Depoimento para o projeto Memória do Movimento Estudantil Universitário Gaúcho no período da redemocratização 1977 - 1985, criado e desenvolvido pelo IMA - Instituto Mário Alves, de Pelotas. Acredito que estas reflexões contribuem para entender algumas contradições da esquerda que ainda persistem neste novo período da história brasileira. Lamento, mas eu errei o nome da minha organização à nível nacional: era Caminhando e não Movimento. Aqui no RS era Resistência e a minha desmemória não me traiu :) Espero que vocês gostem... Abraços.
A vida é bastante contraditória e as nossas ideias, muitas vezes, não correspondem a suas variações. Por isso, quero compartilhar algumas reflexões minhas e de outras pessoas, a partir de textos, fotos, vídeos, poemas e depoimentos que revelem essas contradições da vida. Quem sabe assim, se crie e recrie livremente uma infinita constelação de olhares em movimento.
Um selfie com Mujica
“Não
é só uma mudança do sistema, é uma mudança de cultura, é uma cultura
civilizatória. E não tem como sonhar com um mundo melhor se não gastar a vida
lutando por ele. Temos que superar o individualismo e criar consciência
coletiva para transformar a sociedade.” – José
Pepe Mujica
Quantas pessoas você conhece que admiram o ex-presidente
Mujica? E agora, me responda: quantas dessas pessoas defenderiam as ideias de Mujica?
Não estou me referindo à sua situação social e nem às escolhas de vida que José
Pepe Mujica fez após passar 12 anos nas prisões uruguaias. Neste momento de
crise ética e política, precisamos refletir sobre a sua dignidade e também
sobre o exemplo que ele vem dando para todos nós ao falar de princípios e de
valores não monetários.
Poucas pessoas sabem que Mujica gosta de ler Sêneca (50
A.C) e diversos livres pensadores do passado e do presente, e pouquíssimas se
dão conta de que ele também é fruto de um longo processo histórico vivido pelo
seu país, o Uruguai. Por exemplo, lá as universidades foram criadas muitas décadas
antes do que as brasileiras; há quase cem anos, na Constituição de 1917, o
Estado foi separado da influência da Igreja; o presidente colorado José Batlle
y Ordóñez incentivou um verdadeiro laicismo radical no país e, desde lá não se
vê símbolos cristãos nas câmaras de “ediles”
(vereadores), nas salas de aula, nos tribunais e nem nos hospitais da rede
pública. Todas as religiões são respeitadas e, na posse dos presidentes o
juramento é em nome da Constituição uruguaia e não da Bíblia. Isso, por si só,
já revela a seriedade e a radicalidade da democracia republicana construída pelos hermanos.
Mas tem mais: os uruguaios aboliram a escravidão
quarenta e seis anos antes do que o Brasil; o país foi o pioneiro ao permitir o
divórcio por iniciativa da mulher em 1913 enquanto que a lei brasileira foi
aprovada apenas no final dos anos 70 (cinquenta e sete anos depois); as
mulheres uruguaias conquistaram o direito ao voto em 1917 e as brasileiras
somente em 1932 (quinze anos depois). Recentemente eles conseguiram avançar
ainda mais nos seus direitos civis, com a legalização da relação entre pessoas
do mesmo sexo, com a não punição à prática do aborto até a 12ª semana de
gestação e se tornaram o primeiro país no mundo a comercializar a marijuana pelo
próprio Estado, como política de saúde e de combate ao tráfico de drogas. Nós,
brasileiros, em pleno século 21, ainda estamos enfrentando o conservadorismo político
e religioso que invadiu o parlamento, as prefeituras, as delegacias de polícia,
milhares de residências e milhões de mentes desesperadas e solitárias.
Do ponto de vista do sistema político,
os partidos uruguaios são seculares e o Frente Amplio, fruto da coalizão de
várias organizações e de cidadãos independentes, reúne democraticamente toda a
esquerda uruguaia desde 1971 e governa aquele país desde 2005. Essa maturidade
política do seu povo dificulta as manobras espúrias e o surgimento de uma
bancada que imponha as "leis
divinas” e/ou defenda o monopólio da comunicação. José Pepe Mujica e quase toda
a torcida do Penharol e do Nacional sabem disso!
Portanto, um selfie
com Mujica deveria levar em conta que além de admirá-lo (o que não está errado!)
todo fã precisaria compreender o que ele e o seu povo representam. Os brasileiros,
por exemplo, deveriam valorizar os postos Petrobrás e evitar as multinacionais Esso,
Shell e Texas Co. Ao comprar produtos orgânicos de produtores locais estariam
reconhecendo a importância de fortalecer as cadeias produtivas regionais etc e
tal. Enfim, todas as ações do dia-a-dia estariam sendo consideradas como
atitudes políticas, ou melhor, adquirindo um sentido humano, local e universal.
Ou seja: a vida de qualquer pessoa está cheia de
provações individuais e coletivas, principalmente para aquelas que assumem um
cargo público ou fazem parte de um centro estudantil, desde um policial da
esquina até um chef de cozinha, de um
dirigente partidário e muito mais de um governador. Pois é numa dessas situações
que a concepção de poder se manifesta e os indivíduos são testados. Nunca
apenas pelo discurso ou nas postagens de ocasião. Ou melhor, se quisermos saber
o verdadeiro grau de liberdade que um homem ou uma mulher defende, basta arrancar-lhes
a sua concepção de mulher, ou como cada um(a) se refere ou se relaciona com as
mulheres negras e/ou indígenas. E mais: perguntar-lhes se têm algum preconceito
homoafetivo ou de religião.
As concepções de poder estão por toda parte, mas muitas
vezes algumas faces e representações ficam ocultas, e se manifestam apenas
quando alguém assume um cargo ou uma função coletiva. Nas redes sociais
qualquer um(a) se sente o rei ou a rainha da cocada, mas é na vida real que a
porca torce o rabo. Por isso, é bom exercitar a capacidade que cada um(a) tem de
solidariedade e de fraternidade, sem perder o senso de justiça, pois o mundo
que queremos construir é de homens e mulheres livres e fraternos, e não de
pessoas agressivas e odiosas. Não adianta ficar adjetivando os demais ou tratando
o Mujica como uma estrela de rock, pois o nosso desafio é construir uma
constelação de organizações autônomas com a máxima convergência possível dos
olhares e dos saberes que aprenderam a ser solidários e propositivos.
Compartilhar o poder – micro e macro - não é para
qualquer um(a). Ainda mais numa sociedade que segue gerando homens e mulheres
individualistas e egoístas, em que muitas pessoas já perderam a fé na
humanidade e recorrem ao divino, às verdades absolutas ou ao isolamento, pois
perderam a crença nos seres humanos, que são elas mesmas. Às vezes é preciso
passar por situações difíceis e adversas para se colocar no lugar de outra
pessoa, e para entender a subjetividade e objetividade de cada cultura e moral
existente. Não queremos apenas uma mudança do sistema, mas da
cultura que dá sustentação a este sistema falido.
O nosso futuro será sempre construído por meio de
passos objetivos, firmes e consistentes, pois esses sim serão lembrados daqui a
dez, vinte e cinquenta anos, e não por aqueles que gritam mais alto ou falam
somente frases genéricas. São as atitudes individuais e, principalmente as
coletivas, que permitirão gerar novas reflexões bem mais complexas e que irão nos
proporcionar outras dimensões da consciência. Por exemplo: é preciso
compreender que se o conservadorismo cultural e político vencer o movimento
contra o golpe no Brasil, en breve Mujica y nuestros queridos hermanos uruguayos
serán agredidos como estamos siendo nosotros, los brasileños. Portanto, temos que superar o regionalismo e o nacionalismo
até criar uma consciência planetária que seja capaz de transformar radicalmente
a nossa sociedade.
Porto
Alegre, 18 de maio de 2016.
Ricardo
Almeida
As crises e a síndrome das capivaras
"Ele
não se apercebe de que há com ele algo de errado
porque
uma das
coisas que nele andam erradas
é não se
aperceber de que há com ele
algo de
errado
portanto
temos que
ajuda-lo a aperceber-se
de que o
fato de não se aperceber
de que há
com ele algo de errado
é uma dessas
coisas
que nele
andam erradas..." - R.D. Laing - Laços
Aprendi que um sistema baseado no mercado e em capitais
especulativos entra em crises cíclicas (ou em ondas), assim como a noite vem depois do dia, que chove mais em determinadas épocas do ano e que surgem temporais devastadores em algumas regiões do planeta.
Esta crise brasileira de 2014, que começou no mundo inteiro em 2008, me fez lembrar que nos anos 70 ou 80 dezenas de capivaras foram encontradas mortas próximo à Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. E que, alguns meses depois os jornais anunciaram que uma equipe de cientistas conseguiu desvendar a origem daquele estranho fenômeno. Diziam eles: com a escassez de alimentos na região, as capivaras acabaram comendo umas às outras.
Esta crise brasileira de 2014, que começou no mundo inteiro em 2008, me fez lembrar que nos anos 70 ou 80 dezenas de capivaras foram encontradas mortas próximo à Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. E que, alguns meses depois os jornais anunciaram que uma equipe de cientistas conseguiu desvendar a origem daquele estranho fenômeno. Diziam eles: com a escassez de alimentos na região, as capivaras acabaram comendo umas às outras.
Este exemplo do reino animal revela que uma crise humana também pode ser
analisada desse ponto de vista — da escassez — mas que existem outras maneiras de analisar uma crise. Ou seja: ela pode ser fruto de uma crise ética, ou de uma crise de
consciência, da crise de valores e até de uma crise da criatividade, como, por
exemplo, uma falta de entendimento de que é preciso realizar um pacto entre uma
parte da sociedade para garantir direitos e avançar naquilo que as
circunstâncias históricas permitem (aquilo que Antonio Gramsci, que lia Hegel e Engels, chamou de formação de um Bloco
Histórico de classes).
Uma questão importante para a compreensão das crises é a percepção de
que elas não possuem uma causa única e nem acontecem de uma forma isolada, umas
das outras. Ou seja, que de uma forma quase invisível elas acabam promovendo
uma escalada de ações e de reações, de explosões e até de algumas atrocidades
que muitas pessoas não querem saber os seus motivos. Numa sociedade acostumada
com a banalização da violência, do medo e do ódio, é comum encontrar pessoas
que elogiam a força bruta e gostam de provocar a inteligência das pessoas mais
sensíveis. Como nos filmes e seriados de Hollywood, cidades inteiras começam a
ser ameaçadas por “malucos" e reagem apavoradas, com a intenção de
serem salvas por um super-herói ou por um “Salvador da Pátria”.
Essas pessoas não conseguem ultrapassar a fase infantil das histórias em
quadrinhos e caem — ingenuamente ou não — em velhas e conhecidas armadilhas.
Elas ainda sentem medo quando o diabo, o bicho-papão, o cientista maluco, o
Jason, o minotauro, os lutadores de UFC, os Malafaias e os Bolsonaros aparecem
nas redes sociais ou na televisão. Como se fossem crianças esquecem que possuem
uma capacidade de aprender e a elaborar raciocínios mais complexos, e assim
reproduzem o medo e valores absurdos nas escolas, igrejas, redes de TV,
jornais, blogs, revistas, amigos e nas famílias.
Elas formam e contribuem para a criação de uma grande massa de
pessoas desinformadas, que não entendem as crises de escassez econômica, ética, moral e
política — e passam a procurar um culpado pela sua crise particular.
Como na Alemanha nazista e na Itália fascista, na maioria das vezes escolhem
alguma cultura/etnia ou liderança política, partidos políticos e organizações
sindicais, movimentos sociais e até a própria justiça, para criticar e
desmoralizar, desde que essa não lhes seja favorável. O direito a julgamento é
ignorado, pois elas não estão dispostas a ouvir o argumento dos acusados e
elogiam delações de ladrões — tipo Barrabás —, acusações levianas e propagam
essas suspeitas etc.
No Brasil, pessoas com mais de 30 anos de idade já atravessaram crises semelhantes, mas isso não quer dizer que elas aprenderam alguma coisa com essas experiências. Poucas lembram, mas não falam,
até onde uma crise aguda pode levar as multidões. Aquelas que não reconhecem as
crises cíclicas - independente de posição ideológica - costumam agredir as que
se revoltam contra as crises, e isso é um triste sinal de que nenhuma delas
aprendeu com os livros e com as crises anteriores.
E o que isso tudo tem a ver com as capivaras e a escassez de alimentos? É que muitas pessoas vivem somente para o presente, não entenderam o passado e, assim, não conseguem imaginar um cenário futuro. Por se preocuparem apenas com o presente, nunca param para refletir e aprender sobre os motivos da crise que estamos vivendo. Sentem medo do futuro, pois em função da escassez, da alta dos preços e das suas limitações intelectuais (por que não?), o futuro acabou se tornou algo inseguro e incerto.
Não querem saber, por exemplo, se os freeshops de Artigas,
Rivera, Acegua, Río Branco e Chuy, no Uruguai – cuja maioria é de empresas
multinacionais - estão vazios em função da subida dos juros nos EUA e que houve
uma fuga do capital especulativo para aquele país, pois lá essas mesmas
empresas lucram muito mais. Não entendem que muitas empresas e os banqueiros
internacionais estão interferindo na cena política nacional para defenderem os
seus velhos privilégios, pois o velho poder econômico está sendo ameaçado. E
quando um país entra em perspectiva de tornar-se uma das grandes potências
mundiais, aí é briga para “cachorro grande” (ou capivara grande).
Os “gerentes” nacionais utilizam todos os meios possíveis para gerar
pânico e histeria no cotidiano da população local, desde subir o preço dos
alimentos ou desabaster as prateleiras dos supermercados, até bombardear
as famílias com notícias negativas durante meses e meses, por meio dos jornais e dos canais de televisão.
Se for véspera de um período eleitoral, aí sim que o bombardeio se
tornará insuportável, ao ponto de gerar e propagar irritações e
histerias nos bares, nos lares e nas redes sociais.
Neste contexto de crise, a luta contra a corrupção sempre ressurge, e se torna um
prato cheio de ódio e de irracionalidades, com ameaças ao básico direito de
“presunção da inocência” de uma pessoa. Como muitas estão desesperadas e
"ameaçadas" pelas crises, já não param para pensar que corruptos podem estar querendo se passar por "bons meninos", que a sonegação
de impostos também representa um desvio de verbas que poderiam ser destinadas à saúde,
à educação e a outras áreas importantes para a própria população. Acreditam que
quem está no governo possui todo o poder de mudar “as coisas”... Aprenderam na
escola que existem três poderes, mas acreditam mais na televisão, pois ainda estão
descobrindo as funções do Congresso e do Judiciário. Repetem em coro: "não gosto de política", “a política é uma coisa ruim” e "nunca precisei dos
políticos". No período de fartura o mérito era todo delas, mas no de crises é do governo de plantão e dos políticos. Mesmo assim, apesar de tudo, a vida sempre será um
processo vivo e dinâmico que ensina as pessoas que resolvem compartilhar
suas experiências e prestam atenção aos fatos e a repetição dos fenômenos. Por isso, não dá para desistir!
Dá para aprender que “as coisas” e as circunstâncias mudam! Por exemplo: se antes os banqueiros e
empresários compravam políticos e sindicalistas para defenderem as suas pautas
políticas, agora eles já estão atuando no centro das disputas – é caso do Paulo
Skaf, empresário e presidente da FIESP, candidato pelo PSB ao governo de São
Paulo, em 2010, de Donald
Trump, empresário, investidor e personalidade da mídia norte-americano, e
candidato a presidente dos Estados Unidos nas eleições de 2016, e também do recém eleito empresário-presidente da Argentina, Maurício Macri. Ou
indicando os seus representantes para fazer parte dos governos – como é o caso
do Joaquim Levy, diretor-superintendente do Bradesco Asset Management (Bram),
como ministro da Fazenda do Brasil. Todos apostam na alienação de setores das
“classes médias”, que vacilam, com medo de não conseguir pagar as dívidas ou de
perder o que conquistaram, sempre com o apoio de setores mais conservadores das
igrejas e da sociedade.
Como foi visto, com a escassez dos alimentos, a alta do dólar, o aumento
do valor das prestações do carro e da casa própria, assim como da diminuição do
consumo, essa crise política e econômica também gera uma
crise ética e cultural, e que sua compreensão é bem mais complexa do
que uma simples partida de futebol, de uma disputa por siglas partidárias e/ou
por crenças e valores religiosos. Essas ondas ressurgem de tempos em
tempos e é preciso mergulhar no fundo do fundo do fundo das crises “cíclicas”
e/ou “em ondas” do sistema capitalista para conseguir superá-las.
O desafio de quem não quer alimentar o ódio, o pânico e o canibalismo
político-cultural é ultrapassar a fase da crítica pela crítica e também deixar
de ser pautado pela grande mídia ou por comentários provocativos nas redes
sociais. Esses medos, assim como as ameaças e as intrigas, perderão peso quando
pessoas alegres e propositivas tomarem a iniciativa. Não adianta dizer que tal
pessoa não entende isso ou aquilo, pois o problema dela é exatamente este: ela
não entende o que está se passando em sua volta e prefere orar apenas pela sua
prosperidade individual (é um egoísta divino).
Não há nada de errado em se indignar e criticar quem está incentivando o ódio e a
alienação das pessoas, mas ficar apenas adjetivando a alienação, se vangloriando para os
amigos mais próximos, ou postando provocações, desilusões e lamentos no
Facebook deveria ser considerado como uma atitude de um(a) cidadão/cidadã ultrapassado(a) no
seu próprio tempo. Estamos vivendo um momento da história com muitas informações disponíveis e, por isso mesmo, está mais
do que na hora de compartilhar conhecimentos com pessoas que não pertencem aos mesmos
círculos de amizade, pois não serão os mais rápidos que sobreviverão,
nem os mais fortes, e sim os que ousarem, forem criativos e demonstrarem uma
grande capacidade de argumentação, de convencimento e, principalmente, de
organização.
Ricardo Almeida
Porto Alegre, março de 2016.
Nostalgia da Luz
Argumento apresentado por Ricardo Almeida após a projeção do
filme Nostalgia da Luz, durante o
evento em homenagem ao Ano Internacional da Luz, promovido pelo Instituto de
Física da UFRGS.
Em 1973, eu tinha dezessete anos
e costumava assistir a filmes e comprar livros em Rivera, no Uruguai. Havia nove
anos o Brasil estava sob uma ditadura militar, e muitas obras foram proibidas
por aqui... Mas lá na fronteira a gente podia vê-las, pois ainda se respirava
os ares democráticos vindos daquelas bandas orientais. Lembro, inclusive, que
muitos casais brasileiros iam até Rivera para casar, pois los hermanos reconheciam o divórcio desde 1913 e aceitavam o
casamento de brasileiros. Enquanto isso, no Brasil, o divórcio ainda era
tratado como uma heresia.
No entanto, naquele ano houve o golpe militar no Uruguai e
também no Chile, e três anos mais tarde, na Argentina. Empresários brasileiros
reproduziam naqueles países aquilo que eles haviam feito aqui com o apoio
direto das forças armadas e das agências de espionagem norte-americanas (CIA e
outras). E todas essas ações foram financiadas por grandes empresas internacionais
que estavam se instalando em solo latino-americano em busca de mão-de-obra
barata. Recordo as milhares de Kombis e televisores que cruzaram a fronteira
logo após 1973 e, assim, aos poucos, eu fui compreendendo e me interessando
sobre as relações políticas, econômicas e comerciais que regem este mundo
dominado pelas grandes corporações.
Em 1975, fui estudar Arquitetura e Urbanismo na Universidade
Federal de Pelotas e me surpreendi quando soube do acordo realizado entre o
Ministério da Educação do Brasil (MEC) e a United States Agency for
International Development (USAID) para reformar o ensino brasileiro de acordo
com padrões impostos pelos EUA. Era muito fácil identificar o tecnicismo e a
departamentalização (fragmentação) da universidade, além da vigilância de
representantes do Serviço de Segurança Nacional – SNI – nas reitorias e até nas
salas de aula. Somado a isso, também havia uma repressão ao movimento estudantil, sendo
que os decretos 228 e 447 proibiam os estudantes de participar das discussões
políticas. Contraditoriamente, aquele ambiente hostil e opressor era um
verdadeiro convite para um jovem de dezenove anos se indignar e reagir contra
aqueles absurdos. Ainda mais aqueles
que tinham na memória alguma experiência democrática.
Lembro isso apenas para demonstrar o sentimento que deveriam
ter os mortos e desaparecidos durante os regimes militares que dominaram na
América Latina até meados dos anos 1980. O que faria um jovem que vê a sua
liberdade sendo tolhida sem explicações? O que faria um professor que não pode
ensinar a Teoria dos Conjuntos e a matemática moderna para os seus alunos? E
aquele que não pode estudar astronomia? Digo mais: o que faria uma pessoa digna
que sabe que militares e paramilitares estão torturando e matando jovens civis
inocentes em troca de um simples prazer e/ou de algum benefício pessoal? O que
vocês fariam se soubessem que alguns generais e políticos da situação
enriqueceram por meio de propinas e de desvios oriundos das empreiteiras e das
grandes obras realizadas naquele período, como a Ponte Rio-Niterói a
Transamazônica e a Hidrelétrica de Itaipu? O que vocês fariam se soubessem que
o seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS – estava financiando casas
para a alta classe média e para os mais ricos do país? São perguntas que chilenos
e brasileiros, principalmente esses dois povos, precisam fazer para que o
passado se torne apenas uma página virada da história.
O filme Nostalgia da Luz
é uma busca por esse tipo de atitude. O diretor chileno Patricio Guzmán procura
resgatar uma parte dessa memória e provocar a máxima compreensão possível dos fenômenos.
Tudo permeado por um forte desejo de justiça e também de tocar as sensibilidades.
Segundo palavras do próprio diretor “um país sem documentários é como uma
família sem um álbum de fotografias”.
O roteiro do filme é muito bem elaborado e acompanha as
reflexões de algumas pessoas que parecem viver em mundos paralelos, que pouco
se aproximam. Começa com uma belíssima apresentação do deserto de Atacama e da
magia daquele céu estrelado, onde um astrônomo faz as suas considerações sobre
a origem da vida e do Universo. Depois é a vez de um arqueólogo refletir sobre
a relação do tempo e dos acontecimentos históricos. E, finalmente, o diretor mergulha
no martírio de algumas mulheres que buscam o corpo dos seus entes queridos no
deserto, mortos pela ditadura de Pinochet. Embora fique bastante claro que a
intenção de Guzmán era aproximar esses mundos paralelos e propiciar um diálogo
entre eles, ele não consegue isso durante as entrevistas. Salvo pequenas
referências, principalmente as vindas do arqueólogo. Então o filme deixa claro
que todos fizeram um tipo de pacto do silêncio (inconsciente ou não) para não
denunciar o passado mais recente do Chile. Algo parecido com o que acontece no
Brasil, resguardadas as suas diferenças políticas e culturais.
Não se trata de um filme de ficção e nem mesmo de uma
reflexão presa ao passado. A primeira conclusão que eu faço é a de que todos os
protagonistas procuram algo que eles não sabem se irão encontrar: os astrônomos
procuram pela origem da vida e do universo, utilizando os maiores telescópios
que existem no planeta. Os arqueólogos buscam parte da memória da América
Latina, pois no deserto de Atacama – cenário do filme –, rico em salitre e sem umidade, estão
mumificados restos de corpos humanos, desde os povos primitivos, dos
colonizadores, de pesquisadores e de historiadores que se perderam naquela
imensidão. As mulheres buscam os corpos, ou parte dos corpos, dos seus entes
queridos, já que o regime de Pinochet criou campos de concentração no deserto e
também jogou milhares de corpos de opositores no mar e naquela região. Chama
atenção uma fala do arqueólogo quando diz: “conseguimos nos interessar pelo
passado mais longínquo, mas não conseguimos sequer pensar no que aconteceu
vinte e poucos anos atrás”. Eis uma das principais provocações do filme.
A segunda reflexão que me veio à cabeça foi sobre o mito de
Antígona, que trata do desejo que o ser humano tem de enterrar os seus mortos.
Um rito de passagem que serve para dar sentido à vida, além de assimilar aquele
sentimento de perda que felizmente ainda existe entre nós. Acredito que este
foi o argumento que orientou o título do filme, pois a nostalgia nos remete à
dor e à saudade, enquanto que a luz pode ser vista como uma expansão do
universo, mas também, metaforicamente, como a necessidade de um conhecimento
mais amplo e complexo. Vejam que no filme nem o astrônomo consegue se colocar
no lugar daquelas mulheres e nem elas conseguem se libertar do passado e
entender que é preciso recorrer à justiça dos homens. Ou ainda, que nós somos
insignificantes em relação ao planeta e às galáxias.
Há muito tempo eu me incomodo quando alguém cita a teoria do
Big Bang, pois para mim - aprendi isso com os mouros da Península Ibérica dos
séculos 12, 13 e 14 - “o universo não tem começo e nem fim”. Como diz o
astrônomo “toda a busca infinita sempre vai encontrar novas perguntas”, apesar
de encontrar também algumas respostas provisórias, é claro! Essa é a minha
terceira reflexão e ela não desmerece as buscas que os cientistas fazem sobre a
origem dos fenômenos. Apenas trato cada uma delas como uma fronteira cultural,
da ciência e/ou do pensamento, como pontos de referências e não como alguns
querem, infinitamente. Ou ainda, como diria Edgar Morin: “uma teoria é
científica quando a sua falsidade pode ser demonstrada”, do contrário ela seria
apenas uma demonstração de uma experiência, de uma técnica, e não da ciência,
que é sempre dinâmica e contraditória.
A minha quarta reflexão parte do princípio de que uma pessoa
pode ter a sua máxima compreensão possível dos fenômenos e nunca de todas as
dimensões desse mesmo fenômeno. Que dependendo do ponto de vista e da
capacidade de raciocínio das pessoas, a leitura da realidade pode se modificar.
O astrônomo, por exemplo, estava focado nas questões que aconteceram há milhões
de anos luz, enquanto o arqueólogo, há 10 mil anos, e as mulheres ficaram
presas aos anos da ditadura de Pinochet. A pergunta que fica é a seguinte:
seria possível aproximar essas três dimensões da realidade? Adotar uma visão
complexa e multidimensional da realidade? Eu diria que sim, mas que se trata de
um exercício cultural a ser trabalhado, no qual o filme de Guzmán contribui de
maneira exemplar. Esse parece ser o desejo do diretor.
Diferentemente dos seus documentários
anteriores, em que ele utilizou uma linguagem considerada hiper-realista, Nostalgia da Luz é uma metáfora poética
e profunda sobre o homem, a sua relação com as ciências, a religião, a
política, o planeta Terra e o Universo. O deserto de Atacama foi escolhido como
cenário porque lá coexistem todas essas dimensões da vida. No final, muitas
perguntas ficam soltas no ar — e no universo, por que não? —, e isso é mais uma
das qualidades do filme, pois cada um(a) pode responder às reflexões segundo a
sua capacidade de elaboração e das suas convicções morais, religiosas e/ou
científicas.
Percebi que o desafio do diretor era o de identificar alguns "laços" que amarram essas reflexões e que permitissem viajar além do tempo passado, presente e futuro, misturando ciências, mistérios e até religiões. Isso fica claro ao entrevistar uma jovem astrônoma, filha de pais desaparecidos, que foi criada pelos avós - sendo que esses, na sua ingenuidade, haviam entregado o casal para os militares – em que ela diz já ter assimilado e entendido o seu passado, enquanto embala o filho pequeno para dormir. Enfim, o filme não aponta soluções coletivas e nem deixa claro se a justiça desejada pelos protagonistas e pelo diretor é divina ou terrena. Mas analisando a obra do Patricio Guzmán eu diria que ele se propôs apenas a revelar um retrato do Chile atual e por isso mesmo escolheu um título que falasse de esquecimento. Ou seja, da saudade (nostalgia) do conhecimento (luz) complexo.
Porto
Alegre, outubro de 2015.
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