Desmemórias, ilusões e novas tempestades

Para o Adelmo Genro Filho, in memoriam, pelas suas importantes reflexões sobre a consciência histórica, prática, crítica e sensível.

 “Eu avisei!”, diz um comentário. “Eles têm o apoio do STF, da Rede Globo, dos banqueiros nacionais e internacionais, dos exportadores, dos especuladores, de pastores das igrejas neopentecostais e de uma velha casta militar e, juntos, irão sacramentar o Golpe de Estado, vender as nossas riquezas e explorar ainda mais o povo brasileiro”, esclarece outra postagem. Uma terceira alerta que se trata de uma guerra híbrida, de proporções internacionais. Todas estão cobertas de razão! No entanto, se lhes tirarmos a razão, sobrará apenas o hábito que a maioria dos brasileiros tem de apostar somente em eleições e no modo tradicional de fazer política.

Com a proliferação das redes sociais, boa parte da esquerda brasileira está ficando cada vez mais saturada por eventos e sensações efêmeras compartilhadas, que se desmancham no ar, e está deixando de valorizar as grandes experiências coletivas que tivemos recentemente, como a formação de diversos comitês pela democracia, as Caravanas Lula, o Movimento #EleNão e as próprias campanhas #HaddadManu e #BoulosGuajajara. Essas experiências (com ações digitais e presenciais) já estão na memória afetiva de uma parte da população brasileira, mas precisam ser melhores compreendidas para tornarem-se referências na transmissão de saberes simbólicos para as gerações que estão chegando.

Na verdade, o Brasil ainda não cicatrizou as suas feridas históricas. Vejam que, até hoje, persiste uma forte cultura escravocrata e anti-indígena entre nós, torturadores nunca foram condenados e a impunidade segue sendo um privilégio dos sonegadores de impostos e dos vendilhões das nossas riquezas. Lembrem que não houve resistência ao golpe de 1964 e nem ao impeachment (golpe de novo tipo) da presidenta Dilma Roussef, em 2016. Aliás, apesar de algumas mobilizações importantes, as esquerdas brasileiras foram derrotadas nas campanhas pela anistia, no ano de 1978, pelas Diretas Já, em 1984, e pela Constituinte, livre e soberana, em 1988. O Partido dos Trabalhadores venceu as eleições de 2002 com a “Carta aos Brasileiros” e o “Lulinha Paz e Amor”, que tinha o empresário José de Alencar como vice e um programa de caráter republicano, democrático e popular.

Em abril de 2018, quando Lula se entregou para a Polícia Federal, no Sindicato de São Bernardo do Campo, os seus companheiros mais próximos ouviram a seguinte declaração da maior liderança do Brasil: “Foi o máximo que conseguimos reunir até aqui…”. Baseado nessa afirmação sensata e sensível, após a realização de grandes mobilizações em caravana pelo país, é possível deduzir que a maioria dos “intelectuais orgânicos” brasileiros não é tão orgânica assim, e que ainda não foram organizadas forças regionais suficientes para resistir aos frequentes golpes das elites locais aliadas ao capital financeiro internacional.

Uma reflexão madura identificaria diversos fatores que contribuíram para consolidar essa cultura contemplativa entre as esquerdas brasileiras. No entanto, a partir de uma análise das postagens que circulam atualmente nas redes sociais, é possível perceber alguns dos motivos que levam o povo brasileiro a se manter disperso e perplexo diante das adversidades. Em boa parte dessas publicações, as coisas, a realidade, o mundo sensível ainda são vistos sob a forma de objeto ou de abstrações, e não com sensibilidade histórica, crítica e prática, enfim, como práxis. Trata-se de posturas teóricas que ignoram a práxis e o comprometimento, pois são manifestações contemplativas que não levam os interlocutores a lugar nenhum. Elas não tratam as pessoas como sujeitos de uma ação coletiva e nem reconhecem a dinâmica dos movimentos sociais, pois ainda não adquiriram uma consciência objetiva/subjetiva da realidade.

Embora sejam reflexões importantes, muitas delas são apostas, provocações e/ou perguntas de escolha simples (ou isto ou aquilo?), e não percebem que somente por meio das experiências, da práxis, é que as esquerdas brasileiras conseguirão comprovar as suas verdades e o caráter terreno das suas teses e discursos. Ficar apenas disputando sobre a realidade ou não realidade de um determinado pensamento, isolados da práxis, é uma atitude meramente acadêmica e/ou contemplativa.
É verdade que a maioria do povo brasileiro ainda possui uma consciência baseada no imediatismo, pois ela é fruto das circunstâncias da vida e da educação que essas pessoas receberam. Mas não podemos ignorar que essas circunstâncias e as consciências somente poderão ser transformadas pelos próprios seres humanos – vistos como sujeitos e não como objetos –, e que a maioria dos agricultores, dos camponeses, dos operários, dos professores, dos estudantes, dos jornalistas, dos artistas, dos parlamentares etc. ainda precisa assimilar uma nova cultura política baseada na convivência, na fraternidade, na justiça e na igualdade de direitos sociais.

Somente a partir da máxima compreensão possível da realidade será possível mudar as circunstâncias e a cultura política do povo brasileiro. Ou seja: é preciso entender as incoerências entre o mundo representado pelas teorias e o mundo real, para eliminar ao máximo as suas contradições. Questões objetivas, como a defesa de um salário mínimo justo, da previdência pública, da soberania tecnológica, dos recursos naturais, da biodiverisidade, da mobilidade urbana, da liberdade de Lula, da Petrobrás, da demarcação das terras indígenas e quilombolas, das relações de trabalho, das novas formas de família etc., são as que precisam ser questionadas e praticamente transformadas, e não aquelas que estão apenas no reino dos céus.

Percebam que, além de adotar um pensamento abstrato, uma parte das esquerdas brasileiras ainda não encara o mundo como atividade humana crítica, prática e sensível nas suas relações diárias. Em geral, a sua crítica ao processo histórico pressupõe indivíduos totalmente abstratos e sem interesses econômicos, sociais, culturais e/ou políticos. Trata-se de um “sentimento fantasioso”, pautado por terceiros e construído socialmente, em que os indivíduos deixam de ser reais ou considerados no contexto de uma determinada classe, de um determinado território e de uma cultura singular.

Como a vida em sociedade é, ao mesmo tempo, teórica e prática, todos os mistérios que conduzem a teoria para este tipo de abstração encontrariam a sua solução racional na consciência histórica, prática, crítica e sensível. No entanto, o máximo que os críticos contemplativos conseguem é analisar os indivíduos isolados do seu contexto social, pois o seu passatempo é o de apenas cobrar uma atitude “dos outros”, dos partidos, dos governos e das demais organizações políticas, porém o ponto de vista de quem quer mudar a sociedade deve ser crítico e propositivo. Ou seja, não ser apenas pautado, mas reconhecer a diversidade de interesses e encontrar os caminhos que sejam capazes de transformar-nos individual e coletivamente. Para isso ocorrer será preciso se comprometer com uma parte da sociedade na defesa da humanidade inteira, além de socializar-se e de engajar-se nas lutas locais e regionais.

Por exemplo, a maioria das pessoas não sabe ou não lembra que os governos militares devolveram o país para os civis em 1985 – por via de eleições indiretas – após uma longa crise do petróleo e do capitalismo internacional, e que eles deixaram como herança uma inflação e um custo de vida muito altos, uma enorme dívida externa (com o Fundo Monetário Internacional), o êxodo rural em todas as regiões do país, a favelização e o crescimento desordenado das cidades, assim como vários casos de corrupção, de torturas e de assassinatos de opositores. Também é raro encontrar pessoas refletindo sobre as mudanças que ocorreram no mundo de lá pra cá, como o caso das empresas multinacionais ou transnacionais que instalaram os seus parques industriais em território brasileiro (e sul-americano), criaram redes de transações econômicas e de espionagem que agem fora do controle dos governos, que surgiram novas tecnologias, novas profissões, e que já se formou uma nova estrutura de classes sociais no país e no mundo. E que, apesar dessas profundas mudanças e da experiência vivida de caráter democrático e popular, principalmente durante os governos Lula e Dilma, a maioria das forças da esquerda brasileira ainda mantém antigas concepções de mundo e de organização política.

Não é por acaso que a história do Brasil se repetiu (mais uma vez) como uma farsa. Para isso não ocorrer novamente, será preciso aprender com as experiências do passado, com aquilo que as organizações fizeram ou deveriam ter feito, inclusive com as aventuras, os heroísmos e as rebeldias que ocorreram no final dos anos 60 e no início dos 70, e com esta nova derrota eleitoral. Não podemos permitir que o derrotismo e a culpa invadam a mente das pessoas, pois 47 milhões de votos em #HaddadManu não é pouca coisa… Somados aos 42 milhões de votos brancos e nulos resulta que mais da metade do povo brasileiro não votou em Bolsonaro e que agora terá a oportunidade de adquirir uma consciência histórica, prática, crítica e sensível.

Saibam que este projeto entreguista, colonialista, racista e patriarcal somente terá chances de prevalecer por meio do marketing, da mentira, da violência, da repressão e do estado de exceção, no meio das chamadas guerras híbridas. Como as novas gerações já experimentaram tempos melhores e estão surgindo organizações livres, autônomas e democráticas, existe a possibilidade de o povo brasileiro acordar de vez e, finalmente, cicatrizar as suas feridas históricas. Não se trata de um jogo de apostas, mas de saber de qual dos lados estaremos a cada luta real e concreta que surgir. De que adianta acertar apostas sobre o futuro se não estamos juntos nas lutas do povo?

Para avançar, precisamos ousar até nos libertarmos de certas ilusões, fantasias e dogmas que persistem entre nós, antes que se dispersem as forças que emergiram nessas recentes experiências coletivas. Se não articularmos as atividades e as forças que surgiram em cada município, estado e país, não vamos ultrapassar as fases do consumo de informação e nem do mero elogio às “celebridades” políticas. Ou seja, ficaremos presos à rigidez dos gabinetes parlamentares, dos dirigismos partidários e não estaremos contribuindo para o fortalecimento das organizações que já atuam junto à sociedade.

Estamos de acordo que Bolsonaro é um falsário – um falso cristão e um falso nacionalista – e também que ele e Moro representam um aprofundamento do golpe e do desgoverno Temer… Mas não concordamos que se trata de uma aposta definitiva do neoliberalismo internacional. Percebam que o governo Bolsonaro começou a sangrar antes mesmo de implementar o seu programa, pois alguns países parceiros, estratégicos do ponto de vista comercial – como a China, a Rússia, a França e a Alemanha, por exemplo, já fizeram as suas primeiras advertências aos empresários brasileiros. Além disso, apenas 46 delegações estiveram presentes na sua posse, e isso é um sinal para bons entendedores.

Por outro lado, a família Bolsonaro já está envolvida em denúncias de corrupção e eles estão definitivamente obrigados a seguir as ordens de quem realmente está mandando no Brasil: o capital estrangeiro, aliado a sua intelligentsia nacional entreguista. O desastre ficou mais evidente após a adoção das primeiras medidas do novo governo, de retorno à órbita dos EUA, de exploração da força de trabalho, do poder dado aos ruralistas para demarcação de terras indígenas e quilombolas etc. Por isso precisamos reorganizar as nossas alternativas de poder local e global: depois de um breve período de refluxo e de reflexões, devemos estar preparados para as novas disputas e tempestades que se avizinham.

Como a vida é uma possibilidade, já que não depende apenas das vontades e das opiniões das pessoas, precisamos pensar na hipótese do falso messias, dos pastores gananciosos e desta casta militar entreguista não conseguirem iludir e enganar a maioria do povo por muito tempo. Quanto irá durar esta disputa entre os donos do capital e os trabalhadores brasileiros? A resposta está diretamente relacionada ao grau de desmemoria, de desorganização, de solidão e de descrença nas reflexões políticas que persistirem entre nós. Se não aprendermos a aproximar as relações digitais das presenciais ficaremos aguardando que ocorra um milagre no Brasil, e as futuras gerações serão obrigadas a enfrentar verdadeiros tornados, ciclones e furacões.

Nota do autor: este artigo foi escrito a partir de uma releitura das Teses sobre Feuerbach, do jovem Marx. Trata-se de onze notas curtas, escritas na primavera de 1845. O texto original somente foi traduzido para outras línguas em meados do século 20. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma000081.pdf

Entre a coragem e o medo infantil de dragões



"Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem." Jorge Ben Jor

Aprendi que certas ameaças políticas podem paralisar uma pessoa que tem medo da liberdade, mas que também servem para desafiar a sensibilidade e o raciocínio de quem tem uma inspiração revolucionária. Na maioria dos casos, o dilema está em ceder ou não ceder ao terror psicológico que a sociedade conservadora costuma patrocinar por meio das mídias sociais disponíveis.
No afã de interagir na internet, uma parte significativa da sociedade costuma compartilhar os seus fatalismos e medos, e assim acaba anestesiando a indignação de muitas pessoas.  Elas não percebem que a sociedade conservadora utiliza os seus tentáculos para preservar e ampliar privilégios, e pra isso contrata os serviços de robôs, mercenários e jornalistas que multiplicam xingamentos, jargões e adjetivos nas mídias sociais.
No Brasil, a reação da sociedade conservadora ocorreu graças aos avanços que tivemos durante os governos Lula e Dilma. Com a crise de econômica e política de 2008 e de 2015, começou a propagar o medo, incentivar a demonização da política e a pregar um tipo de moralismo sem a mínima moral. Enquanto, a demonização buscava enfraquecer a atuação das lideranças que lhe faziam oposição, o moralismo unificou a sua base social reacionária e conservadora. 
Por que apenas nestes últimos anos cresceram os discursos moralistas,  acusações generalizadas, propagação de boatos e de fakenews?  É preciso entender que por trás de todo esse simulacro nacional existe um forte poder econômico e de inteligência que se revela sutilmente por meio dos comerciais e programas de rádio e TV. 
Quem são esses patrocinadores do caos e do medo? São as grandes empresas e bancos transnacionais, cujos lucros estavam sendo ameaçados pela nova ordem mundial, com o surgimento dos BRICs e com a perspectiva do Brasil ganhar autonomia na produção de energia (petróleo, gás, etc.), os quais estavam destinados aos investimentos nas áreas de saúde, educação, segurança, novas tecnologias etc.
Hoje, após cinco anos dos protestos de 2013, até uma criança é capaz de reconhecer que foi aproveitado um momento de descontentamento popular, provocado pela retração do consumo durante o segundo governo Dilma, para a Rede Globo iniciar uma campanha desenfreada contra a corrupção generalizada “dos governos do PT”, para bombardear os lares brasileiros com notícias negativas e para os porta-vozes da sociedade conservadora “ocuparem” quase todos os principais veículos de comunicação do país. Também tomaram de assalto o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF para aprovar medidas contra o povo brasileiro e a soberania nacional, criaram um clima de guerra nas fronteiras nacionais e acabaram gerando um caos social que trouxe enormes sacrifícios para a maioria da população, como o aumento do preço do gás, dos combustíveis, a perda de direitos históricos e a falta de perspectivas para com o futuro. 
Em função dessa sede desenfreada provocaram a indignação generalizada de milhões de brasileiros e de brasileiras, que agora se revela no imenso apoio ao ex-presidente Lula nas pesquisas eleitorais, nas rodas de conversas nas feiras, bares, padarias, universidades e redes sociais. Contraditoriamente, principalmente a partir da prisão da maior liderança popular, esse processo também acendeu um sinal de alerta para as forças democráticas e populares do Brasil e do mundo livre.
O fato novo é que as forças de esquerda estão muito mais unificadas do que antes. Apesar das enormes perdas, dos medos e das ameaças, esse processo está servindo para aproximar diversas pautas políticas, realizar uma autocrítica (por enquanto) na prática e uma volta às organizações de base. Uma mudança na consciência individual e coletiva já está em curso, e podemos afirmar que está se gestando uma nova cultura política, baseada na pluralidade e na radicalidade democrática.
Quais são os riscos da sociedade conservadora vencer essa disputa? Vai depender do tamanho do medo ou da esperança que conseguirmos compartilhar nas nossas relações, pois se trata de uma disputa contraditória, de caráter local, regional, nacional e internacional, e não de uma corrida de cavalos em cancha reta.
Neste novo período eleitoral a sociedade conservadora voltou a comprar políticos, juízes, jornalistas e militares para promover ações de terror psicológico, com o objetivo de evitar que as pessoas reflitam sobre o essencial dessa disputa nacional e internacional. Uma parte da sociedade brasileira seguirá calada e vai preferir não se envolver nas disputas políticas... Mas existem  milhões e milhões de pessoas já assimilaram os golpes e estão se manifestando ao seu jeito. Estas procuram identificar guerreiros e guerreiras que queiram enfrentar os dragões e transformar essa dura e triste realidade
Como a sonhada primavera já está chegando, entramos no período mais agudo da disputa política-eleitoral. Se de um lado está a sociedade conservadora como uma cadela no cio, do outro estamos nós e as nossas referências políticas, vestidos com as roupas e as armas da coragem, da serenidade e da consistência. Estamos certos de que seguiremos questionando os caminhos, as propostas e os métodos que não levam a lugar nenhum, mas sabemos que para isso ocorrer precisamos virar essa página da história.
Quem foi capaz de aprender com as experiências que o destino nos reservou, também será capaz de traduzir cada realidade local/regional concreta, abandonar as zonas de conforto e ir para a rua beber as tempestades. Finalmente chegamos na hora de medir o poder real de cada força política para vencer estas eleições, pois precisaremos manter as mobilizações até o país dar um, dois ou três passos adelante.




É preciso estar atento e forte...

“É preciso estar atento e forte,
Não temos tempo de temer a morte...” 
Caetano Veloso

Os nossos direitos seguem ameaçados. No entanto, com as mobilizações de rua e os novos acontecimentos, como a delação da JBS e a pressão sobre Temer, o povo está aprendendo sobre o funcionamento dos lobbies das grandes empresas nacionais e internacionais no Congresso Nacional e também nos tribunais. Por isso, precisamos permanecer atentos e fortes, pois as horas e horas de notícias negativas nos principais meios de comunicação estão revelando a trama, mas também podem deixar uma parte da população ainda mais descrente e perplexa.
O fato é que, com o fim do pacto político, representado pelo processo de impeachment da presidenta Dilma, deu início a uma guerra contra os movimentos sociais e, principalmente, contra o PT e o ex-presidente Lula. O país entrou numa fase de intensas batalhas econômicas, políticas, jurídicas, psíquicas e culturais, de abrangência nacional e internacional. Milhares de empregos foram perdidos, o Congresso ficou nu aos olhos do povo, os juízes e procuradores se destacaram na cena política, aumentou a venda de Rivotril e as baixarias invadiram as redes sociais etc., etc., etc. As redes de televisão, rádios, jornais e algumas revistas semanais, a mando dos seus patrocinadores, não pouparam esforços para atacar quem denunciava o golpe, pois queriam defender e ampliar ainda mais os seus privilégios.
A grande mídia foi cooptada pelo bloco golpista à base de muito dinheiro público. E, mesmo assim, na adversidade, surgiram diversos movimentos sociais que ocuparam escolas, praças, esquinas e, depois, as ruas, com ou sem o apoio dos partidos, para defender os interesses dos trabalhadores e das camadas exploradas e excluídas da sociedade.
Esse período de resistências jamais pode ser esquecido por quem ainda não perdeu a capacidade de sonhar. Vejam que em 2017 os ventos favoráveis à resistência popular sopraram muito mais fortes do que no ano anterior: no dia 8 de março, por exemplo, as mulheres e os homens do mundo inteiro fizeram grandes manifestações contra o preconceito e a exploração das mulheres. No dia 15 de março, ocorreram atos no interior do país e nas capitais contra a perda de direitos. E no dia 28 de abril, os movimentos sociais, as centrais sindicais e indivíduos de vários matizes ideológicos e partidários realizaram a maior Greve Geral da história do país, dando uma clara demonstração de unidade em torno das pautas contra o desmonte da previdência pública e em defesa da CLT. Depois ainda houve o dia 10 de maio em que o Partido dos Trabalhadores, o MST, o MTST e a CUT demonstraram uma imensa capacidade de unidade e mobilização, quando militantes vindos das mais distantes regiões do país ocuparam a cidade de Curitiba para dar apoio à maior liderança popular que o Brasil já teve: o Lula.
Ainda em maio, tivemos aquela grande manifestação em Brasília, e no dia 28 um grande ato-show por Eleições Diretas Já!, com a participação de Caetano Veloso, Wagner Moura, Criolo,  Martinália, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mano Brown, BNegão, Daniel de Oliveira, Sophie Charlotte e Milton Nascimento.
O filósofo Antonio Gramsci diria que nós estamos entrando numa nova fase da guerra de movimento e da guerra de posição. E o poeta Paulo Leminski completaria dizendo que: “En la lucha de clases todas las armas son buenas,  piedras,  noches,  poemas...” Por isso, e também por isso, não podemos cair na tentação de uma guerra puramente ofensiva, sem recuos, reflexões e celebrações nas cidades brasileiras.
Vejam que as forças conservadoras recuaram e só se ouve falar nelas no Governo (que tem 95% de desaprovação), no Congresso (que está totalmente desacreditado), nas redes sociais (ninguém duvida que sejam robôs e/ou pessoas contratadas) e em alguns meios de comunicação, como a Rede Globo, a Band, o SBT, a Veja e as rádios regionais. Fora isso, parece que os(as) patos(as) dispersaram ou "amarelaram" de vez!
Já se ouve falar até em divisões entre o Ministério Público, o STF e a Lava-Jato, e também entre o Senado e a Câmara dos Deputados. O fantasma do Teori Zavaski paira sobre Brasília, enquanto aumenta a força nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas e nas famílias brasileiras.
Por seu lado, Temer e Aécio, pegos recentemente – com provas - no mega esquema da JBS, estão em situação muito complicada. No entanto, mesmo com toda essa divisão do bloco golpista, Temer bate na mesa e afirma que não irá renunciar. Vejam que, diferentemente da Dilma, ele enfrentou os protestos em Brasília com a cavalaria, baionetas, gás lacrimogênio, balas de borracha e até com balas letais. A Rede Globo, junto com os lobbies, segue forçando as negociações “pelo alto” até tirá-lo do cargo e providenciar um sucessor que seja capaz de aprovar as reformas anti-povo e estancar a Operação Lava-Jato. Dizem que Aécio bebe, articula e chora desesperadamente, pois ele sabe que pode “ser comido”, como foi o Eduardo Cunha.
Mas se engana quem pensa que esta guerra será apenas "uma marolinha"! Recém estamos entrando na fase mais delicada e extrema da nova luta de classes, em defesa dos direitos do povo. É hora de escolher as melhores armas! As redes sociais, os blogs, o diálogo franco e o amplo esclarecimento sobre o que está em jogo fazem parte das nossas principais tarefas de mobilização e organização para os próximos atos-shows e manifestações.
Precisamos aprender a respeitar o tempo das pessoas e das organizações. A sabedoria está em adaptar os nossos desejos às atividades que existem no mundo real, e permanecermos dispostos(as) a acumular mais forças para prosseguir em frente. Se o futuro ainda é incerto, a paciência e a perseverança revelarão quem está junto conosco nos momentos decisivos.
Ainda não sabemos se Temer renunciará antes do julgamento da ação movida contra a chapa Dilma-Temer pelo STF. Cada semana será uma batalha diferente, e qualquer das alternativas também pode significar uma jogada do PSDB, do PMDB e do DEM e seus lobistas para evitar eleições diretas e aprovar as medidas impopulares. Neste momento da disputa, a grande maioria dos deputados e senadores dos partidos de esquerda está atenta e forte, mas ainda existem alguns vacilantes, principalmente os do chamado “Centrão”, pois eles sabem que jamais serão perdoados se votarem por eleições indiretas.
A hora é de união e não de divisão! Não podemos alimentar criticas às cores da bandeira que uma agremiação resolveu levar para as ruas. Uma, porque a luta atual não passa exclusivamente pelos partidos políticos. Outra, porque a Greve Geral do dia 28 de abril nos apontou o melhor caminho: as pautas defendidas mobilizaram e unificaram diversos setores da população. Além disso, ela tocou na parte mais sensível dos golpistas – o capital – e apontou para a possibilidade de formação de uma ampla frente política no Brasil, para além dos partidos.
– Ah, mas o Lula devia ter combatido a Globo quando ele teve a oportunidade e não o fez - reclama um. O outro desabafa: – As políticas do governo Dilma estavam equivocadas! E ainda tem aquela outra que defende: – A Lava-Jato é a solução para acabar com a corrupção no Brasil! Essas pessoas preferem morrer com a razão a escutar as ruas e a somar mais e mais esforços... Digam para elas que se perdermos as ruas, não há dúvidas de que virá uma nova ofensiva da Rede Globo e dos seus conhecidos aliados.
É hora das esquerdas se unificarem em torno de um projeto para o país, que inclua as pautas da previdência pública e da CLT, além da reforma política, dos juros e do Pré-Sal, entre outras. Mas também já está mais do que na hora de elas preservarem as lideranças que não cometeram crimes e de defender um julgamento justo para todos os suspeitos. As novas e antigas lideranças precisam mostrar maturidade política e contribuir nessas complexas tarefas.
Nesta nova fase da guerra de movimento e de posição, é preciso construir juntos e também celebrar os avanços obtidos. Percebam que os gritos de #ForaTemer”, #DiretasJá e #EmDefesaDosNossosDireitos já não estão restritos aos tradicionais grupos da esquerda brasileira. E isso é muito bom para o campo democrático e popular avançar ainda mais!

Por que não dão mais golpes como antigamente?



Eles estão jogando o jogo deles.
Eles estão jogando de não jogar um jogo.
Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão, quebrarei as regras do seu jogo
e receberei a sua punição.
O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles,
o jogo de não ver o jogo que eles jogam.
Citado em Laços, de R. D. Laing.

Essa citação do livro Laços, de R.D. Laing revela o alto grau de esquizofrenia ou de sabedoria de uma pessoa? Pergunto isso porque muitas ainda se questionam sobre as diferenças entre os golpes de 1964 e de 2016. Vejo que as rebeldes e de índole libertária sentem medo de uma punição maior, pois pensam em golpes como uma intervenção militar, mas algumas já estão compreendendo o que significa um “golpe branco”, a exemplo do que ocorreu no Paraguai e em Honduras, só para citar dois países próximos a nós, brasileiros. Portanto, a pergunta que faço no título é mais do que pertinente.
Nesta reflexão, parto do princípio de que “golpes” civis e militares vêm ocorrendo há muito tempo no Brasil e que a cultura do autoritarismo faz parte da vida e da memória do nosso povo. É certo que algumas pessoas reagem para defender apenas os seus interesses econômicos e privados, enquanto outras agem por pura maldade e estupidez... Mas também existem aquelas que simplesmente “entram na onda” da grande mídia e, pela falta de um conhecimento mais elaborado, se tornam massa de manobra. Essas não podem ser tratadas e comparadas com as duas primeiras, sob pena de confundi-las ainda mais.
Poderíamos dizer que os golpes civis e militares no Brasil (e no continente sul-americano) são uma consequência da expansão do capital internacional e da ausência de uma burguesia nacionalista no país com capacidade de resistir. Grosso modo, eles ocorreram em quatro momentos distintos e complementares: a primeira fase vocês conhecem, pois ocorreu no tempo do Império e foi citada em todos os livros escolares. A segunda fase vai da Proclamação da República até 1964, com fortes investimentos em mineração e acordos com a burguesia emergente nacional, predominantemente rural e conservadora. A terceira fase vai de 1964 até o final do século 20, com o golpe militar, que patrocinou o chamado “Milagre Econômico” com aparência nacionalista, mas que se abriu para a instalação vertiginosa de indústrias transnacionais em solo brasileiro, com investimentos em infraestrutura (estradas, pontes e hidrelétricas), com o objetivo transportar a produção do campo e das cidades, além de gerar energia para os novos parques industriais e exportar a produção. A quarta fase começa bem antes de 2016, com a expansão do capital financeiro internacional, em que os grandes bancos se alimentam de receitas produzidas por outros setores da economia mundial e concentram ainda mais a riqueza, criando mais desigualdades e privilégios em cada país. No caso brasileiro, alguns bancos internacionais se aliaram à grande indústria e à agroindústria, ambas dependentes, com o objetivo de investir na produção local por um longo período. O país atravessou esse período com estabilização e consumo, mas quando a crise econômica chegou, veio um “golpe branco” com o objetivo de “desburocratizar” os procedimentos alfandegários, “flexibilizar” as leis do trabalho, com a perda de direitos consolidados e/ou adquiridos pelos trabalhadores na Constituição de 1988 e o “desmonte” da previdência social pública, para tornar os brasileiros reféns dos planos de saúde, dos bancos, das empresas e das oscilações do mercado internacional.
Para quem ainda não sabe, nos primeiros cem anos de República, vivemos apenas 19 anos em ambiente democrático, sendo que esses dezenove anos não foram contínuos, mas interrompidos por golpes civis e militares. Nesse sentido, quem nasceu bem antes de 1989 – primeira eleição direta após o regime militar – deve valorizar e dar outro significado para essa recente experiência democrática de vinte e sete anos consecutivos. Nessas quase três décadas os movimentos populares cresceram e se organizaram muito mais do que nas décadas anteriores, mas, ao mesmo tempo, foram criminalizados. Mais tarde, obtiveram diversos avanços reais, principalmente durante os governos – de coalizão – Lula e Dilma... Mas a “doutrina da prosperidade” também estava sendo disseminada por algumas igrejas e seus fanáticos pastores, e houve a eleição de diversos vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, senadores ligados ao agronegócio e à repressão, formando as chamadas bancadas “da Bíblia”, “do boi” e “da bala”. Os demais poderes da República, como os tribunais e os meios de comunicação nacionais e regionais, foram dominados por “celebridades”, por volumosos “patrocínios” e por intrigas e difamações sem o devido direito de resposta.
Compreender isso é fundamental para reconhecer porque as velhas culturas políticas ainda se manifestam entre nós, qual é o papel geopolítico que o Brasil cumpre para garantir o equilíbrio (ou desiquilíbrio) do continente, e a importância dos avanços culturais, sociais, econômicos e políticos que obtivemos. Boa parte do povo brasileiro sabe que em 1964 um grupo de militares, apoiados por civis, deu um golpe de Estado e governou arbitrariamente por longos 21 anos, pois até a Rede Globo (que, não por coincidência, foi inaugurada em 1964) e o governo norte-americano já reconheceram isso publicamente. Mas poucos sabem que esses mesmos civis e militares brasileiros, a serviço do capital internacional, exportaram os golpes militares e os métodos de tortura utilizados aqui (a partir de 1964) para outros países da América do Sul, como o Uruguai (1973), o Chile (1973) e a Argentina (1976). E, quase ninguém relaciona o fato de que naquela época o mundo vivia um período de expansionismo políticos / econômicos / territoriais estratégicos, conhecido como Guerra Fria, em que era quase impossível se livrar da disputa bipolar promovida pelas duas grandes potências mundiais, Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
A nossa televisão e os cinemas, por exemplo, foram dominados pela cultura importada dos Estados Unidos, as escolas e universidades foram fragmentadas e censuradas por meio do famigerado acordo MEC USAID (United States Agency for International Development), ouve uma tecnificação do ensino, censura aberta às obras musicais, às peças de teatro, aos filmes nacionais e estrangeiros. Ao mesmo tempo, muitos militares e policiais foram treinados para a perseguição política, a truculência, a prática do racismo e a obtenção de provas por meio da tortura. Para presos comuns, esses métodos medievais nunca acabaram no Brasil, mas o juiz Sérgio Moro voltou a utilizá-los para prisões políticas, por meio da tortura psicológica.
É bom lembrar que essas disputas bipolares e globais continuaram até 1991 e foram se definhando há pouco mais de duas décadas, com a dissolução da União Soviética, a partir da Perestroika e da Glasnost (1986) e com a queda do Muro de Berlim (1988).  Quem tem mais de vinte e cinco anos de idade deve saber que o muro desabou junto com muitos paradigmas – modelos - que orientavam boa parte da esquerda mundial e que o surgimento de novos pactos regionais (União Europeia, Mercosul etc.) inseriu os países numa nova ordem mundial, caracterizada por grandes blocos econômicos, só que agora multipolarizada. Além dos Estados Unidos da América e do Japão, a China se destacava como uma das potências competitivas, enquanto a Rússia ainda se levantava dos escombros.
O que pouca gente se deu conta (ou faz de conta que não viu) é que durante esse longo processo de disputas territoriais, diversas empresas estrangeiras se instalaram em solo brasileiro, assim como em toda a América do Sul, da África e de parte da Ásia. E que a nova política estratégica das grandes potências mundiais, reunidas no G-8 e no G-20, passou a ser a defesa de uma democracia controlada, com a repressão dos conflitos nesses territórios ocupados. No entanto, contraditoriamente, em alguns países ocorreram diversos movimentos sociais e de massas que fizeram um enfrentamento direto e indireto às políticas das grandes corporações.
Aquilo que essas empresas conquistaram durante séculos de exploração do continente foi consolidado, principalmente, durante esses anos de Guerra Fria (1945 a 1991) e de ditadura militar no Brasil e nas Américas. No entanto, foi a partir dos governos militares que as grandes mineradoras, as usinas hidrelétricas, os parques industriais, a produção de soja e de carne cresceram no Brasil, mas para abastecer o mercado internacional, e não para melhorar a vida do povo. Não é por acaso que os slogans do regime militar eram: “Exportar é o que importa!” e “Primeiro é preciso crescer, para depois dividir o bolo”. Um plano de enganação orquestrado pela grande mídia em conjunto com a velha / nova elite nacional dependente, submissa ao capital internacional.
É certo que desde o Brasil Colônia nós exportamos madeira, ouro, borracha, castanha, carne e cereais, principalmente para a Europa e os EUA. É importante lembrar que a indústria foi uma das maiores conquistas do Brasil no Século 20 e que ela ocorreu, dentre outras questões, porque Getúlio Vargas tinha uma visão de estadista. Mas precisamos reconhecer que foi a partir dos anos 1970 que se inaugurou o período de internacionalização intensa do capital, da exportação de automóveis, televisores, iogurte, sabonetes, lâminas de barbear, papel higiênico, bebidas etc. para outras partes do mundo. Na década de 1970, por exemplo, a FIAT se instalou em Betim, Minas Gerais, o Polo Petroquímico do ABC Paulista cresceu significativamente e o Super Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, foi ampliado e se tornou um dos maiores portos do país.
A crise do petróleo, em 1973, acabou com o “Milagre Econômico” e o país já havia se endividado com o FMI e com outros bancos externos. O preço dos alimentos se elevou e desgastou de vez o regime militar, que também era denunciado por torturas e corrupções. A partir de 1975 começaram a pipocar greves de trabalhadores no ABC paulista e em outros estados, os movimentos sociais se unificaram e fortaleceram a resistência democrática em todo o país. Os candidatos de oposição – ainda aglutinados no Movimento Democrático Brasileiro, pois esse era o único partido legal e oposicionista à época - foram eleitos na maioria dos municípios, estados e no Congresso Nacional.  As manobras dos militares e de seus patrocinadores foram muitas e, inclusive, fizeram parte do “plano de abertura lenta e gradual” elaborado pelo então General Golbery do Couto e Silva. Aos poucos, com o surgimento de novos partidos e o avanço das oposições, aqueles velhos slogans foram substituídos pela “necessidade de um Estado mínimo” e pela “ineficiência do Estado” e tudo isso que vocês ouvem ainda hoje nos programas de rádio e de televisão. Vieram os governos civis, e a venda do patrimônio público a preço de banana para empresas nacionais e, principalmente, multinacionais se tornaram as principais marcas dos governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso, representantes dos governos do PMDB, do PSDB, do PFL (atual DEM), do PDS (atual PP), e de outros partidos menores, tanto nos estados como nos municípios.
É importante destacar que, nessa transição do regime autoritário para um ambiente democrático, ainda durante o governo Sarney, os salários foram congelados e tiveram reajuste apenas quando a inflação atingisse 20%, e os supermercados escondiam as mercadorias para aplicarem um ágio sobre os produtos. Os planos milagrosos, Cruzado I e Cruzado II (fevereiro e novembro de 1986, respectivamente), fracassaram, pois a inflação oficial medida pelo IBGE alcançou a absurda cifra de 1.764% e houve um aumento excessivo dos preços. Como a elite empresarial não tinha uma alternativa midiática capaz de vencer Lula nas eleições de 1989 acabou transformando o governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, conhecido como o Caçador de Marajás, no seu candidato. O desafio deles era derrotar o PT nem que fosse necessário mentir e manipular de forma escancarada. Depois, o principal executivo da Rede Globo de Televisão, o Boni, reconheceu tal manipulação, mas já era tarde: Collor havia vencido as eleições de 1989.
A prioridade anunciada pelo novo governo foi lutar contra a espiral inflacionária. Collor confiscou a poupança dos brasileiros e abriu o país para o capital internacional. Como todos sabem, o novo “Salvador da Pátria” teve o seu mandato cassado por um impeachment, em 1992, com milhares de jovens indo às ruas com as “caras pintadas”, após a Rede Globo noticiar os crimes e assassinatos praticados pelos seus antigos aliados.
Hoje é totalmente diferente, pois o planeta inteiro já reconheceu o protagonismo do Brasil neste século 21, e apenas o capital financeiro internacional e seus aliados não se importam com o bem-estar dos brasileiros. A soberania nacional só existe em algumas peças publicitárias do governo golpista, na cabeça de alguns malucos que vestem camisas amarelas nas manifestações e na de alguns velhos idealistas. É lamentável que a maior parte da esquerda brasileira nem fala nesse assunto e, inclusive, trata o debate sobre a internacionalização do capital como se fosse uma “mania de conspiração” ou “uma paranoia”. Ou seja: ainda não entenderam que o capital não tem fronteiras, que a luta de classes é internacional e que a liberdade não se conquista em um só país.

Há muito tempo que os investimentos norte-americanos são significativos no Brasil. Mas, com o golpe de 2016, as bancadas do PMDB, do PP, do DEM e do PSDB estão preparando o terreno para ampliar essa participação. Uma das primeiras medidas do governo golpista foi a aprovação do fim da participação obrigatória da Petrobras no Pré-Sal. O ministro da Fazenda anuncia que o governo vai liberar a venda de terras para estrangeiros, o ministro do desenvolvimento, indústria e comércio, paulista e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, está implementando um plano de “desburocratização dos serviços públicos”, com o objetivo de diminuir os controles feitos pelo Imetro, para agilizar os procedimentos de marcas e patentes e preparar a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para ampliar a sua capacidade de exportação. Vê-se que a pauta dos golpistas está sendo intensa em 2017, pois eles precisam obedecer as ordens do capital internacional e entregar as riquezas do país o mais rápido possível.

O problema deles é que acabou a Guerra Fria e hoje o mundo é multipolar. Além disso, estão previstas eleições em 2018 no Brasil, e eles ainda não possuem candidatos confiáveis, com a “ficha-limpa” e com a capacidade de derrotar o ex-presidente Lula, que ainda é lembrado pelo povo como o único grande líder nacional. No entanto, povo brasileiro ainda precisa entender que em momentos de crise cíclicas do capitalismo mundial essas disputas políticas sempre se agudizam e se radicalizam. Em qualquer país do mundo, incluindo o Uruguai, a Bolívia, a Venezuela, a Alemanha, a Inglaterra, a China, o Tibete e (pasmem) os EUA, a pauta da intromissão estrangeira na economia e na política é debatida abertamente, sem medo de pechas e de adjetivações, pois é preciso defender os empregos e o futuro que está ameaçado. No Brasil, a disputa política tem se dado somente no campo jurídico, ético, moral, religioso e psíquico. Não considero essas questões menos importantes, mas elas não podem ser tratadas como exclusivas ou excludentes. Seria uma orquestração dos exportadores? Ou será a síndrome de vira-lata que persiste entre nós?

O simbolismo de identificarmos um inimigo externo não pode ser descartado pela política de resistência democrática, pois ele, além de ser verdadeiro, contribui para a unificação dos movimentos sociais. As mobilizações de 2017, em defesa da Previdência Social Pública, por exemplo, também mostraram que elas unificam o povo brasileiro contra os golpistas. Mas ainda falta muito para unificar os diferentes coletivos e partidos contra a terceirização do trabalho, a defesa do Pré-Sal (leia-se, mais recursos para a saúde e educação) e a priorização de por mais comida na mesa do trabalhador. Enfim, a oposição brasileira precisa ser clara para se diferenciar dos insurgentes grupos de aventureiros e de carbonários. Os coletivos precisam criar focos de resistência e de luta contra a perda de direitos em cada um dos estados, e no máximo de municípios brasileiros. 
Como se viu, foi e será um longo período de movimentos e de posições no seio dos poderes e da sociedade brasileira, sendo que os dois exemplos mais recentes foram a descoberta do Pré-Sal (energia + saúde + educação) e o alinhamento do Brasil com os BRICs. Enquanto um aguçou a ganância de empresas chinesas, francesas e norte-americanas, o outro tirou boa parte do protagonismo dos EUA na definição das políticas globais, como a taxa de juros bancários, os empréstimos e investimentos em países subdesenvolvidos etc. A partir daí, entramos num jogo de xadrez nacional e internacional, com vigilância permanente nas redes sociais, com espionagem e escutas ilegais, vazamento de informações, que os mais velhos, infelizmente, ainda não conseguiram entender a dimensão dessa guerra cibernética. No entanto, com erros e acertos, me parece que estamos sendo provocados a compreender a realidade a partir da própria realidade objetiva / subjetiva, e não apenas a partir da disputa entre as siglas e/ou dos estudos acadêmicos.
Vamos torcer para que as novas gerações nos questionem sobre alguns temas, tais como: 1) quais são as grandes corporações que estão disputando a hegemonia cultural e política no parlamento, nos tribunais, nas redes sociais e nos meios de comunicação? 2) Elas temem perder os parques industriais instalados em solo brasileiro durante os anos de regime militar? 3) o empresariado nacional é nacionalista ou se tornou totalmente dependente? 4) O jogo “Um desmonte para o Futuro” está servindo para punir um a um, os políticos e empresários brasileiros delatados e/ou envolvidos em “tenebrosas transações”? 5) A Operação Lava-Jato está punindo os corruptos ou apenas serve para evitar que o povo brasileiro faça uma reflexão mais profunda? 6) O alinhamento estratégico do Brasil com os BRICS e com o Mercosul está ameaçado? 7) Qual é o propósito maior do golpe de 2016?
É óbvio que, se mostrarmos que estamos vendo tal qual eles jogam, quebraremos as regras do seu jogo e receberemos uma, duas ou mais advertências e punições... O que devemos fazer? Jogar o jogo deles, e seguir fazendo de conta que não vemos o jogo que os bancos jogam, junto com as empresas norte-americanas, chinesas, francesas, canadenses etc.? Perguntem aos coletivos o que devemos fazer e quais são as peças que compõem os tabuleiros municipal, regional, estadual, nacional e internacional. Você está preparado para jogar esse jogo?

P.S. Nos anos 70 Henry Kissinger, conselheiro de relações exteriores de vários presidentes dos EUA, já sugeria para o G7 (depois G8) essa mudança de tática na dominação dos países dependentes, após a instalação dos parques industriais transnacionais em solo estrangeiro. Anos antes, o General Golbery do Couto e Silva, um dos grandes mentores da estratégia do regime militar, presidia a empresa norte-americana Dow Chemical do Brasil, uma das maiores fabricantes de produtos químicos agrícolas do mundo. Por curiosidade, fiquei sabendo que recentemente, em 2015, a Dow Chemical se uniu a Du Pont, segundo seus diretores, “devido à queda nos preços das commodities e o dólar forte, mesmo com seus negócios de plásticos prosperando graças aos preços baixos do gás natural”. Para um(a) leitor(a) atento(a), essas palavras bastam!
Março de 2017 (53 anos do Golpe de 1964 e 27 anos da primeira eleição direta após o regime militar).