Quem estava pagando a minha ZH?


     Recebi uma Zero Hora de graça durante vários meses e fiquei curioso para saber se eles não tinham controle da entrega ou se estavam tentando me conquistar. Nesse período me ligaram N vezes para saber "por que eu havia cancelado a assinatura". Como eu sou muito tranquilo, resolvi testar a minha paciência e também a dos atendentes de telemarketing contratados pelo Grupo RBS. Vejam uma síntese desses diálogos:

- Qual foi o motivo do seu cancelamento?

- São vários motivos...

- O Sr. pode me citar alguns? Queremos lhe informar que esta conversa está sendo gravada...

- Maravilha! Tomara que alguém escute o que eu vou dizer... Em primeiro lugar, não estou de acordo com a linha editorial do jornal. Ele se tornou um jornal de opinião política e não de informações, como eu gostaria.

- Me explique melhor!

- Sim, eu costumo analisar as manchetes dos jornais, as matérias e a opinião de alguns dos seus colunistas... Nesta minha volta ao Rio Grande do Sul (já estou aqui há 4 anos), percebi que vocês incentivam a divisão dos gaúchos e fazem um jornalismo que não contextualiza a realidade... Isso tudo para vender mais jornais... E mais: neste momento dá para ver claramente que vocês estão em plena campanha política contra os governos legitimanente eleitos no estado e no país.

- Mas senhor, nós não fazemos política! Nós somos imparciais...

- Quando ZH só mostra um lado da moeda, e não mostra o contraditório, não entrevista as partes, não dá voz aos envolvidos, aquilo que deveria ser inform-ação acaba se transformando em opinião. Concordas? Ao analisar as matérias de ZH isso fica muito claro!!! E não te esquece que muitas pessoas só lêem as manchetes... Também vejo que a ZH faz uma permanente desmoralização das instituições públicas, dos partidos e de outras organizações populares... Por exemplo, não se lê uma notícia positiva sobre os maravilhosos programas implantados pelos governos brasileiros e latinoamericanos... Se vocês estivessem na Argentina, na Europa ou nos Estados Unidos já estariam enquadrados numa lei de mídia.

- Senhor, o nosso jornal está completando 40 anos, nos estamos mudando o nosso formato e os nossos conteúdos.. Queremos tê-lo como nosso parceiro!

- Eu sei disso! Mas agora eu estou respondendo as tuas perguntas.  Você me perguntou por que eu havia cancelado a assinatura, não foi isso? Então seguimos...

- O Grupo RBS pagou e divulgou uma campanha do pré-candidato Lasier Martins percorrendo os municípios do estado para debater a "situação" do Rio Grande do Sul. Lembra disso? Quantas vezes você leu algum notícia sobre a fraude na PROCEMPA ou sobre os convênios assinados pelo Instituto do Ronaldinho Gaúcho com a Prefeitura de Porto Alegre? Eu não vejo nada disso publicado! E sobre o escândalo de corrupção bilionária nos metrôs do estado de São Paulo? E sobre o envolvimento do Aécio Neves com a máfia da cocaína, em Minas Gerais? Menos ainda.

- Está bem! Existe algum outro motivo?

- Sim. Quase tudo que Zero Hora publica eu já li no dia anterior, na internet... Posso comparar e  contextualizar as notícias. Eu leio em blogs e acesso outras opiniões que me interessam. Quase tudo de graça! Só assinei o jornal para receber notícias culturais do estado e de Porto Alegre. Mas o Caderno de Cultura também está muito fraco... Até trás alguma matéria boa, assinada por algum colaborador simpático... Mas junto vêm dez ruins, preconceituosos, enfim...

- Senhor, eu estou ligando porque estamos com uma nova promoção: Se pagar apenas 28 reais por mês, o senhor poderá receber em sua casa a ZH com o Caderno de Cultura, sem os Classificados...

- Quantos meses? Até as eleições de outubro? Por favor, meu amigo, eu já conversei tudo isso com os outros vendedores que me ligaram e, sinceramente, não quero mais assinar este jornal.

- Senhor, nós estamos com uma promoção de apenas 28 reais por mês. O que o senhor acha disso?

- Meu amigo, em primeiro lugar eu não aceito que fiquem ligando para a minha casa! Em segundo, não te esquece de que eu já mencionei vários motivos: a divisão dos gaúchos, a campanha política, a parcialidade... Esqueceste? Não insista por que eu NÃO QUERO colaborar com a campanha da Ana Amélia Lemos, do Lasier Martins e com os demais candidatos do Grupo RBS.

- Mas nós não fazemos política!

- De novo? Está bem, eu entendo que a tua função é de vendedor de telemaketing pago e treinado para isso... Não quero e não pretendo te convencer do contrário. Só queria te ouvir e saber qual era a estratégia do jornal nesta véspera de eleições. Eu já respondi todas as tuas perguntas?

- Sim, senhor. Obrigado!

- Está tudo gravado, né?

- Sim senhor. Boa noite!

- Boa noite!

Desliguei achando que eu não iria receber mais ligações... Mas, outro dia recebi um torpedo  dizendo assim: Ricardo, continue com ZH e ganhe um KIT ESPUMANTE de presente... Ligue agora mesmo 0800-643.0046 e não perca essa oportunidade!

- Kkkkkkkkkkk. Mudaram de tática para atingir a velha estratégia!!!

Na verdade, eu não me sinto surpreso com essa tática agressiva da RBS, pois sei que o Rio Grande do Sul é um estado estratégico para o equilíbrio político regional (do Brasil e do Mercosul) e que os rumos da política brasileira também passam por aqui... Lá em Santa Catarina é bem mais evidente (será?), mas cheguei a pensar que aqui era diferente... É que eu entendo que os jornais e os programas de rádio só existem porque existem leitores e ouvintes...Caso contrário, eles mudam ou deixam de existir...

Agora fiquei com uma dúvida: Quem estava pagando a minha ZH?

Preciso saber, pois também sei que o Rio Grande do Sul já possui condições de editar, publicar e bancar um outro jornal diário (a exemplo de outros estados e países), com mais informações e coberturas jornalísticas bem mais sérias.

Enquanto isso não acontece, eu vou continuar me informando pela internet.

Os donos da bola

"No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar"
Gozaquinha

     Na minha infância e adolescência era comum encontrar meninos que acabavam com o jogo de futebol quando os seus times estavam perdendo. Eles eram chamados de “os donos da bola” e, às vezes, eram donos até das camisetas.  Estes meninos cresceram e, lamentavelmente, muitos deles ainda continuam assim: não aprenderam a conviver com as adversidades e com as diferenças.
 
   Desde cedo eles foram mimados e conviveram com a bajulação das famílias, cujos pais estavam melhorando de vida, durante o chamado Milagre Econômico. Aquele mundo infantil era cheio de fantasias e de aventuras, mas também de dúvidas sobre a capacidade de compreender o mundo, os outros e nós mesmos. Quem sou eu? O que os outros pensam de mim? E que mundo cruel é este? Faziam parte das nossas pré-ocupações.
 
   Para as mães ficava o papel de educadoras, pois os pais estavam quase sempre trabalhando. Elas somente perdiam o posto quando o amor era substituído pela professora, por Jesus Cristo, por Nossa Senhora, pelos padres, pelas freiras e pelos reverendos. Eles ensinavam a ser culpados e a fingir amar sem questionar os nossos desejos mais profundos. Assim, uma criança passava muitos anos para aprender a lidar com a vida real.
 
   Naquela época também era comum e engraçado chamar os outros por um apelido, quase sempre pejorativo. Mas isso acabava incomodando todos, pois todos que resistiam recebiam um daqueles maldosos “rótulos”. Na escola é que se revelava a relação de superioridade e de inferioridade, e onde o mundo era visto e aprendido como uma encenação de poder, de disputas e de opressão.
 
   Esse mundo se revelou mais ainda quando conquistamos a democracia e quando o Banco do Brasil resolveu cobrar as dívidas contraídas pelos antepassados, após tantos anos de empréstimos sobre empréstimos, juros sobre juros, viagens ao exterior e muitas risadas. O que ficou de herança? O sentimento de serem os eternos donos da bola.
 
   Para muitos deles, nesta nova e complexa realidade, que pode levá-los à pobreza ou a voltar aos velhos tempos de glória, acabou restando a opção de entrarem para grupos políticos e religiosos, e tornarem-se oradores e militantes conservadores. Assim, na vida e na internet, eles encontram uma forma de preencher o vazio deixado pelas velhas escolhas. O pior é que alguns resolveram identificar falsos culpados pelas oscilações de suas vidas: de judeus a homossexuais, de indígenas a esquerdistas, quase todos se tornaram motivos para destilar seus ódios e xingamentos.
 
   Na verdade, eles não querem reconhecer que foram educados para serem os chefes e que esse posto já não lhes pertence mais. Como a história não anda em linha reta, a radicalização da democracia está criando um ambiente favorável para novos aprendizados. Que aprenda quem souber!

Memórias de um 1º de abril


Era 1º de abril de 1964, e eu tinha apenas oito anos de idade. Naquela manhã o meu pai me levou pra passear no seu Simca Chambord pelas ruas desertas da cidade. Lembro que tinham montado barricadas na frente do 8º Regimento de Cavalaria e que quase ninguém havia saído de casa. Meses mais tarde, eu já estava desfilando com um uniforme militar e cantando o Hino Nacional na entrada do Grupo Escolar Rivadávia Corrêa. 

Na verdade, até 1973 eu não acompanhava o que estava acontecendo no meu país. Morando na fronteira Brasil-Uruguai, dava para aproveitar os últimos ares democráticos que ainda sopravam do lado de lá. Pois atravessando a linha imaginária eu conseguia assistir a filmes censurados e comprava livros que estavam proibidos no Brasil. Acho que isso diminuía um pouco a minha inquietação juvenil.

Vladimir Herzog - 1975
Confesso que, até 1975, eu não entendia bem o que significava viver sob uma ditadura militar. Acordei de vez quando os principais jornais da época anunciaram que o jornalista Vladimir Herzog havia se enforcado com uma tira de pano, amarrada a uma grade a menos de dois metros de altura. Eu já tinha 19 anos e a foto mostrava os pés do jornalista tocando o chão, com os joelhos dobrados.  Alguns meses depois, na porta de uma fábrica, o líder sindical Santo Dias foi morto ao tentar dialogar com os policiais para libertar os companheiros presos. A polícia agiu com brutalidade, e um PM atirou nele pelas costas. O corpo do operário morto só não desapareceu porque a sua companheira entrou no carro que transportava o  corpo para o Instituto Médico Legal.

Assim, aos poucos, através da imprensa alternativa da época e dos meus amigos, foram se revelando as matanças, as torturas e toda a corrupção que transbordava em quase todas as áreas. Também descobri que para isso acontecer eles precisavam do apoio da grande mídia e da máquina judiciária, divulgando informações falsas sobre aqueles verdadeiros crimes. Durante anos eu assisti confissões forjadas, laudos periciais mentirosos, autópsias fraudadas, queima de bancas de jornais e o desaparecimento de pessoas inocentes, após longas sessões de torturas. Com a grande mídia ao seu lado, alguns empresários internacionais, via governo dos EUA, compraram vários empresários brasileiros, alguns políticos e boa parte da alta patente do exército. Depois, utilizando intrigas e mentiras, foram desmantelando a universidade brasileira (ver acordo MEC-USAID), manipulando e dividindo a sociedade civil, e assim conseguiram apoio para os seus investimentos no país. Eles queriam a nossa mão-de-obra barata e a exportação das nossas riquezas naturais.

Roberto Marinho com os generais
e com Antonio Carlos Magalhães
Entre os casos de corrupção, eu lembro da Operação Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), em que esta “organização” ganhou uma concorrência suspeita para a exploração de madeira no Pará, dos desvios de verbas na construção da ponte Rio–Niterói, da construção da Usina de Itaipú e da inacabada Rodovia Transamazônica. O General Golbery do Couto e Silva, por exemplo, um dos principais articuladores do golpe militar e das suas estratégias, também foi presidente da filial brasileira da empresa norte-americana Dow Chemical e, posteriormente, seu presidente para a América do Sul. Como calar diante disso tudo?

Naquela época, apesar da minha indignação, eu quase não tinha com quem conversar sobre estes assuntos em casa. Os meus pais, com medo de alguma represália, me pediam para não me meter na política. A minha mãe às vezes me falava do penteado que a Dona Dulce Figueiredo usava, e eu ficava &%*&¨¨%%$+_)( da cara.

Mesmo sem liberdade de expressão, fui me dando conta de que aquele modelo pregava abertamente o crescimento a qualquer custo, expulsando os homens do campo, acabando com as reservas indígenas, criando enormes cinturões de miséria nas grandes cidades e explorando os trabalhadores. Para garantir tudo isso, o congresso foi esvaziado de seu significado público, e criaram-se privilégios em todas as esferas de poder (municipal, estadual e federal), com a apropriação privada do que deveria ser público. As cidades de fronteira e as capitais dos estados (UFs) foram consideradas Áreas de Segurança Nacional e não tinham o direito de eleger os seus prefeitos e nem os seus escalões administrativos. Os governadores também eram indicados pelos ditadores, e os estados menores, como o Acre e o Amapá, à medida que a oposição avançava nos demais estados, ganharam o mesmo peso de representação no Senado, para garantir uma nova maioria. Essa e outras manobras políticas, os defensores do regime militar brasileiro nos deixaram como herança.

Quem viveu naquela época sabe que os ditadores se utilizaram da prática de tortura de uma forma institucionalizada. E que algumas dessas práticas ainda persistem em delegacias e prisões do nosso país. Aquele regime de força acabou promovendo, gratificando e dando garantias aos integrantes do aparelho de repressão política, como a anistia aos torturadores e o emblemático caso da homenagem ao delegado torturador Fleury, com a concessão da Medalha do Pacificador.

É notório que neste poucos anos de democracia e de liberdade conquistada, muitas pessoas estão aprendendo a conviver e a dialogar com as diferenças. A nossa paciência, aliada ao trabalho de base, com argumentos consistentes, foram desmanchando muito daquela velha onda reacionária e conservadora. 

Faz tempo que eu estou convencido de que o combate à corrupção passa pela luta por mais participação e por mais democracia. Ou seja, quanto mais informações e controle social, menos corrupção e menos autoritarismos... 
Editorial do jornal O Globo - ano 2013
Por isso, o dia 1º de abril deve ser um dia de memórias e de reflexões para nós... Ainda mais que alguns fantasmas insistem em propagar intrigas, mentiras e fazem uma verdadeira tortura psicológica nas Redes Sociais, apesar de tudo o que já foi revelado.

Uruguai: um lugar especial nas minhas memórias

    Era final dos anos 60: época dos Beatles, Rolling Stones, Che Guevara, Woodstock, Jimmy Hendrix, Janis Joplin e tantos outros. Ouvia-se falar na Guerra do Vietnã, mas eu não sabia que havia revoltas na França e nem imaginava que o Jean Paul Sartre e a Simone de Beauvoir existiam. Também não sentia falta da democracia pois eu me deixava "embebedar" pelos ares democráticos que sopravam lá do lado do Uruguai, onde se podia viver de um modo mais livre e espontâneo.

    Como Demian, do Herman Hesse, eu recém estava reconhecendo o mundo fora de casa. A rua e o cinema me revelavam a existência de novas paragens, novos olhares e muitas outras culturas diferentes da minha. Assim, e por morar naquela fronteira, acabei assistindo a vários filmes que não podiam passar no Brasil em função da censura durante o regime militar, como: Z, Sacco e Vanzetti, Mimi – o Metalúrgico, A Classe Operária vai ao Paraíso, O Fantasma da Liberdade, Zabriskie Point, Teorema, Amarcord, Decameron, Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, Easy Rider, A Laranja Mecânica, Tommy e O Último Tango em Paris. Além do mais, no Brasil daqueles tempos sombrios, quase todo o filme era cortado e/ou proibido para menores de 18 anos.

    Foi nesse contexto que eu também conheci a noite nas mesas dos bares da Sarandi e dos bairros mais afastados, onde era comum encontrar amigos(as) para analisar aqueles belos filmes. Assim, aos poucos foram surgindo  reflexões sobre as diferentes formas de repressão, das sexualidades, e se debatia sobre as injustiças humanas. Assim, a minha geração teve a oportunidade de lutar por justiça, elevar os seus sentidos e abrir as portas da imaginação para o infinito. 

    É preciso lembrar que esses filmes somente passaram no Brasil depois da grande crise mundial do petróleo, de 1972, e, principalmente, após o fim do regime autoritário, em 1985. Um pouco antes, com o fim da censura e com a Lei da Anistia, em 1979, eles já começavam a passar nos cinemas que ainda não haviam se transformado em igrejas evangélicas. Os militares uruguaios deram o golpe em 1973 e tudo aquilo que nos alimentava foi desaparecendo ano a ano... No final dos 70 ainda era possível comprar LPs da Janis Joplin, do Jeferson Airplane e do Santana, na Casa América e no Peppo, assim como livros de arquitetura, do Sartre e do Ernesto Sábato, os quais eu guardo com muito carinho. 

    Hoje, eu reconheço que aquelas músicas e livros foram importantes na lapidação da minha sensibilidade cultural, mas aqueles filmes foram fundamentais na minha educação para a vida... E é por isso que eles merecem um lugar especial nas minhas memórias.

     Para celebrá-los, eu publico as lembranças de Federico Fellini, em Amarcord.





Um contador de histórias reais


Dagoberto e Noemy
Ao meu pai, Dagoberto D'Avila Almeida
in memorian


Filho de um tropeiro e de uma costureira, o jovem Dagoberto ficou órfão de pai quando ele tinha apenas 17 anos de idade. Como era o mais velho de cinco filhos, dizem que ele foi fundamental na educação e na formação dos seus irmãos. Eu me lembro dele nos domingos na piscina do Santa Rita, onde ele foi o sócio número 2, e dirigindo um Simca Chambord, um Esplanada, um Tufão, um Rally e um Itamaraty, que depois, bem mais tarde, descobri que aqueles carros também eram seus "negócios de ocasião”. 

Lembro também dele como um bom empreendedor, que sempre se orgulhava de ter comprado um escritório de contabilidade completo. Assim, nós fomos educados ao som daquelas velhas (à época eram modernas) máquinas Olivetti, Remington, Burroughs e Royal, que nos anos 80 foram aos poucos sendo substituídas por computadores.

Bem diferente da minha mãe, de quem herdei um prazer pela música e pelas artes, ele acabou me influenciando profundamente na análise crítica da sociedade. Como ele era um contador reconhecido na cidade, fazia a contabilidade e declaração de renda de aproximadamente 200 pessoas e empresas de Livramento. Por isso, tinha uma visão subterrânea dos negócios de famílias locais e costumava comentar algumas dessas histórias com os filhos na hora do almoço e do jantar.

Era comum escutar situações verídicas envolvendo as disputas por heranças, as preocupações que alguns fazendeiros tinham de dividir as terras entre os herdeiros, as dificuldades financeiras por que passavam determinadas famílias e também, é claro, das maracutaias que alguns empresários locais faziam para sonegar impostos ou passar as mercadorias para o outro lado da fronteira. Quase todos aqueles que chegaram na cidade nos anos 60, 70 e 80 procuravam o Dagoberto para se orientar. Também havia aqueles que, pegos pela fiscalização tributária, voltavam implorando por uma assessoria com uma certa urgência.

Eu assistia a tudo como um grande documentário e, junto com os meus irmãos, o desafiava seguidamente a escrever um livro de memórias, com a promessa de publicarmos somente dez ou quinze anos depois da sua morte. Lembro que ele começou a escrever duas ou três versões, mas disse que acabou queimando depois de ler os resultados.

O que terá escrito? Qual terá sido o motivo dessas desistências? Uma questão ética? Pensou nos empresários locais? Na minha mãe? Em nós? Até hoje não sei o que acabou pesando mais!

Hoje, no dia 18 de fevereiro ele estaria completando 86 anos de idade, e no mês de março completam os quinze anos do seu falecimento, então resolvi deixar registrado um novo agradecimento (in memorian), pois muitos eu fiz em vida, nas longas e gostosas conversas que tivemos ao redor de uma mesa.

Mas, o que quero dizer com tudo isso? Porque eu disse que acabei herdando uma capacidade de análise crítica da sociedade?  

A gente não consegue perceber toda a cultura herdada naturalmente dos nossos pais. É tão natural que os nossos olhos e ouvidos consideram tudo muito normal. Vejam se eu não tenho razão: além dos comentários, ele lia diariamente e conseguiu nos repassar de forma natural um prazer pela interpretação das notícias e também pela leitura das entrelinhas. Por outro lado, nós aproveitávamos todo aquele reconhecimento público dele para entrar livremente nos diferentes clubes da cidade. Assim, fomos convivendo com  diferentes situações e com diferentes classes sociais. Em alguns clubes a gente aprendeu que o segundo "escalão" sempre sentava afastado da pista de danças, mais perto do balcão do bar. Que os endividados disfarçavam muito bem e não demonstravam preocupação alguma ao se divertir. Que novos empreendedores chegavam aos poucos e iam tomando conta dos bailes, dos clubes e também da cidade. Para nós, cada baile era quase um reflexo daquela sociedade. 

      Certo dia ele me perguntou o que eu achava de uma manchete bombástica do jornal A Plateia e eu apontei para o imenso anúncio de primeira página do Frigorífico Armour. Ali selamos um tipo de pacto silencioso: é que ambos sabíamos ler as notícias dos jornais e da TV, considerando os interesses dos seus fiéis patrocinadores.

Saber disso tudo tem o seu lado bom, mas impõe certas precauções. Por conhecer muitos segredos contábeis familiares não era conveniente ele frequentar certas rodas da cidade. E assim, para manter os seus segredos, ele fumava três carteiras de Minister por dia. O seu prazer ficava na leitura, nas pescarias e nos programas de televisão. Bebia um uísque à tardinha, dormia cedo e acordava de madrugada, bem antes do primeiro galo cantar.

Quem conheceu o Dagoberto talvez entenda porque resolvi registrar essas pequenas recordações. Para quem não o conheceu, destaco que ele era um bom contador de histórias reais. Era maçom, com críticas profundas aos “aproveitadores” da maçonaria, e sabia hipnotizar com a sua Parker 51 – e até foi apelidado de “El Brujo” por alguns dos nossos amigos. Mas essas já são outras histórias...

Entender essas contradições dele me faz pegar um pouco mais leve com a vida. Ainda mais que a minha mãe sempre me dizia: - Saiba de tudo, mas não leva a vida tão a sério!

As regras do jogo.

                                                                                                           Cómo hacerte saber que siempre hay tiempo?
                                                                                                           Que uno tiene que buscarlo y dárselo...
                                                                                                           Que nadie establece normas, salvo la vida...
                                                                                                           Que la vida sin ciertas normas pierde formas...
                                                                                                           Desde los afectos, de Mario Benedetti

    Quando Felipe Melo pisou na perna do adversário sem motivo algum e foi expulso nas quartas de final do Mundial de 2010 (reveja a cena aqui), a seleção da Holanda ganhou o jogo e eu xinguei a tela da TV até aquele jogo terminar. Dias depois, quando Luis Suarez, da seleção uruguaia, colocou a mão na bola dentro da área e foi expulso aos 46 minutos do segundo tempo (reveja a cena aqui), eu vibrei de alegria, pois percebi que ele agia consciente das regras do jogo e estava utilizando o último recurso que restava.

    Eu sei, e todos os brasileiros sabem que o jogo de futebol tem as suas regras... O problema é que nem todos sabem que numa sociedade organizada também existem pactos escritos para garantir os direitos e os deveres de cada pessoa, das organizações, dos políticos, dos juízes etc. Portanto, entendo que, nós brasileiros, precisamos repensar algumas questões básicas para conviver em sociedade: será que existem regras claras em todos os jogos que estamos jogando? Devemos defendê-las ou devemos lutar para modificá-las? Devemos agir apenas orientados pela fé e pela emoção ou existem outras formas racionais de interagir numa situação adversa?

    Tenho certeza de que o jogador uruguaio estava muito emocionado ao botar a mão na bola. Ainda mais que o adversário acabou errando o pênalti e o Uruguai ganhou aquela partida também nos pênaltis. Sei disso porque eu nasci lá na fronteira (com o Uruguai) e convivi, joguei futebol, basquete e vôlei com eles por muito tempo. Portanto, reconheço que naquele gesto havia muita racionalidade, pois além da paixão por LA CELESTE, a educação que eles ainda recebem é bem menos "técnica" do que a nossa.

    Lá, por exemplo, as universidades foram criadas muitas décadas antes que as nossas. Na Constituição de 1917 o Estado foi separado da influência da Igreja e o presidente colorado José Batlle y Ordóñez incentivou um verdadeiro laicismo radical no país (lembrem que naquela época a Igreja Católica era a única que tentava influenciar e disputar a esfera pública). Portanto, há muito tempo não se vê símbolos cristãos nas praças, nas salas de aula, nos tribunais e nem nos hospitais da rede pública. No juramento oficial de posse os presidentes não dizem “eu juro por Deus” pois todos se comprometem a seguir e defender unicamente os parâmetros da constituição uruguaia e a proteger os interesses da nação.

     Diferente do Brasil, alguns partidos uruguaios são seculares e o Frente Amplio, que reúne a esquerda uruguaia foi criada em 1971. Esta maturidade política também dificulta as manobras espúrias e o surgimento de uma bancada que defenda as "leis" divinas.

     Quais foram as consequências disso? Os uruguaios aboliram a escravidão quarenta e seis anos antes que o Brasil. As mulheres uruguaias conquistaram o direito ao voto em 1917 e as brasileiras somente em 1932. O país foi o pioneiro ao permitir o divórcio por iniciativa da mulher em 1913 enquanto que a lei brasileira foi aprovada apenas no final dos anos 70. Enfim, recentemente eles conseguiram avançar ainda mais nos seus direitos civis, com a legalização da relação entre pessoas do mesmo sexo, com a não punição à prática do aborto até a 12ª semana de gestação e se tornaram o primeiro país no mundo a comercializar a marijuana pelo próprio Estado. Nós, brasileiros, em pleno século 21, ainda estamos enfrentando o conservadorismo católico e evangélico que invadiu o parlamento, e participamos de algumas passeatas para tentar mudar as velhas regras desse jogo.

     Mas, será somente por isso que não avançamos tanto quanto los hermanos uruguayos?

    Eu me inclino a pensar que somos pouco objetivos (pragmáticos) nesta luta cultural e política. Os uruguaios são educados desde cedo a considerar mais o coletivo ao invés de priorizar soluções (sic) individuais. Uma regra deles, que seria muito polêmica no Brasil, é o uso obrigatório de aventais brancos nas escolas. Segundo ela, isso evita que uma criança se veja como uma “princesinha” ou um “reizinho” perante os demais. Desde cedo eles aprendem que as salas de aula e os colégios não são lugares apropriados para um desfile roupas e de produtos. Gostemos ou não, me parece que eles incentivam (ensinam) as crianças a prestar atenção no conteúdo e não apenas na aparência. Por outro lado, enquanto no Brasil as crianças e adultos transformam a internet num verdadeiro cassino, lá o Plano Ceibal, além de entregar um computador para cada aluno, também se preocupa em selecionar e indicar conteúdos para as crianças acessarem, junto com suas famílias e os moradores do bairro em que vivem.

    Também entendo que nós estamos sucumbindo por excesso de palavras (sem ações concretas) e de uma cultura formada para assistir ao espetáculo. Por isso, eu considero de fundamental importância analisar e refletir sobre o papel da educação formal e informal (aí eu incluo a relação familiar, a literatura produzida, a política e as novelas de TV), pois através delas podemos identificar as formas de interpretação e representação da nossa realidade. Precisamos reconhecer e inserir os elementos subjetivos e simbólicos na nossa análise, para perceber como os diferentes atores da nossa sociedade representam a sua visão de mundo. O ideal seria que todos os brasileiros abandonassem aquela velha mania de ser “técnico” da partida e começassem a jogar o jogo  além de considerar as suas regras, é claro! Pois, de nada vale contrapor a todo custo a opinião do “outro”, apenas para provocá-lo. A nossa realidade já é diversificada, cheia de contradições e de influências étnico-culturais para ser reduzida a uma homogeneidade política e cultural.  No fundo, precisamos reconhecer o descompasso que ainda existe entre a mentalidade colonial europeia que nos foi imposta e a mentalidade mítica/mágica das culturas indígenas, africanas e orientais que sempre estiveram por aqui, pois essa conjunção entre a razão e os mitos será o fio da meada para a compreensão da nossa nova sensibilidade.

    Não podemos seguir formando gerações e gerações de pessoas que só pensam em soluções egoístas, e criando (?) os nossos filhos e netos em quartos fechados. Não podemos seguir assistindo o incentivo ao consumo como uma regra nos programas da TV, em muitos templos religiosos e até em planos governamentais. Ao mesmo tempo, precisamos combater a apologia ao insignificante que se tornou prática comum em diversos programas de rádio, de televisão e também na internet. Pois, com essa guerra de des-in-formação os brasileiros estão ficando cada vez mais confusos e desorientados. Os jogadores de futebol, a seleção e os seus times são apenas expoentes dessa educação desorganizada e individualista que estamos reproduzindo por gerações após gerações.

    Definitivamente precisamos compreender que os desmandos da política não desaparecem como num passe de mágica, que o Paraíso e a Terra Prometida são criações de um pensamento idealista, que servem apenas para caminhar. Que nós teremos aquilo que encontrarmos dentro de cada um de nós. Por isso, sem vacilar, eu aconselho um rápido passeio no paizito hermano para desfrutar um pouco das suas praias, mas também para mergulhar de cabeça na sua cultura, na sua política e na sua história. Afinal, todos nós sabemos que este nosso jogo não tem fim... Ou então, é ficar na arquibancada torcendo para que algum mecenas ou juiz faça a sua leitura das regras do jogo.

A educação precisa de perguntas

Dedico às minhas avós, aos meus pais e aos meus queridos(as) professores(as)


As minhas duas avós não tiveram a oportunidade de estudar numa escola regular, mas possuíam aquilo que costumamos chamar de sabedoria. Ambas criaram os seus filhos sozinhas e não lembro de elas reclamarem da vida. Quieto no meu canto, aprendi com elas que educação a gente aprende na família, na escola e principalmente com as nossas relações sociais.

Pena que esse pensamento tenha se perdido no passado. A partir dos anos 1960-70 a televisão brasileira começou a tomar conta de nossas casas, ocupando um lugar de destaque na sala, depois  foi para todos os quartos e acabou tomando conta de muitos corações e mentes desavisados. Aos poucos, as famílias foram sendo seduzidas pelo conforto que a programação lhes dava, e deixaram de sair, visitar os amigos e "perder um pouco de tempo" fazendo outras coisas. Ao mesmo tempo, muitas pessoas começaram a jogar toda a responsabilidade da educação apenas para os professores(as).

Por isso, hoje lembro com muito carinho da educação que recebi das minhas queridas avós,  pais e professores(as).

Contrária a esse raciocínio, a RBS TV, subsidiária da Rede Globo nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ainda está promovendo uma "campanha" chamada A Educação Precisa de Respostas, como se ela tivesse solução para tudo. Ao mesmo tempo, ela mantém em sua grade de programação vários seriados norte-americanos que banalizam a violência,  incentivam a dirigir de forma veloz e furiosa, promovem o consumismo entre as crianças e a juventude. Resumindo: nos seus diminutos jornais fazem um discurso moralista e no minuto seguinte apelam para aquilo que os mantém em bons níveis de audiência, pois isso também dá lucro para eles e para os seus "patrocinadores".

Por isso, eu entendo que cabe perguntar: Afinal, quem é responsável pela educação das nossas crianças, amigos e parentes? Qual é o papel da escola? E da família? E da televisão?

Outro dia eu assistia o programa Conversas Cruzadas, da TV COM, e os debatedores defendiam a campanha Rio Grande do SIM, relacionando as vantagens de morar no Rio Grande do Sul e faziam algumas importantes comparações com os outros estados brasileiros. Enfim, todos defendiam que os gaúchos, além de críticas, também deveriam aprender a valorizar o que já haviam conquistado no seu rico processo histórico. Eu estava gostando, pois morei onze anos fora daqui e percebia claramente o que eles estavam dizendo. Por seu lado, o "moderador-agora candidato" Lasier Martins, surpreso com a fala dos seus convidados parecia não acreditar no que ouvia. Ainda mais que todos eram representantes da iniciativa privada.

Não é que de repente surge uma revelação pedagógica: numa daquelas vinhetas em que a população participa, um simples cidadão diz o seguinte: “Eu não sei. Mas hoje eu vi o Lasier dizer que estava tudo ruim... Então deve estar tudo ruim mesmo!”. Ele acabava de revelar quem reproduzia diariamente uma "educação" pessimista e fatalista de nós mesmos... Ao "apresentador- agora candidato" só restou repetir aquele famoso refrão: Os nossos (sic) comerciais, por favor!!!

Falo isso não apenas pelo fato de ele ser candidato declarado (com direito a campanha antecipada e tudo em horário nobre), mas para lembrarmos que essa “rede” possui interesses comerciais estratégicos que dependem diretamente da política municipal, estadual e nacional. Por isso, costuma lançar seus candidatos. Há pouco tempo ela já tentou participar da privatização da telefonia no estado e teve que se retirar após perder uma acirrada disputa política e jurídica. Se lembrarmos que eles possuem volumosos interesses na área da internet, da construção civil e que estão de olho nos negócios que a Copa do Mundo de 2014 pode trazer, a reflexão fica muito mais complexa.

Ou seja, do ponto de vista "comercial" isso tudo pode ser visto como legítimo. Mas estamos falando de jornalismo, de política e da educação dos nossos amigos, filhos e parentes. É lamentável que muitos gaúchos não se apercebam que essa "educação" está invadindo as nossas casas e também o quarto dos nossos filhos! Infelizmente, muitas pessoas ainda não aprenderam (sic) que a televisão é uma concessão pública (assim como o transporte público), de direito público, e precisa de controle civil externo e de regulamentação.

Sem desmerecer o importante papel dos professores, eu entendo que a educação está precisando de mais boas perguntas do que de respostas direcionadas. Já diziam as minhas queridas avós...

O Tempo e os Novos Ventos

       O argentino José Hernandez morou nas cidades de Santana do Livramento e Buenos Aires e escreveu o épico Martín Fierro (1872) que retrata a peregrinação e as reflexões de um gaucho abandonado à própria sorte, entre guerras e conflitos. Simões Lopes Neto e Érico Veríssimo viveram nas cidades de Pelotas e Porto Alegre, respectivamente, e escreveram os Contos Gauchescos (1912) e O Continente (1949), obras que também fazem uma abordagem sobre as formação das primeiras vilas e cidades no pampa. Pela sua importância histórica e literária as obras desses homens urbanos e letrados são utilizadas por professores, artistas e intelectuais para representar a cultura gaúcha/gaucha.

      Fica uma pergunta: Por que será que a obra de Érico Veríssimo é sempre representada apenas pela primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento? No livro O Continente (escrito em 1949), Veríssimo aborda as primeiras migrações no território, chamado na época de "Continente de São Pedro" (1745). Mas a saga das famílias Terra e Cambará continua nos outros dois volumes da trilogia: O Retrato (1951) e O Arquipélago (1961). Os personagens de O Tempo e o Vento são protagonistas das origens e da urbanização do Rio Grande, influenciaram a formação de uma visão republicana no Brasil e vão até o Estado Novo, de Getúlio Vargas (1945), quando a capital ainda era a cidade do Rio de janeiro. Portanto, nos três volumes, Veríssimo aborda algumas das muitas contribuições culturais rurais e urbanas do povo gaúcho na demarcação do território nacional e também na constituição da República Federativa do Brasil.


      Responder essa pergunta é uma tarefa difícil, pois requer a identificação dos mitos na formação da identidade cultural gaúcha. Além disso, exige uma separação do enfoque simbólico (mitos) das análises históricas (fatos), e evitar todo tipo de generalização. O reconhecimento da diversidade étnico-cultural que atualmente povoa a cidade e o campo do estado do Rio Grande do Sul e toda a região do Rio da Prata é uma questão complexa. A cultura “regional-nacionalista” que exercia um papel político importante para demarcar o território com os “castelhanos” perdeu parte de sua função original pois a região está muito mais urbanizada e globalizada do que anos atrás. As novas gerações dialogam naturalmente com os uruguaios, argentinos e com o mundo inteiro. Assim, alguns estereótipos criados por necessidades políticas da época, aos poucos, vão sendo substituídos por outras representações da nova realidade. 

             Um exemplo claro dessa diversidade cultural fica mais evidente na faixa de fronteira Brasil-Uruguai, uma região reconhecida pelas suas con-tradições e que conta com mais de um milhão de habitantes, sendo que quase noventa por cento das pessoas vivem nas cidades (dados IBGE/2010 e INE/2011). A grande maioria delas possui uma bicicleta, uma motocicleta ou um automóvel. Algumas dormem em colchões King Box e pilotam uma camionete Land Rover 4X4, equipada com computadores, para administrar os homens e as máquinas que trabalham no campo. Quase todos usam um celular e possuem um ou mais aparelhos de TV com antena parabólica em suas casas. Seus filhos navegam diariamente na internet, e quase todas as escolas estão equipadas com modernos computadores. 

      Mas, até os anos 70, essa fronteira era uma região com grandes frigoríficos ingleses e norte-americanos, que serviam para exportação de carnes e seus derivados. Durante os anos 60, 70 e início dos 80, a região foi considerada pelos governos militares como área de segurança nacional e, portanto era tratada como uma “área de conflito”. Por causa disso houve poucos investimentos nessas cidades. A partir dos anos 80, esse esquecimento foi sendo substituído por políticas nítidas da era (mais) globalizada e os empresários estrangeiros e  uruguaios abriram lojas que vendem perfumes franceses, whisky e vinhos importados, sem pagar impostos nacionais. Esse processo também mudou a paisagem urbana, pois foi acompanhada pela nítida destruição da memória arquitetônica que resistia naquelas cidades. O homem do campo segue plantando e criando gado em menor quantidade, e buscou outras alternativas, como a plantação de uvas e oliveiras. 

Neste contexto, o culto à tradição permanece misturado com os "castelhanos" mas também foram surgindo festivais binacionais de música popular e erudita, de cinema, de teatro, de camdombe, de jazz, as feiras binacionais do livro etc. Todos esses ventos foram se misturando no tempo e revelando a multiculturalidade que é uma característica singular das sociedades democráticas e também daquela região.
       
       Para refletir sobre a diversidade cultural do Rio Grande de hoje eu sugiro um rápido exercício de ficção e de raciocínio: O que diria el gaucho-argentino José Hernandes sobre os parques eólicos que mudaram a paisagem do Pampa? Como Simões Lopes Neto descreveria os trabalhadores de Pelotas e do Porto de Rio Grande? O ítalo-gaucho Garibaldi utilizaria algum dos navios fabricados nos estaleiros do Pólo Naval? O que escreveria Erico Verissimo sobre a globalização da nossa economia? Chimangos e maragatos comprariam nos freeshops de Rivera?  

      Cada discurso tem que ser confrontado com a prática de quem o fez, para revelar a sua veracidade e a sua consistência. Todas as lembranças históricas são importantes, pois elas fazem parte da simbologia e do inconsciente coletivo de um povo, mas os pensamentos mecanicistas e excludentes, que insistem em se manifestar precisam ser superados, pois eles não reconhecem a complexidade da diversidade cultural existente e confundem o debate sobre a simbologia e os valores com a interpretação dos fatos históricos

       Apenas uma adesão ao campo da práxis (prática histórica e sensível) poderá fazer esse raciocínio avançar. Os clichês, os jargões e as disputas entre a verdade e a não verdade dos fatos acabam sempre reproduzindo a velha ideologia competitiva e “caudilhesca”. Revirar e reconstruir o(s) tempo(s) já vivido(s) pelos nossos antepassados, até chegar ao tempo presente, é um imenso desafio, pois exige conceitos que enxerguem a cultura como um processo vivo, não fragmentado e nem departamentalizado em prazeres meramente acadêmicos e estéticos (preconceituosos). Nesse processo vivo, também é preciso reconhecer a celebrar as liberdades e as façanhas conquistadas pelos antepassados, assim com toda a diversidade política, étnica, econômica, simbólica, tecnológica, artística e cultural que é uma marca deste território estratégico de intensas con-tradições e disputas nacionais/internacionais.  

        Não reconhecer toda a diversidade cultural do Rio Grande é viver preso no discurso acadêmico ou no passado. Somente ao reconhecer suas virtudes, o povo deixará de ser escravo de um tempo que já não existe mais.

P.S. Qual seria o melhor título para esta reflexão? 1) O Tempo e o vento parado no tempo; 2) O Tempo e os diferentes ventos; 3) Todos os ventos num tempo só ou 4) O tempo e os novos ventos.

As tecnologias

Dizem que a Bossa Nova foi gravada lá fora por causa da qualidade do som. Naquela época os estúdios norte-americanos e europeus eram bem melhores do que os nossos. Eu lembro que era muito difícil de se entender a fala dos atores no cinema brasileiro. Problema das salas de cinema, mas também da qualidade da gravação. Foi nos anos 80 que tudo começou a melhorar, até surgir o dolby-stereo, o efeito surround e depois os home theaters.

Esse avanço tecnológico foi fundamental para sensibilizar os nossos sentidos e aumentar o consumo de música e vídeos no país e no mundo. Hoje a indústria do entretenimento é uma das maiores do mundo e parece que perde em faturamento apenas para a do petróleo.

Mas o som estereofônico surgiu na minha vida lá pela metade dos anos 70. Até então eu escutava rock, pop e MPB numa velha “eletrola”, depois num toca-discos portátil e também num gravador Philips... Daqueles com fitas cassetes TDK, BASF, Sony e Philips que enrolavam na melhor parte da música.

Anos mais tarde ganhei um “prato” em 33 rotações... Era um toca-discos que eu pluguei num amplificador da guitarra do meu irmão. O som ainda saía em mono, mas era muito bom... Claro que não chegava aos pés de aparelhos estereofônicos que se ouvia em algumas casas da cidade. Mas era muito bom!

Certa vez um grande amigo e sócio do meu pai deixou um amplificador lá em casa e eu resolvi plugar os dois naquele “prato” para escutar pela primeira vez um som estereofônico no meu quarto. Foi uma experiência que me marca até hoje... Ainda mais que os primeiros LPs que rolaram naquele quarto foi o The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd e o A Horse With No Name, do América. Não preciso lhes dizer das coisas que aprendi nos discos, mas dalí pra frente as performances com guitarras, baterias, saxes e corais começaram a adquirir uma nova dimensão para mim.

Agora, vai fazer trinta anos que eu trabalho com sistemas e tecnologias da informação. Navego na internet e amplifico o som e a imagem que recebo através das redes sociais. Assim, posso ver e a ouvir aquelas apresentações que a gente só imaginava e que ficaram empoeiradas em algum lugar da memória. Como no filme Barbarella ou 2001 - Uma Odisseia no Espaço, fico quase que diariamente conectado na rede mundial de computadores compartilhando sentimentos e visões de mundo com velhos e novos amigos(as)... Assim também vamos modificando a nossa forma de perceber o mundo que se abriu em rede para o infinito. Como deuses, nos sentimos em todos os lugares ao mesmo tempo, agora...

Tudo isso me faz crer que um mundo hipnotizado pelas novidades tecnológicas e pelo consumo tende a se tornar obsoleto. Menos nas memórias, nos conhecimentos e nas sensibilidades que conseguimos adquirir.

Viver é melhor que sonhar!

Eu passarinho...



Confesso! Quando menino eu matei mais de um milhão de passarinhos. O meu pai pagava para a gente matar caturrita e proteger a horta da granja, mas a gente aproveitava e fazia a pontaria em todos eles: Beija-flor, periquito, sabiá, bem-te-vi e “corroera”. Era uma verdadeira chacina, que hoje vejo como muito horror! Claro, que se eu pudesse escolher não teria feito nada daquilo... Mas, o que faz um menino que ganha uma espingarda de presente? Agora já é tarde! Só resta essa minha cruel confissão.

Naquela época, na fronteira que fica ao sul do Brasil, o lado sombrio da vida era mais ou menos assim: além do frio de rachar, tinha um pouco de melancolia, algumas brigas banais, homens portando arma na cintura, etc. e tal. Enfim, tinha de tudo! A gurizada podia acompanhar os pais nas pescarias, nas caçadas, nas tosquias, na carneação de ovelhas... Também tinha um lado bucólico, pois a gente acabava conhecendo os matos silvestres, os riachinhos e a solidão dos campos.

Pensando bem, aqueles foram os meus anos de reconhecimento das contradições da vida. Mas, somente bem mais tarde, depois dos 16 e dos 19 anos, foi que eu comecei a refletir e a lapidar a minha sensibilidade com a natureza e com a vida em sociedade.

Nos anos 60 e 70, era “natural” essa tradição cultural passar de pai para filho sem quase a gente se aperceber. Pois, além de brincar na rua, as crianças ganhavam armas de brinquedo, podiam matar passarinhos, botar apelidos nos amigos(as), fazer folia nas salas de aula... Algumas dessas coisas que ainda insistem em permanecer entre nós... Após os 15 e 16 anos, além do jogo de cartas, estávamos “autorizados” a beber até cair... Muitos costumavam cheirar lança-perfume no Carnaval e a experimentar otras cositas más.

           A minha geração relutou e rompeu com boa parte dessa tradição cultural conservadora. Mas muitos não conseguiram sair desse círculo vicioso e permaneceram reproduzindo certas regras, etiquetas e protocolos herdados inconscientemente de seus pais e avós. Outros morreram pelo caminho... 

        E eu? Eu passarinho.