempre que posso, busco a intensidade daquelas harmonias que me foram  repassadas através de velhos vinis e de sonhos distantes. Hoje, quero compartilhar uma delas com vocês!



Se eu já nem sei o meu nome
Se eu já nem sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz estrada pó
O Jeep amarelou
Manoel o Audaz, Manuel o Audaz, Manuel o Audaz
Vamos lá, viajar
E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar
Manoel, o Audaz
Iremos tentar
Vamos aprender

Sábato, o indivíduo e o universo

 “Uno se embarca hacia tierras lejanas, o busca el conocimiento de hombres, o indaga la naturaleza, o busca a Dios; después se advierte que el fantasma que se perseguía era Uno mismo” 
Uno y El Universo - Ernesto Sábato
 
  A primeira vez que li o texto de Ernesto Sábato eu tinha dezenove ou vinte anos. Era meados dos anos 70 e ainda era possível comprar bons livros nas livrarias de Rivera, no Uruguay. No Brasil quase não existiam livrarias e as editoras eram intensamente vigiadas e censuradas pela ditadura militar. Uno y El Universo chegou nas minhas mãos quase por acaso, pois foi uma daquelas escolhas aleatórias que se faz quando se está começando a refletir sobre a própria existência.
  Naquela época eu ainda não lia filosofia. Antes tinha lido apenas romances para a escola, além de O Muro, livro de contos de Sartre, e alguns textos pedagógicos de Paulo Freire e antropológicos de Carlos Castañeda. Hoje sei que todos eles foram fundamentais para a construção do meu eu mais profundo.
 A vida era como um túnel que se abria a minha frente, e eu me sentia na obrigação de realizar aquelas reflexões básicas sobre a condição humana. Assim, aprendi a questionar a existência de Deus, sobre a necessidade de uma mínima ação, a refletir sobre o orientalismo, sobre a necessidade da fé e sobre o papel contraditório da ciência e da espiritualidade.  
Com o passar dos anos comprei mais alguns livros de Sábato, de Cortázar e de Borges, para dar continuidade àquelas reflexões contraditórias que comecei a fazer lá atrás. Agora que Ernesto Sábato morreu (abril de 2011) resolvi dedicar um texto a ele, baseado nos ensinamentos que ele me passou. Vejam o que consegui:

           Ernesto Sábato, argentino e universal



    
       
 Pessoas dogmáticas se negam a aceitar novas reflexões, pois avaliam que não vale a pena procurar explicações para questões que não foram mencionadas pelos seus velhos gurus. Elas se contentam em ficar ad-mirando fotografias de um tempo que já não existe mais, e reproduzem aquele velho e quase eterno imaginário do inferno e do paraíso, do bem e do mal, do que me agrada e do que me contradiz. Assim, com o passar do tempo, o éden e as trevas vão se armazenando como armadilhas super bem montadas nessas mentes polarizadas, e jogam com os homens, como se eles vivessem dentro de fotografias amareladas pelo tempo.

Eu não tenho dúvidas de que na primeira metade do século 20 era bem mais difícil expor um pensamento anti-dogmático. Que nos digam Sábato, Wilhelm Reich, Bertold Brecht, Hannah Arendt e outros pensadores libertários perseguidos por diferentes regimes. Ainda bem que hoje algumas psicologias e espiritualidades já conseguem reconhecer e explicar essas  complexidades, subjetividades, culturas, etnias e crenças. 

Mas foi somente após os anos 60 que quase todos os tabus foram sendo destruídos e chegamos ao que somos hoje (sem quase nos apercebermos do que realmente somos). E, se compararmos a nossa época atual com o que éramos antes das duas grandes guerras mundiais, estaremos fazendo uma reflexão histórica e existencial muito importante. Mas, se  compararmos a nossa época com o período do Czarismo e das expedições Napoleônicas, teremos turbulentas noites e noites de insônia. Apenas para lembrar, muitos brasileiros ainda eram tratados com a chibata e aqui não existia uma única universidade.

O tempo continua passando e algumas velhas representações maniqueístas seguem se manifestando nas diferentes regiões do planeta.  Em alguns territórios, estados e/ou países ainda encontramos arautos da liberdade e do novo mundo cometendo atrocidades semelhantes aos da tirania nazista ou stalinista. Apesar de todos os avanços conquistados, muitas pessoas ainda vivem diante de uma intensa perplexidade... até Barak Obama e Osama Bin Laden acabam se tornando referênciais políticas. Quanta ilusão-desilusão (uma não existe sem a outra) e quanto ceticismo ainda teremos pela frente?

O monstro saiu do lago?

O fenômeno WikiLeaks nos trouxe várias reflexões sobre a liberdade de imprensa no mundo contemporâneo e sobre a necessidade de sigilo das informações. Trata-se de mais uma daquelas situações contraditórias em que o indivíduo (ou organização) quer divulgar as informações sigilosas dos “outros” e, para isso, precisa montar uma estrutura que permita garantir o sigilo das suas próprias informações. Ou seja, é um tipo de guerra moderna generalizada, onde os atores são governos, organizações, jornalistas, especialistas em TI e hackers. O grande fato, além das informações trazidas à tona, foi que o Wikileaks nos faz ver o mundo e a internet de outra maneira.
            
A verdade virá à tona, dizem os seus dirigentes, ao mesmo tempo em que divulgam milhares de documentos secretos dos EUA e de outros países.

Uma questão interessante é que sem o Wikileaks ficava mais difícil demonstrar que as nossas postagens no Facebook, emails, etc. estão sendo rastreados e suas “palavras-chave” armazenadas num enorme servidor, localizado em algum local seguro, há milhas e milhas daqui. E que esses dados estão sendo utilizados para oferecer produtos e serviços na nossa própria tela do computador e/ou celular. E mais, se seus administradores desejarem, esses dados poderão ser utilizados para fins políticos. 

Não quero criar pânico e nem dizer que não existam provedores mais seguros e éticos do que outros, e também que não devemos utilizar a internet para nos comunicarmos. Mas sim, que devemos ficar alertas para as escolhas feitas e para as armadilhas invisíveis que nos esperam a cada clique do mouse ou do teclado. Ou melhor, precisamos entender que o computador conectado na rede é mais do que uma ferramenta de comunicação e/ou de entretenimento. Ele faz parte de um caleidoscópio de vias e de acessos, com milhares e milhares de segredos íntimos e papos eternizados (sic). 

Outro dia, por exemplo, pesquisei achei uma publicação minha que eu já havia deletado. Como assim? Eu não tenho mais controle sobre as minhas postagens?

Enfim, precisamos fazer uma reflexão mais profunda sobre o que começou a aparecer na superfície, assistindo aos dois vídeos abaixo. E também exigir que o monstro saia do lago.

Instruções: É possível selecionar a legenda em português na entrevista com Julian Assange, membro do conselho consultivo do WikiLeaks.

 
 

Os sonhos não envelhecem...

O Clube da Esquina é um tipo de guia espiritual para a minha geração. Nos anos 70 a gente se reunia para sonhar e não tinha medo de amar. Ainda hoje, quando escuto essas músicas, sinto a mesma emoção daquela primeira vez quando conheci esses "mineiros" universais, pois sempre surgem novas descobertas, dúvidas e muita serenidade para seguir em frente...


Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço....
Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases
lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos
E lá se vai mais um dia
E basta contar compasso
e basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração
Na curva de um rio, rio...
E lá se vai mais um dia
E o Rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente,
gente, gente...

Luau

 Fotografia de Ricardo Almeida

A política da inércia

 "O que o labirinto nos ensina não é onde está a saída,
 mas quais os caminhos que não levam a lugar nenhum."
Norberto Bobbio
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Existem algumas práticas políticas que podem ser comparadas com a inércia, ou seja: se "as coisas" estão em movimento, querem continuar em movimento; se estão paradas, não desejam mover-se. São fenômenos que se fortalecem quando não existem projetos coletivos locais e nem o debate público da "coisa pública" (res-pública). 
Infelizmente, a grande maioria das pessoas se movimenta apenas quando ocorre algum fator externo à sua vontade.  Em algumas sociedades já existe uma intervenção política mais madura, diferenciada e orgânica, pois a política passou a ser tratada como uma atitude pedagógica e se tornou parte da cultura hegemônica local. Em outras, essa inércia continua se manifestando com "naturalidade" (sic), pois as suas lideranças lembram-se das organizações locais, representações legítimas da sociedade civil, somente nos seus momentos difíceis ou nos períodos eleitorais. Assim, acabam reduzindo o fazer político e apenas se preocupam em representar um  bom "papel" na sociedade. Esse fenômeno cresce à medida em que se fomenta a escolástica, o espontaneísmo e o culto a personalidade .

A escolástica não é tão nociva, mas ela não tem um comprometimento prático com a vida e se alimenta do debate acadêmico sobre a realidade ou irrealidade das "coisas". Vive apenas da especulação acadêmica e abstrata, se distanciando da sociedade que sussurra e implora ao seu redor.

Já o espontaneísmo é um caso típico da falta de projetos propositivos. Aparece quando as chamadas "lideranças" não se relacionam organicamente com os movimentos sociais, não formulam e não constroem projetos pedagógicos capazes de sensibilizar o “senso comum” existente. Na maioria das vezes, essas “lideranças” acreditam que não lhes cabe propor alternativas e que tudo deve ser fruto da “espontaneidade” das pessoas. Na verdade, acabam confundindo projetos coletivos com a soma de pequenas demandas localizadas, corporativas ou não. Assim, o resultado acaba sendo a fragmentação e a dispersão “natural”(sic) em  frágeis e pequenas organizações, já que o envolvimento das pessoas passa a depender da existência de contradições localizadas. Ou seja: SE existir algum conflito local, SE as pessoas tiverem algum tipo de inquietação, SE houver o desejo de participar, e SE existir alguma identificação com as lideranças.


O culto à personalidade é o mais destruitivo deles, pois se utiliza da propaganda para divulgar e impor um projeto político pessoal. Não se relaciona como iguais e entre iguais; acredita que existem "Salvadores da Pátria". Pior do que isso, acredita que representa esse "salvador". Na nossa história temos vários exemplos práticos: os Cézares, o nazismo, o stalinismo e o maoísmo  sempre se utilizaram  destes "truques" para enaltecer certas “imagens” e a si próprios. A Igreja Católica também se utiliza dessa prática em seus cultos e na adoração aos santos (que eram humanos, como nós). Portanto, é um fenômeno antigo, mas que ainda perdura com muita força no nosso meio.

No entanto, tudo isso desaparece, ou tende a desaparecer, à medida em que se revela publicamente a falta de consistência das propostas. O bom debate e o questionamento detalhado será sempre a  melhor arma para revelar o que se esconde por trás de cada promessa e de cada interesse imediato.

O novo papel dos municípíos

Responda esta questão: o que devemos fazer quando os municípios brasileiros ganham mais e mais importância nas ações diretas de Governo Federal? O que fazer quando os municípios são reconhecidos como entes federativos, desde a Constituição de 1988? Eu acredito que precisamos avançar com o fortalecimento das ações maduras que existem no âmbito municipal e estadual. O Estatuto da Cidade (Lei 10.257, de 10.07.2001), por exemplo, regulamentou os artigos 182 e 183 da Constituição, e o município passou a ser o mais importante espaço de disputa política e de democratização da "coisa pública" (res-pública). Com essas mudanças, a organização de novas estruturas de poder e a implementação de novos projetos cidadãos passaram  a acontecer nas cidades (na Polis, πολις). As disputas estão se dando nas cidades... Da inclusão social à valorização da cultura local, da luta por direitos pelo saneamento básico à existência de um Plano Diretor Participativo, do reconhecimento das diferentes etnias e a luta das mulheres à diversidade de gênero.

Portanto, para avançarmos nesse novo contexto, precisamos  aproximar e reunir o máximo de pessoas livres e comprometidas com as lutas diárias, para fortalecer todas as ações de cunho federativo que estão despertando em cada esquina. Enfim, precisamos canalizar a nossa energia para as ações locais,  relacionando-as  com as questões estaduais e nacionais, de forma integrada. Evitar essas saídas "fáceis" que sempre surgem em épocas de eleições, principalmente aquelas que já sabemos que não nos levam a lugar nenhum.

Florianópolis, julho de 2010
Ricardo Marques Almeida

Quais são as dimensões do teu olhar?

"Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não. ..."
Cabeça - Walter Franco

Tem gente que olha para a Paris atual e vê apenas a aparência da cidade. Não vê, por exemplo, que aquelas largas avenidas são o resultado de um plano urbanístico para combater as epidemias que se alastravam pela região e ameaçavam as suas elites. Na mesma época, meados do século 19, Londres também construiu o seu sistema de saneamento (com galerias subterrâneas) pelo mesmo motivo. Barcelona se mobilizou apenas no início do século 20 e construiu o famoso bairro Eixample. Enquanto isso, em Montevideo e no Rio de Janeiro, as pessoas defecavam e urinavam nas calçadas. Ainda hoje as cidades brasileiras não fizeram o seu dever de casa e as pessoas costumam elogiar a "natureza" que existe no Rio de Janeiro, em Salvador e em Florianópolis.

Quando estudei arquitetura e urbanismo, no final dos anos 70, o professor de história Carlos Carrere me ensinou que nem todo mundo vê e representa a realidade da mesma maneira. Enquanto uns observam apenas a estética das coisas, outros analisam as suas funcionalidades. Mas, dizia ele: nós precisamos aprender a analisar a estética, as funcionalidades e, ao mesmo tempo, o contexto.

Esse professor uruguaio também nos dizia que a representação visual dos seres humanos foi se modificando através da história, até alcançar uma dimensão transversal e complexa. Para provar essa tese, ele se utilizava da análise de diferentes  pinturas, desenhos e gravuras, considerando alguns elementos objetivos e  outros subjetivos. Por exemplo, a Santa Ceia - ano 1498 - seria uma das primeiras representações da terceira dimensão (a profundidade) na história da humanidade, com o uso da perspectiva e a Guernica (leia-se, o cubismo), de Picasso - 1937 -, inseriu a dimensão do tempo ao representar um "objeto" em seus diferentes ângulos (simultaneamente). Traduzindo: Leonardo da Vinci teria representado uma visão muito sensível para a sua época, mas convergindo para um único "objeto" (no caso, Jesus Cristo, ao centro da mesa) enquanto Picasso, quatro séculos depois, teria superado esta visão de reconhecer apenas uma perspectiva.

Depois daquelas aulas,  nunca mais vi um filme hollywoodiano do mesmo jeito que os da Cinecittá. Comecei a mergulhar muito mais na sensibilidade histórica que existia num Satyricon, de Fellini, ou num Decameron, de Pasolini, pois os personagens me pareciam bem mais interessantes e reais, em suas épocas.

Sei que algumas pessoas poderão discordar e defender o seu ponto de vista. Mas entendo que estarão apenas confirmando o que tento dizer nessa reflexão. O que me conforta é que vejo as novas gerações construindo um  novo olhar transversal dos fenômenos, navegando na internet, nos smartphones e nas redes sociais, reconhecendo os diferentes olhares existentes. Triste de quem ainda insiste em ver apenas o seu ponto de vista!

Pois, para oxigenar esta relação, eu proponho que a gente identifique as dimensões de cada olhar, analisando e interpretando algumas imagens... Te identificas com algumas delas? Afinal, qual é a máxima representação possível da realidade?


4a. Colônia de imigração italiana

Fotografia enviada por Claudiane Weber (Florianópolis)

Esta foto eu bati enquanto um grupo de adolescentes aguardava ser chamado para desfilar na Festa do Arroz, na cidade de São João do Polêsine -  4a. Colônia de imigração italiana - no interior gaúcho - Claudiane Weber.

Por uma filosofia não antropocêntrica!

Texto enviado por Eduardo Soares (Brasília)
Pessoal,

A idéia do BLOG é boa, e está ficando interessante!

Como já tem manifesto, filmes etc., lembrei - como leitor assíduo que sou - que usar este espaço para trocas sobre livros pode ser igualmente interessante.

Então, recomendo abaixo quatro livros que li este ano e que foram muito legais. Todos são não-ficção e, de uma forma ou de outra, tem a ver com minha atividade profissional e com a minha inserção como cidadão do mundo.

CACHORROS DE PALHA - John Gray, filósofo inglês ligado ao grupo da Teoria Gaia. É a crítica mais contundente que já li ao antropocentrismo de nossa civilização, pondo desde nossas religiões até o humanismo, marxismo, situacionistas e tudo o mais num único saco. O livro é centrado numa crítica à filosofia como fundadora da crise ambiental e sobre a necessidade de criarmos uma filosofia não antropocêntrica. Vale muito a pena ler!

BREVE HISTÓRIA DE QUASE TUDO - Bill Bryson. Um apanhado geral sobre como a ciência chegou a saber o que sabe (ou o que supõe saber). Me senti fazendo uma espécie de "supletivo do segundo grau", com o autor percorrendo temas aos quais fui apresentado no ginásio ou científico - obviamente sem a habilidade didática que o escritor demonstra agora. Vale como atualização, mas para muitos assuntos, fez “cair a ficha” sobre temas que no passado só acertei em prova por pura decoreba, mas não por entendimento.

O MUNDO SEM NÓS - Alan Weisman. O autor (jornalista) se propôs a informar-nos sobre o que acontecerá com o planeta após o desaparecimento de nossa espécie, o que ele advoga como iminente (ele também partilha da tese Gaia). Desmonta, concordando com o John Gray, mas por outro caminho, a tese de que a vida acaba, mostrando que a vida não é antropocêntrica mas - felizmente - "caga e anda" prá humanidade. Entretanto, ela terá que se adaptar às seqüelas com que a humanidade registra sua passagem sobre o planeta. Neste caminho, expõe a falsidade de certas "soluções" engendradas pelo sistema, como o plástico biodegradável e a própria trangenia, e de como nosso domínio da natureza é pífio/risível Ao fim, nos dois ou três últimos capítulos, faz uma pequena discussão filosófica sobre o post morten, sobre se podemos esperar algo nela. É complementar ao CACHORROS DE PALHA... enquanto o John Gray filosofa, ele, Weisman, trabalha provas/evidências.

ELOGIEMOS OS HOMENS ILUSTRES - James Agee (escreveu) e Walker Evans (fotografou). Este livro é considerado um marco na história do jornalismo mundial. Feito a partir de uma encomenda de reportagem sobre como sobreviviam camponeses durante a Grande Depressão, a qual foi rejeitada pelo demandante. Ainda não acabei de ler, mas é um livro incomum por sua estrutura, que entremeia as notas/observações do autor descrevendo o que vê com suas reflexões éticas e filosóficas sobre o sentido do seu trabalho e o direito de fazê-lo devassando a vida das pessoas (ele fez "imersão", à moda Chambers/DRP, por 3 meses, junto a três famílias de camponeses brancos meeiros de algodão) . A descrição sobre a materialidade dos camponeses, suas casas, mobília, roupas, rotinas, etc. é barroca, tal a refinação dos detalhes - e ele ainda reflete sobre o quanto esta materialidade determina/influência o modo de pensar/perceber o mundo (e o quanto limita a infância camponesa). Neste sentido, é quase determinista. Diferente é o mínimo que se pode dizer deste livro que, pelo barroco do texto, é difícil tanto quanto encantador em sua prosa seguidamente poética.

Essaouira, no Marrocos

Fotografia de Guto King (Pelotas - RS)

Perspectivas


Enviado por Miguel Ângelo Dias (Florianópolis)
Há alguns anos, uma pessoa me contou que, por ter sofrido um acidente, teve que mudar sua postura, erguer mais a cabeça, e que isto lhe dera outra perspectiva: que passara a ver as coisas materiais e a vida por outro ângulo. Quando nos olhamos no espelho, nos vemos de frente; se usarmos um jogo de espelhos, poderemos nos ver de perfil e até de costas, visões bem diferentes de nós mesmos. Um objeto pode nos parecer maravilhoso quando visto de um ângulo e horrível, quando visto por outro lado.
E assim é o mundo como o vemos. Numa noite destas, um amigo, comentando sobre os prós e contras da vida, me disse: “As pessoas dizem ‘tudo bem’, ‘tudo bem’ quando nada está bem!” Ele estava coberto de razão, se olharmos por seu ângulo, afinal o mundo não anda nada bem. Agora perguntemos: “Quando o mundo andou bem? Quando foi que se viveu em perfeita harmonia, em perfeita justiça social ou mesmo em consonância com a Natureza?” Se alguém responder que foi antes de o homem surgir na Terra, a resposta não vale, por óbvia. É que o homem veio para revolucionar o mundo, construindo e destruindo. Na mais das vezes, destruindo.
        Falamos do homem como algo à parte de nós mesmos, mas nós, humanos, somos o grande problema e, simultaneamente, a solução; mera questão de perspectiva. Ver que as coisas não estão bem, é bom; ficar sempre olhando por este lado, já não é tão bom assim, pois nos consome inutilmente, nos impedindo de ver possíveis soluções.
Otimismo?
        Para o pessimista, o mundo é mau e não tem solução; o ingênuo otimista vê fácil solução para tudo. Para que algo possa ser feito para se melhorar o mundo, temos que abarcar muitas perspectivas do Universo que nos cerca, adotar uma visão holística; temos que ser realistas: lidar com possibilidades e não com certezas. A visão pessimista nos torna egoístas; o otimista age como tolo: ambos são, ao fim e ao cabo, destruidores. Quem pode construir algo é o realista, que aprende a negociar com o meio, aceitando o inevitável, mas pondo sua energia em ação com o intuito de só tentar modificar o modificável.
        Focar o passado só é válido se o fizermos para aprender algo; para o futuro, só adianta olhar se estivermos plantando alguma coisa. Vivamos bem o agora, semeando o respeito e a paz, pois, por utópico que isto possa parecer, sempre estaremos aprimorando o mundo, pelo menos à nossa volta.