Conflitos na fronteira? O buraco é bem mais em cima


As fronteiras são assim, dependendo do câmbio os brasileiros invadem as cidades das fronteiras com o Paraguai e com o Uruguai para comprar  produtos mais baratos, ou vice-versa. É comum ouvir histórias de brasileiros que migraram para um país vizinho em busca de uma vida melhor, mas também ouvimos pessoas que  reclamam quando algum estrangeiro decide vir trabalhar no Brasil.
Grosso modo, o Brasil, a Guiana Francesa, o Uruguai e a Argentina são os países da América do Sul que possuem os melhores sistemas públicos de saúde e de educação, e que, portanto, em função disso promovem um intenso fluxo de moradores nessas regiões de fronteira. Como o Brasil é o único que faz fronteira com quase todos os países da América do Sul (somente não faz com o Chile e o Equador), nós estamos sempre envolvidos em alguma polêmica transfronteiriça.
É fundamental entender que cada fronteira é singular e que as “trocas” se dão de forma diferenciada, sendo que o custo de vida, as oscilações do câmbio, a diferença no valor dos produtos e dos impostos, e até os amores definem a intensidade dos fluxos e também dos conflitos.
Em 2016, por exemplo, eu estive em Boa Vista, Pacaraima e Santa Elena de Uairén, na fronteira do Brasil com a Venezuela e los hermanos venezuelanos já estavam sendo tratados pela grande mídia brasileira como intrusos e eram identificados como sendo os principais responsáveis pela “bagunça” criada lá no estado de Roraima.
Como consultor contratado pela Unesco, em convênio com o Ministério da Cultura do Brasil, eu entrevistei diversas pessoas, de vários setores, para entender aquele caso específico e fiz algumas reflexões que talvez interessem a vocês. Vejam algumas delas e tirem as suas conclusões:
1. A Terra de Makunâima ou a Gran Savana, como é conhecida aquela região transfronteiriça, tem uma das mais lindas paisagens que eu já vi. Principalmente, a que contorna o Monte Roraima, onde fica a morada de Makunâima.
2. Milhares de brasileiros atravessavam a fronteira para comprar combustível a um real o litro de gasolina, enquanto que no Brasil o produto valia aproximadamente três reais. Lá, o povo venezuelano pagava apenas 20 centavos por litro, e isso representava uma verdadeira tentação para os brasileiros.
3. Todas as farmácias, lojas, bares e restaurantes de Pacaraima (uma pequeníssima cidade brasileira próxima ao Monte Roraima) estavam vendendo somente farinha, arroz e açúcar por valores que atraiam milhares e milhares de venezuelanos.
4. Os supermercados venezuelanos da fronteira estavam desabastecidos e não tinham chances de competir com aquelas “ofertas” brasileiras.
5. Como o ex-senador Romero Jucá é um dos principais articuladores políticos naquela região, eu fiquei desconfiado de que aquela “bagunça” poderia ter sido criada pelo grupo político dele, em busca de uma “intervenção federal”. Mas, eu nunca consegui provar nada, além de ouvir algumas suspeitas e convicções.
6. Sabemos que a Venezuela tem muito petróleo, mas aquela região também é rica em ouro, nióbio e em outras riquezas minerais.
7. Além disso, a vizinha Guiana (inglesa) também possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo.
8. Portanto, há anos existe uma disputa geopolítica entre a China, a Rússia e os EUA pelo controle daquela região rica e estratégica, nas portas do Caribe e do Canal do Panamá.
9. Agora, um grupo que apoia o Bolsonaro assumiu o governo de Roraima e eu não consigo imaginar o que pode estar ocorrendo por lá. Só sei que o derrotado Jucá se juntou a eles e que juntos estão muito mais agressivos em relação às comunidades indígenas.
10. Os povos Pemón, entre eles os Macuxis, os Wapixanas, entre outros, assim como os Yanomamis  que vivem na outra fronteira, com a Colômbia, são povos de paz. Portanto, qualquer possibilidade de guerra será sempre patrocinada pelos homens brancos, em busca de terras para o garimpo (plano do governo Bolsonaro) ou para alguma monocultura de exportação.
11. Algumas críticas endereçadas ao governo Maduro podem estar corretas, mas não podemos impor de fora pra dentro uma “solução” que ignore o diálogo entre os venezuelanos e que crie uma situação de guerra… Ainda mais, se essa “solução” tem o protagonismo e a intromissão declarada dos EUA.
12. Uma fronteira fechada, como a dos EUA com o México ou a de Israel com a Palestina, sempre traz um sofrimento para as populações transfronteiriças.
13. Como há muito tempo as fronteiras do Brasil e dos demais países da América do Sul estão esperando por uma “ajuda humanitária”, as comunidades locais querem se fazer ouvir sempre que forem lembradas pelos governos nacionais e pela grande mídia.
Enfim, como as fronteiras são complexas e foram esquecidas aqui no continente, não podemos nos deixar influenciar apenas pelas imagens gravadas nestes territórios, pois existe um tipo de jornalismo que não perde por esperar (em busca de mais audiência e de violência).  Ou seja, o buraco é bem mais em cima: está na nossa capacidade de reflexão.
P.S. A sigla de Roraima é RR e não RO, como alguns jornais brasileiros estão publicando. RO é Rondônia, na fronteira com a Bolívia.

Desmemórias, ilusões e novas tempestades

Para o Adelmo Genro Filho, in memoriam, pelas suas importantes reflexões sobre a consciência histórica, prática, crítica e sensível.

 “Eu avisei!”, diz um comentário. “Eles têm o apoio do STF, da Rede Globo, dos banqueiros nacionais e internacionais, dos exportadores, dos especuladores, de pastores das igrejas neopentecostais e de uma velha casta militar e, juntos, irão sacramentar o Golpe de Estado, vender as nossas riquezas e explorar ainda mais o povo brasileiro”, esclarece outra postagem. Uma terceira alerta que se trata de uma guerra híbrida, de proporções internacionais. Todas estão cobertas de razão! No entanto, se lhes tirarmos a razão, sobrará apenas o hábito que a maioria dos brasileiros tem de apostar somente em eleições e no modo tradicional de fazer política.

Com a proliferação das redes sociais, boa parte da esquerda brasileira está ficando cada vez mais saturada por eventos e sensações efêmeras compartilhadas, que se desmancham no ar, e está deixando de valorizar as grandes experiências coletivas que tivemos recentemente, como a formação de diversos comitês pela democracia, as Caravanas Lula, o Movimento #EleNão e as próprias campanhas #HaddadManu e #BoulosGuajajara. Essas experiências (com ações digitais e presenciais) já estão na memória afetiva de uma parte da população brasileira, mas precisam ser melhores compreendidas para tornarem-se referências na transmissão de saberes simbólicos para as gerações que estão chegando.

Na verdade, o Brasil ainda não cicatrizou as suas feridas históricas. Vejam que, até hoje, persiste uma forte cultura escravocrata e anti-indígena entre nós, torturadores nunca foram condenados e a impunidade segue sendo um privilégio dos sonegadores de impostos e dos vendilhões das nossas riquezas. Lembrem que não houve resistência ao golpe de 1964 e nem ao impeachment (golpe de novo tipo) da presidenta Dilma Roussef, em 2016. Aliás, apesar de algumas mobilizações importantes, as esquerdas brasileiras foram derrotadas nas campanhas pela anistia, no ano de 1978, pelas Diretas Já, em 1984, e pela Constituinte, livre e soberana, em 1988. O Partido dos Trabalhadores venceu as eleições de 2002 com a “Carta aos Brasileiros” e o “Lulinha Paz e Amor”, que tinha o empresário José de Alencar como vice e um programa de caráter republicano, democrático e popular.

Em abril de 2018, quando Lula se entregou para a Polícia Federal, no Sindicato de São Bernardo do Campo, os seus companheiros mais próximos ouviram a seguinte declaração da maior liderança do Brasil: “Foi o máximo que conseguimos reunir até aqui…”. Baseado nessa afirmação sensata e sensível, após a realização de grandes mobilizações em caravana pelo país, é possível deduzir que a maioria dos “intelectuais orgânicos” brasileiros não é tão orgânica assim, e que ainda não foram organizadas forças regionais suficientes para resistir aos frequentes golpes das elites locais aliadas ao capital financeiro internacional.

Uma reflexão madura identificaria diversos fatores que contribuíram para consolidar essa cultura contemplativa entre as esquerdas brasileiras. No entanto, a partir de uma análise das postagens que circulam atualmente nas redes sociais, é possível perceber alguns dos motivos que levam o povo brasileiro a se manter disperso e perplexo diante das adversidades. Em boa parte dessas publicações, as coisas, a realidade, o mundo sensível ainda são vistos sob a forma de objeto ou de abstrações, e não com sensibilidade histórica, crítica e prática, enfim, como práxis. Trata-se de posturas teóricas que ignoram a práxis e o comprometimento, pois são manifestações contemplativas que não levam os interlocutores a lugar nenhum. Elas não tratam as pessoas como sujeitos de uma ação coletiva e nem reconhecem a dinâmica dos movimentos sociais, pois ainda não adquiriram uma consciência objetiva/subjetiva da realidade.

Embora sejam reflexões importantes, muitas delas são apostas, provocações e/ou perguntas de escolha simples (ou isto ou aquilo?), e não percebem que somente por meio das experiências, da práxis, é que as esquerdas brasileiras conseguirão comprovar as suas verdades e o caráter terreno das suas teses e discursos. Ficar apenas disputando sobre a realidade ou não realidade de um determinado pensamento, isolados da práxis, é uma atitude meramente acadêmica e/ou contemplativa.
É verdade que a maioria do povo brasileiro ainda possui uma consciência baseada no imediatismo, pois ela é fruto das circunstâncias da vida e da educação que essas pessoas receberam. Mas não podemos ignorar que essas circunstâncias e as consciências somente poderão ser transformadas pelos próprios seres humanos – vistos como sujeitos e não como objetos –, e que a maioria dos agricultores, dos camponeses, dos operários, dos professores, dos estudantes, dos jornalistas, dos artistas, dos parlamentares etc. ainda precisa assimilar uma nova cultura política baseada na convivência, na fraternidade, na justiça e na igualdade de direitos sociais.

Somente a partir da máxima compreensão possível da realidade será possível mudar as circunstâncias e a cultura política do povo brasileiro. Ou seja: é preciso entender as incoerências entre o mundo representado pelas teorias e o mundo real, para eliminar ao máximo as suas contradições. Questões objetivas, como a defesa de um salário mínimo justo, da previdência pública, da soberania tecnológica, dos recursos naturais, da biodiverisidade, da mobilidade urbana, da liberdade de Lula, da Petrobrás, da demarcação das terras indígenas e quilombolas, das relações de trabalho, das novas formas de família etc., são as que precisam ser questionadas e praticamente transformadas, e não aquelas que estão apenas no reino dos céus.

Percebam que, além de adotar um pensamento abstrato, uma parte das esquerdas brasileiras ainda não encara o mundo como atividade humana crítica, prática e sensível nas suas relações diárias. Em geral, a sua crítica ao processo histórico pressupõe indivíduos totalmente abstratos e sem interesses econômicos, sociais, culturais e/ou políticos. Trata-se de um “sentimento fantasioso”, pautado por terceiros e construído socialmente, em que os indivíduos deixam de ser reais ou considerados no contexto de uma determinada classe, de um determinado território e de uma cultura singular.

Como a vida em sociedade é, ao mesmo tempo, teórica e prática, todos os mistérios que conduzem a teoria para este tipo de abstração encontrariam a sua solução racional na consciência histórica, prática, crítica e sensível. No entanto, o máximo que os críticos contemplativos conseguem é analisar os indivíduos isolados do seu contexto social, pois o seu passatempo é o de apenas cobrar uma atitude “dos outros”, dos partidos, dos governos e das demais organizações políticas, porém o ponto de vista de quem quer mudar a sociedade deve ser crítico e propositivo. Ou seja, não ser apenas pautado, mas reconhecer a diversidade de interesses e encontrar os caminhos que sejam capazes de transformar-nos individual e coletivamente. Para isso ocorrer será preciso se comprometer com uma parte da sociedade na defesa da humanidade inteira, além de socializar-se e de engajar-se nas lutas locais e regionais.

Por exemplo, a maioria das pessoas não sabe ou não lembra que os governos militares devolveram o país para os civis em 1985 – por via de eleições indiretas – após uma longa crise do petróleo e do capitalismo internacional, e que eles deixaram como herança uma inflação e um custo de vida muito altos, uma enorme dívida externa (com o Fundo Monetário Internacional), o êxodo rural em todas as regiões do país, a favelização e o crescimento desordenado das cidades, assim como vários casos de corrupção, de torturas e de assassinatos de opositores. Também é raro encontrar pessoas refletindo sobre as mudanças que ocorreram no mundo de lá pra cá, como o caso das empresas multinacionais ou transnacionais que instalaram os seus parques industriais em território brasileiro (e sul-americano), criaram redes de transações econômicas e de espionagem que agem fora do controle dos governos, que surgiram novas tecnologias, novas profissões, e que já se formou uma nova estrutura de classes sociais no país e no mundo. E que, apesar dessas profundas mudanças e da experiência vivida de caráter democrático e popular, principalmente durante os governos Lula e Dilma, a maioria das forças da esquerda brasileira ainda mantém antigas concepções de mundo e de organização política.

Não é por acaso que a história do Brasil se repetiu (mais uma vez) como uma farsa. Para isso não ocorrer novamente, será preciso aprender com as experiências do passado, com aquilo que as organizações fizeram ou deveriam ter feito, inclusive com as aventuras, os heroísmos e as rebeldias que ocorreram no final dos anos 60 e no início dos 70, e com esta nova derrota eleitoral. Não podemos permitir que o derrotismo e a culpa invadam a mente das pessoas, pois 47 milhões de votos em #HaddadManu não é pouca coisa… Somados aos 42 milhões de votos brancos e nulos resulta que mais da metade do povo brasileiro não votou em Bolsonaro e que agora terá a oportunidade de adquirir uma consciência histórica, prática, crítica e sensível.

Saibam que este projeto entreguista, colonialista, racista e patriarcal somente terá chances de prevalecer por meio do marketing, da mentira, da violência, da repressão e do estado de exceção, no meio das chamadas guerras híbridas. Como as novas gerações já experimentaram tempos melhores e estão surgindo organizações livres, autônomas e democráticas, existe a possibilidade de o povo brasileiro acordar de vez e, finalmente, cicatrizar as suas feridas históricas. Não se trata de um jogo de apostas, mas de saber de qual dos lados estaremos a cada luta real e concreta que surgir. De que adianta acertar apostas sobre o futuro se não estamos juntos nas lutas do povo?

Para avançar, precisamos ousar até nos libertarmos de certas ilusões, fantasias e dogmas que persistem entre nós, antes que se dispersem as forças que emergiram nessas recentes experiências coletivas. Se não articularmos as atividades e as forças que surgiram em cada município, estado e país, não vamos ultrapassar as fases do consumo de informação e nem do mero elogio às “celebridades” políticas. Ou seja, ficaremos presos à rigidez dos gabinetes parlamentares, dos dirigismos partidários e não estaremos contribuindo para o fortalecimento das organizações que já atuam junto à sociedade.

Estamos de acordo que Bolsonaro é um falsário – um falso cristão e um falso nacionalista – e também que ele e Moro representam um aprofundamento do golpe e do desgoverno Temer… Mas não concordamos que se trata de uma aposta definitiva do neoliberalismo internacional. Percebam que o governo Bolsonaro começou a sangrar antes mesmo de implementar o seu programa, pois alguns países parceiros, estratégicos do ponto de vista comercial – como a China, a Rússia, a França e a Alemanha, por exemplo, já fizeram as suas primeiras advertências aos empresários brasileiros. Além disso, apenas 46 delegações estiveram presentes na sua posse, e isso é um sinal para bons entendedores.

Por outro lado, a família Bolsonaro já está envolvida em denúncias de corrupção e eles estão definitivamente obrigados a seguir as ordens de quem realmente está mandando no Brasil: o capital estrangeiro, aliado a sua intelligentsia nacional entreguista. O desastre ficou mais evidente após a adoção das primeiras medidas do novo governo, de retorno à órbita dos EUA, de exploração da força de trabalho, do poder dado aos ruralistas para demarcação de terras indígenas e quilombolas etc. Por isso precisamos reorganizar as nossas alternativas de poder local e global: depois de um breve período de refluxo e de reflexões, devemos estar preparados para as novas disputas e tempestades que se avizinham.

Como a vida é uma possibilidade, já que não depende apenas das vontades e das opiniões das pessoas, precisamos pensar na hipótese do falso messias, dos pastores gananciosos e desta casta militar entreguista não conseguirem iludir e enganar a maioria do povo por muito tempo. Quanto irá durar esta disputa entre os donos do capital e os trabalhadores brasileiros? A resposta está diretamente relacionada ao grau de desmemoria, de desorganização, de solidão e de descrença nas reflexões políticas que persistirem entre nós. Se não aprendermos a aproximar as relações digitais das presenciais ficaremos aguardando que ocorra um milagre no Brasil, e as futuras gerações serão obrigadas a enfrentar verdadeiros tornados, ciclones e furacões.

Nota do autor: este artigo foi escrito a partir de uma releitura das Teses sobre Feuerbach, do jovem Marx. Trata-se de onze notas curtas, escritas na primavera de 1845. O texto original somente foi traduzido para outras línguas em meados do século 20. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000081.pdf

Entre a coragem e o medo infantil de dragões



"Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem." Jorge Ben Jor

Aprendi que certas ameaças políticas podem paralisar uma pessoa que tem medo da liberdade, mas que também servem para desafiar a sensibilidade e o raciocínio de quem tem uma inspiração revolucionária. Na maioria dos casos, o dilema está em ceder ou não ceder ao terror psicológico que a sociedade conservadora costuma patrocinar por meio das mídias sociais disponíveis.
No afã de interagir na internet, uma parte significativa da sociedade costuma compartilhar os seus fatalismos e medos, e assim acaba anestesiando a indignação de muitas pessoas.  Elas não percebem que a sociedade conservadora utiliza os seus tentáculos para preservar e ampliar privilégios, e pra isso contrata os serviços de robôs, mercenários e jornalistas que multiplicam xingamentos, jargões e adjetivos nas mídias sociais.
No Brasil, a reação da sociedade conservadora ocorreu graças aos avanços que tivemos durante os governos Lula e Dilma. Com a crise de econômica e política de 2008 e de 2015, começou a propagar o medo, incentivar a demonização da política e a pregar um tipo de moralismo sem a mínima moral. Enquanto, a demonização buscava enfraquecer a atuação das lideranças que lhe faziam oposição, o moralismo unificou a sua base social reacionária e conservadora. 
Por que apenas nestes últimos anos cresceram os discursos moralistas,  acusações generalizadas, propagação de boatos e de fakenews?  É preciso entender que por trás de todo esse simulacro nacional existe um forte poder econômico e de inteligência que se revela sutilmente por meio dos comerciais e programas de rádio e TV. 
Quem são esses patrocinadores do caos e do medo? São as grandes empresas e bancos transnacionais, cujos lucros estavam sendo ameaçados pela nova ordem mundial, com o surgimento dos BRICs e com a perspectiva do Brasil ganhar autonomia na produção de energia (petróleo, gás, etc.), os quais estavam destinados aos investimentos nas áreas de saúde, educação, segurança, novas tecnologias etc.
Hoje, após cinco anos dos protestos de 2013, até uma criança é capaz de reconhecer que foi aproveitado um momento de descontentamento popular, provocado pela retração do consumo durante o segundo governo Dilma, para a Rede Globo iniciar uma campanha desenfreada contra a corrupção generalizada “dos governos do PT”, para bombardear os lares brasileiros com notícias negativas e para os porta-vozes da sociedade conservadora “ocuparem” quase todos os principais veículos de comunicação do país. Também tomaram de assalto o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF para aprovar medidas contra o povo brasileiro e a soberania nacional, criaram um clima de guerra nas fronteiras nacionais e acabaram gerando um caos social que trouxe enormes sacrifícios para a maioria da população, como o aumento do preço do gás, dos combustíveis, a perda de direitos históricos e a falta de perspectivas para com o futuro. 
Em função dessa sede desenfreada provocaram a indignação generalizada de milhões de brasileiros e de brasileiras, que agora se revela no imenso apoio ao ex-presidente Lula nas pesquisas eleitorais, nas rodas de conversas nas feiras, bares, padarias, universidades e redes sociais. Contraditoriamente, principalmente a partir da prisão da maior liderança popular, esse processo também acendeu um sinal de alerta para as forças democráticas e populares do Brasil e do mundo livre.
O fato novo é que as forças de esquerda estão muito mais unificadas do que antes. Apesar das enormes perdas, dos medos e das ameaças, esse processo está servindo para aproximar diversas pautas políticas, realizar uma autocrítica (por enquanto) na prática e uma volta às organizações de base. Uma mudança na consciência individual e coletiva já está em curso, e podemos afirmar que está se gestando uma nova cultura política, baseada na pluralidade e na radicalidade democrática.
Quais são os riscos da sociedade conservadora vencer essa disputa? Vai depender do tamanho do medo ou da esperança que conseguirmos compartilhar nas nossas relações, pois se trata de uma disputa contraditória, de caráter local, regional, nacional e internacional, e não de uma corrida de cavalos em cancha reta.
Neste novo período eleitoral a sociedade conservadora voltou a comprar políticos, juízes, jornalistas e militares para promover ações de terror psicológico, com o objetivo de evitar que as pessoas reflitam sobre o essencial dessa disputa nacional e internacional. Uma parte da sociedade brasileira seguirá calada e vai preferir não se envolver nas disputas políticas... Mas existem  milhões e milhões de pessoas já assimilaram os golpes e estão se manifestando ao seu jeito. Estas procuram identificar guerreiros e guerreiras que queiram enfrentar os dragões e transformar essa dura e triste realidade
Como a sonhada primavera já está chegando, entramos no período mais agudo da disputa política-eleitoral. Se de um lado está a sociedade conservadora como uma cadela no cio, do outro estamos nós e as nossas referências políticas, vestidos com as roupas e as armas da coragem, da serenidade e da consistência. Estamos certos de que seguiremos questionando os caminhos, as propostas e os métodos que não levam a lugar nenhum, mas sabemos que para isso ocorrer precisamos virar essa página da história.
Quem foi capaz de aprender com as experiências que o destino nos reservou, também será capaz de traduzir cada realidade local/regional concreta, abandonar as zonas de conforto e ir para a rua beber as tempestades. Finalmente chegamos na hora de medir o poder real de cada força política para vencer estas eleições, pois precisaremos manter as mobilizações até o país dar um, dois ou três passos adelante.




É preciso estar atento e forte...

“É preciso estar atento e forte,
Não temos tempo de temer a morte...” 
Caetano Veloso

Os nossos direitos seguem ameaçados. No entanto, com as mobilizações de rua e os novos acontecimentos, como a delação da JBS e a pressão sobre Temer, o povo está aprendendo sobre o funcionamento dos lobbies das grandes empresas nacionais e internacionais no Congresso Nacional e também nos tribunais. Por isso, precisamos permanecer atentos e fortes, pois as horas e horas de notícias negativas nos principais meios de comunicação estão revelando a trama, mas também podem deixar uma parte da população ainda mais descrente e perplexa.
O fato é que, com o fim do pacto político, representado pelo processo de impeachment da presidenta Dilma, deu início a uma guerra contra os movimentos sociais e, principalmente, contra o PT e o ex-presidente Lula. O país entrou numa fase de intensas batalhas econômicas, políticas, jurídicas, psíquicas e culturais, de abrangência nacional e internacional. Milhares de empregos foram perdidos, o Congresso ficou nu aos olhos do povo, os juízes e procuradores se destacaram na cena política, aumentou a venda de Rivotril e as baixarias invadiram as redes sociais etc., etc., etc. As redes de televisão, rádios, jornais e algumas revistas semanais, a mando dos seus patrocinadores, não pouparam esforços para atacar quem denunciava o golpe, pois queriam defender e ampliar ainda mais os seus privilégios.
A grande mídia foi cooptada pelo bloco golpista à base de muito dinheiro público. E, mesmo assim, na adversidade, surgiram diversos movimentos sociais que ocuparam escolas, praças, esquinas e, depois, as ruas, com ou sem o apoio dos partidos, para defender os interesses dos trabalhadores e das camadas exploradas e excluídas da sociedade.
Esse período de resistências jamais pode ser esquecido por quem ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Vejam que em 2017 os ventos favoráveis à resistência popular sopraram muito mais fortes do que no ano anterior: no dia 8 de março, por exemplo, as mulheres e os homens do mundo inteiro fizeram grandes manifestações contra o preconceito e a exploração das mulheres. No dia 15 de março, ocorreram atos no interior do país e nas capitais contra a perda de direitos. E no dia 28 de abril, os movimentos sociais, as centrais sindicais e indivíduos de vários matizes ideológicos e partidários realizaram a maior Greve Geral da história do país, dando uma clara demonstração de unidade em torno das pautas contra o desmonte da previdência pública e em defesa da CLT. Depois ainda houve o dia 10 de maio em que o Partido dos Trabalhadores, o MST, o MTST e a CUT demonstraram uma imensa capacidade de unidade e mobilização, quando militantes vindos das mais distantes regiões do país ocuparam a cidade de Curitiba para dar apoio à maior liderança popular que o Brasil já teve: o Lula.
Ainda em maio, tivemos aquela grande manifestação em Brasília, e no dia 28 um grande ato-show por Eleições Diretas Já!, com a participação de Caetano Veloso, Wagner Moura, Criolo,  Martinália, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mano Brown, BNegão, Daniel de Oliveira, Sophie Charlotte e Milton Nascimento.
O filósofo Antonio Gramsci diria que nós estamos entrando numa nova fase da guerra de movimento e da guerra de posição. E o poeta Paulo Leminski completaria dizendo que: “En la lucha de clases todas las armas son buenas,  piedras,  noches,  poemas...” Por isso, e também por isso, não podemos cair na tentação de uma guerra puramente ofensiva, sem recuos, reflexões e celebrações nas cidades brasileiras.
Vejam que as forças conservadoras recuaram e só se ouve falar nelas no Governo (que tem 95% de desaprovação), no Congresso (que está totalmente desacreditado), nas redes sociais (ninguém duvida que sejam robôs e/ou pessoas contratadas) e em alguns meios de comunicação, como a Rede Globo, a Band, o SBT, a Veja e as rádios regionais. Fora isso, parece que os(as) patos(as) dispersaram ou "amarelaram" de vez!
Já se ouve falar até em divisões entre o Ministério Público, o STF e a Lava-Jato, e também entre o Senado e a Câmara dos Deputados. O fantasma do Teori Zavaski paira sobre Brasília, enquanto aumenta a força nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas e nas famílias brasileiras.
Por seu lado, Temer e Aécio, pegos recentemente – com provas - no mega esquema da JBS, estão em situação muito complicada. No entanto, mesmo com toda essa divisão do bloco golpista, Temer bate na mesa e afirma que não irá renunciar. Vejam que, diferentemente da Dilma, ele enfrentou os protestos em Brasília com a cavalaria, baionetas, gás lacrimogênio, balas de borracha e até com balas letais. A Rede Globo, junto com os lobbies, segue forçando as negociações “pelo alto” até tirá-lo do cargo e providenciar um sucessor que seja capaz de aprovar as reformas anti-povo e estancar a Operação Lava-Jato. Dizem que Aécio bebe, articula e chora desesperadamente, pois ele sabe que pode “ser comido”, como foi o Eduardo Cunha.
Mas se engana quem pensa que esta guerra será apenas "uma marolinha"! Recém estamos entrando na fase mais delicada e extrema da nova luta de classes, em defesa dos direitos do povo. É hora de escolher as melhores armas! As redes sociais, os blogs, o diálogo franco e o amplo esclarecimento sobre o que está em jogo fazem parte das nossas principais tarefas de mobilização e organização para os próximos atos-shows e manifestações.
Precisamos aprender a respeitar o tempo das pessoas e das organizações. A sabedoria está em adaptar os nossos desejos às atividades que existem no mundo real, e permanecermos dispostos(as) a acumular mais forças para prosseguir em frente. Se o futuro ainda é incerto, a paciência e a perseverança revelarão quem está junto conosco nos momentos decisivos.
Ainda não sabemos se Temer renunciará antes do julgamento da ação movida contra a chapa Dilma-Temer pelo STF. Cada semana será uma batalha diferente, e qualquer das alternativas também pode significar uma jogada do PSDB, do PMDB e do DEM e seus lobistas para evitar eleições diretas e aprovar as medidas impopulares. Neste momento da disputa, a grande maioria dos deputados e senadores dos partidos de esquerda está atenta e forte, mas ainda existem alguns vacilantes, principalmente os do chamado “Centrão”, pois eles sabem que jamais serão perdoados se votarem por eleições indiretas.
A hora é de união e não de divisão! Não podemos alimentar criticas às cores da bandeira que uma agremiação resolveu levar para as ruas. Uma, porque a luta atual não passa exclusivamente pelos partidos políticos. Outra, porque a Greve Geral do dia 28 de abril nos apontou o melhor caminho: as pautas defendidas mobilizaram e unificaram diversos setores da população. Além disso, ela tocou na parte mais sensível dos golpistas – o capital – e apontou para a possibilidade de formação de uma ampla frente política no Brasil, para além dos partidos.
– Ah, mas o Lula devia ter combatido a Globo quando ele teve a oportunidade e não o fez - reclama um. O outro desabafa: – As políticas do governo Dilma estavam equivocadas! E ainda tem aquela outra que defende: – A Lava-Jato é a solução para acabar com a corrupção no Brasil! Essas pessoas preferem morrer com a razão a escutar as ruas e a somar mais e mais esforços... Digam para elas que se perdermos as ruas, não há dúvidas de que virá uma nova ofensiva da Rede Globo e dos seus conhecidos aliados.
É hora das esquerdas se unificarem em torno de um projeto para o país, que inclua as pautas da previdência pública e da CLT, além da reforma política, dos juros e do Pré-Sal, entre outras. Mas também já está mais do que na hora de elas preservarem as lideranças que não cometeram crimes e de defender um julgamento justo para todos os suspeitos. As novas e antigas lideranças precisam mostrar maturidade política e contribuir nessas complexas tarefas.
Nesta nova fase da guerra de movimento e de posição, é preciso construir juntos e também celebrar os avanços obtidos. Percebam que os gritos de #ForaTemer”, #DiretasJá e #EmDefesaDosNossosDireitos já não estão restritos aos tradicionais grupos da esquerda brasileira. E isso é muito bom para o campo democrático e popular avançar ainda mais!