POR QUE NÃO DÃO MAIS GOLPES COMO ANTIGAMENTE?





Eles estão jogando o jogo deles.
Eles estão jogando de não jogar um jogo.
Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão, quebrarei as regras do seu jogo
e receberei a sua punição.
O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles,
o jogo de não ver o jogo que eles jogam.
Citado em Laços, de R. D. Laing.

Essa citação do livro Laços, de R.D. Laing revela o alto grau de esquizofrenia ou de sabedoria de uma pessoa? Pergunto isso porque muitas ainda se questionam sobre as diferenças entre os golpes de 1964 e de 2016. Vejo que as rebeldes e de índole libertária sentem medo de uma punição maior, pois pensam em golpes como uma intervenção militar, mas algumas já estão compreendendo o que significa um “golpe branco”, a exemplo do que ocorreu no Paraguai e em Honduras, só para citar dois países próximos a nós, brasileiros. Portanto, a pergunta que faço no título é mais do que pertinente.
Nesta reflexão, parto do princípio de que “golpes” civis e militares vêm ocorrendo há muito tempo no Brasil e que a cultura do autoritarismo faz parte da vida e da memória do nosso povo. É certo que algumas pessoas reagem para defender apenas os seus interesses econômicos e privados, enquanto outras agem por pura maldade e estupidez... Mas também existem aquelas que simplesmente “entram na onda” da grande mídia e, pela falta de um conhecimento mais elaborado, se tornam massa de manobra. Essas não podem ser tratadas e comparadas com as duas primeiras, sob pena de confundi-las ainda mais.
Poderíamos dizer que os golpes civis e militares no Brasil (e no continente sul-americano) são uma consequência da expansão do capital internacional e da ausência de uma burguesia nacionalista no país com capacidade de resistir. Grosso modo, eles ocorreram em quatro momentos distintos e complementares: a primeira fase vocês conhecem, pois ocorreu no tempo do Império e foi citada em todos os livros escolares. A segunda fase vai da Proclamação da República até 1964, com fortes investimentos em mineração e acordos com a burguesia emergente nacional, predominantemente rural e conservadora. A terceira fase vai de 1964 até o final do século 20, com o golpe militar, que patrocinou o chamado “Milagre Econômico” com aparência nacionalista, mas que se abriu para a instalação vertiginosa de indústrias transnacionais em solo brasileiro, com investimentos em infraestrutura (estradas, pontes e hidrelétricas), com o objetivo transportar a produção do campo e das cidades, além de gerar energia para os novos parques industriais e exportar a produção. A quarta fase começa bem antes de 2016, com a expansão do capital financeiro internacional, em que os grandes bancos se alimentam de receitas produzidas por outros setores da economia mundial e concentram ainda mais a riqueza, criando mais desigualdades e privilégios em cada país. No caso brasileiro, alguns bancos internacionais se aliaram à grande indústria e à agroindústria, ambas dependentes, com o objetivo de investir na produção local por um longo período. O país atravessou esse período com estabilização e consumo, mas quando a crise econômica chegou, veio um “golpe branco” com o objetivo de “desburocratizar” os procedimentos alfandegários, “flexibilizar” as leis do trabalho, com a perda de direitos consolidados e/ou adquiridos pelos trabalhadores na Constituição de 1988 e o “desmonte” da previdência social pública, para tornar os brasileiros reféns dos planos de saúde, dos bancos, das empresas e das oscilações do mercado internacional.
Para quem ainda não sabe, nos primeiros cem anos de República, vivemos apenas 19 anos em ambiente democrático, sendo que esses dezenove anos não foram contínuos, mas interrompidos por golpes civis e militares. Nesse sentido, quem nasceu bem antes de 1989 – primeira eleição direta após o regime militar – deve valorizar e dar outro significado para essa recente experiência democrática de vinte e sete anos consecutivos. Nessas quase três décadas os movimentos populares cresceram e se organizaram muito mais do que nas décadas anteriores, mas, ao mesmo tempo, foram criminalizados. Mais tarde, obtiveram diversos avanços reais, principalmente durante os governos – de coalizão – Lula e Dilma... Mas a “doutrina da prosperidade” também estava sendo disseminada por algumas igrejas e seus fanáticos pastores, e houve a eleição de diversos vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, senadores ligados ao agronegócio e à repressão, formando as chamadas bancadas “da Bíblia”, “do boi” e “da bala”. Os demais poderes da República, como os tribunais e os meios de comunicação nacionais e regionais, foram dominados por “celebridades”, por volumosos “patrocínios” e por intrigas e difamações sem o devido direito de resposta.
Compreender isso é fundamental para reconhecer porque as velhas culturas políticas ainda se manifestam entre nós, qual é o papel geopolítico que o Brasil cumpre para garantir o equilíbrio (ou desiquilíbrio) do continente, e a importância dos avanços culturais, sociais, econômicos e políticos que obtivemos. Boa parte do povo brasileiro sabe que em 1964 um grupo de militares, apoiados por civis, deu um golpe de Estado e governou arbitrariamente por longos 21 anos, pois até a Rede Globo (que, não por coincidência, foi inaugurada em 1964) e o governo norte-americano já reconheceram isso publicamente. Mas poucos sabem que esses mesmos civis e militares brasileiros, a serviço do capital internacional, exportaram os golpes militares e os métodos de tortura utilizados aqui (a partir de 1964) para outros países da América do Sul, como o Uruguai (1973), o Chile (1973) e a Argentina (1976). E, quase ninguém relaciona o fato de que naquela época o mundo vivia um período de expansionismo políticos / econômicos / territoriais estratégicos, conhecido como Guerra Fria, em que era quase impossível se livrar da disputa bipolar promovida pelas duas grandes potências mundiais, Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
A nossa televisão e os cinemas, por exemplo, foram dominados pela cultura importada dos Estados Unidos, as escolas e universidades foram fragmentadas e censuradas por meio do famigerado acordo MEC USAID (United States Agency for International Development), ouve uma tecnificação do ensino, censura aberta às obras musicais, às peças de teatro, aos filmes nacionais e estrangeiros. Ao mesmo tempo, muitos militares e policiais foram treinados para a perseguição política, a truculência, a prática do racismo e a obtenção de provas por meio da tortura. Para presos comuns, esses métodos medievais nunca acabaram no Brasil, mas o juiz Sérgio Moro voltou a utilizá-los para prisões políticas, por meio da tortura psicológica.
É bom lembrar que essas disputas bipolares e globais continuaram até 1991 e foram se definhando há pouco mais de duas décadas, com a dissolução da União Soviética, a partir da Perestroika e da Glasnost (1986) e com a queda do Muro de Berlim (1988).  Quem tem mais de vinte e cinco anos de idade deve saber que o muro desabou junto com muitos paradigmas – modelos - que orientavam boa parte da esquerda mundial e que o surgimento de novos pactos regionais (União Europeia, Mercosul etc.) inseriu os países numa nova ordem mundial, caracterizada por grandes blocos econômicos, só que agora multipolarizada. Além dos Estados Unidos da América e do Japão, a China se destacava como uma das potências competitivas, enquanto a Rússia ainda se levantava dos escombros.
O que pouca gente se deu conta (ou faz de conta que não viu) é que durante esse longo processo de disputas territoriais, diversas empresas estrangeiras se instalaram em solo brasileiro, assim como em toda a América do Sul, da África e de parte da Ásia. E que a nova política estratégica das grandes potências mundiais, reunidas no G-8 e no G-20, passou a ser a defesa de uma democracia controlada, com a repressão dos conflitos nesses territórios ocupados. No entanto, contraditoriamente, em alguns países ocorreram diversos movimentos sociais e de massas que fizeram um enfrentamento direto e indireto às políticas das grandes corporações.
Aquilo que essas empresas conquistaram durante séculos de exploração do continente foi consolidado, principalmente, durante esses anos de Guerra Fria (1945 a 1991) e de ditadura militar no Brasil e nas Américas. No entanto, foi a partir dos governos militares que as grandes mineradoras, as usinas hidrelétricas, os parques industriais, a produção de soja e de carne cresceram no Brasil, mas para abastecer o mercado internacional, e não para melhorar a vida do povo. Não é por acaso que os slogans do regime militar eram: “Exportar é o que importa!” e “Primeiro é preciso crescer, para depois dividir o bolo”. Um plano de enganação orquestrado pela grande mídia em conjunto com a velha / nova elite nacional dependente, submissa ao capital internacional.
É certo que desde o Brasil Colônia nós exportamos madeira, ouro, borracha, castanha, carne e cereais, principalmente para a Europa e os EUA. É importante lembrar que a indústria foi uma das maiores conquistas do Brasil no Século 20 e que ela ocorreu, dentre outras questões, porque Getúlio Vargas tinha uma visão de estadista. Mas precisamos reconhecer que foi a partir dos anos 1970 que se inaugurou o período de internacionalização intensa do capital, da exportação de automóveis, televisores, iogurte, sabonetes, lâminas de barbear, papel higiênico, bebidas etc. para outras partes do mundo. Na década de 1970, por exemplo, a FIAT se instalou em Betim, Minas Gerais, o Polo Petroquímico do ABC Paulista cresceu significativamente e o Super Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, foi ampliado e se tornou um dos maiores portos do país.
A crise do petróleo, em 1973, acabou com o “Milagre Econômico” e o país já havia se endividado com o FMI e com outros bancos externos. O preço dos alimentos se elevou e desgastou de vez o regime militar, que também era denunciado por torturas e corrupções. A partir de 1975 começaram a pipocar greves de trabalhadores no ABC paulista e em outros estados, os movimentos sociais se unificaram e fortaleceram a resistência democrática em todo o país. Os candidatos de oposição – ainda aglutinados no Movimento Democrático Brasileiro, pois esse era o único partido legal e oposicionista à época - foram eleitos na maioria dos municípios, estados e no Congresso Nacional.  As manobras dos militares e de seus patrocinadores foram muitas e, inclusive, fizeram parte do “plano de abertura lenta e gradual” elaborado pelo então General Golbery do Couto e Silva. Aos poucos, com o surgimento de novos partidos e o avanço das oposições, aqueles velhos slogans foram substituídos pela “necessidade de um Estado mínimo” e pela “ineficiência do Estado” e tudo isso que vocês ouvem ainda hoje nos programas de rádio e de televisão. Vieram os governos civis, e a venda do patrimônio público a preço de banana para empresas nacionais e, principalmente, multinacionais se tornaram as principais marcas dos governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso, representantes dos governos do PMDB, do PSDB, do PFL (atual DEM), do PDS (atual PP), e de outros partidos menores, tanto nos estados como nos municípios.
É importante destacar que, nessa transição do regime autoritário para um ambiente democrático, ainda durante o governo Sarney, os salários foram congelados e tiveram reajuste apenas quando a inflação atingisse 20%, e os supermercados escondiam as mercadorias para aplicarem um ágio sobre os produtos. Os planos milagrosos, Cruzado I e Cruzado II (fevereiro e novembro de 1986, respectivamente), fracassaram, pois a inflação oficial medida pelo IBGE alcançou a absurda cifra de 1.764% e houve um aumento excessivo dos preços. Como a elite empresarial não tinha uma alternativa midiática capaz de vencer Lula nas eleições de 1989 acabou transformando o governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, conhecido como o Caçador de Marajás, no seu candidato. O desafio deles era derrotar o PT nem que fosse necessário mentir e manipular de forma escancarada. Depois, o principal executivo da Rede Globo de Televisão, o Boni, reconheceu tal manipulação, mas já era tarde: Collor havia vencido as eleições de 1989.
A prioridade anunciada pelo novo governo foi lutar contra a espiral inflacionária. Collor confiscou a poupança dos brasileiros e abriu o país para o capital internacional. Como todos sabem, o novo “Salvador da Pátria” teve o seu mandato cassado por um impeachment, em 1992, com milhares de jovens indo às ruas com as “caras pintadas”, após a Rede Globo noticiar os crimes e assassinatos praticados pelos seus antigos aliados.
Hoje é totalmente diferente, pois o planeta inteiro já reconheceu o protagonismo do Brasil neste século 21, e apenas o capital financeiro internacional e seus aliados não se importam com o bem-estar dos brasileiros. A soberania nacional só existe em algumas peças publicitárias do governo golpista, na cabeça de alguns malucos que vestem camisas amarelas nas manifestações e na de alguns velhos idealistas. É lamentável que a maior parte da esquerda brasileira nem fala nesse assunto e, inclusive, trata o debate sobre a internacionalização do capital como se fosse uma “mania de conspiração” ou “uma paranoia”. Ou seja: ainda não entenderam que o capital não tem fronteiras, que a luta de classes é internacional e que a liberdade não se conquista em um só país.

Há muito tempo que os investimentos norte-americanos são significativos no Brasil. Mas, com o golpe de 2016, as bancadas do PMDB, do PP, do DEM e do PSDB estão preparando o terreno para ampliar essa participação. Uma das primeiras medidas do governo golpista foi a aprovação do fim da participação obrigatória da Petrobras no Pré-Sal. O ministro da Fazenda anuncia que o governo vai liberar a venda de terras para estrangeiros, o ministro do desenvolvimento, indústria e comércio, paulista e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, está implementando um plano de “desburocratização dos serviços públicos”, com o objetivo de diminuir os controles feitos pelo Imetro, para agilizar os procedimentos de marcas e patentes e preparar a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para ampliar a sua capacidade de exportação. Vê-se que a pauta dos golpistas está sendo intensa em 2017, pois eles precisam obedecer as ordens do capital internacional e entregar as riquezas do país o mais rápido possível.

O problema deles é que acabou a Guerra Fria e hoje o mundo é multipolar. Além disso, estão previstas eleições em 2018 no Brasil, e eles ainda não possuem candidatos confiáveis, com a “ficha-limpa” e com a capacidade de derrotar o ex-presidente Lula, que ainda é lembrado pelo povo como o único grande líder nacional. No entanto, povo brasileiro ainda precisa entender que em momentos de crise cíclicas do capitalismo mundial essas disputas políticas sempre se agudizam e se radicalizam. Em qualquer país do mundo, incluindo o Uruguai, a Bolívia, a Venezuela, a Alemanha, a Inglaterra, a China, o Tibete e (pasmem) os EUA, a pauta da intromissão estrangeira na economia e na política é debatida abertamente, sem medo de pechas e de adjetivações, pois é preciso defender os empregos e o futuro que está ameaçado. No Brasil, a disputa política tem se dado somente no campo jurídico, ético, moral, religioso e psíquico. Não considero essas questões menos importantes, mas elas não podem ser tratadas como exclusivas ou excludentes. Seria uma orquestração dos exportadores? Ou será a síndrome de vira-lata que persiste entre nós?

O simbolismo de identificarmos um inimigo externo não pode ser descartado pela política de resistência democrática, pois ele, além de ser verdadeiro, contribui para a unificação dos movimentos sociais. As mobilizações de 2017, em defesa da Previdência Social Pública, por exemplo, também mostraram que elas unificam o povo brasileiro contra os golpistas. Mas ainda falta muito para unificar os diferentes coletivos e partidos contra a terceirização do trabalho, a defesa do Pré-Sal (leia-se, mais recursos para a saúde e educação) e a priorização de por mais comida na mesa do trabalhador. Enfim, a oposição brasileira precisa ser clara para se diferenciar dos insurgentes grupos de aventureiros e de carbonários. Os coletivos precisam criar focos de resistência e de luta contra a perda de direitos em cada um dos estados, e no máximo de municípios brasileiros. 
Como se viu, foi e será um longo período de movimentos e de posições no seio dos poderes e da sociedade brasileira, sendo que os dois exemplos mais recentes foram a descoberta do Pré-Sal (energia + saúde + educação) e o alinhamento do Brasil com os BRICs. Enquanto um aguçou a ganância de empresas chinesas, francesas e norte-americanas, o outro tirou boa parte do protagonismo dos EUA na definição das políticas globais, como a taxa de juros bancários, os empréstimos e investimentos em países subdesenvolvidos etc. A partir daí, entramos num jogo de xadrez nacional e internacional, com vigilância permanente nas redes sociais, com espionagem e escutas ilegais, vazamento de informações, que os mais velhos, infelizmente, ainda não conseguiram entender a dimensão dessa guerra cibernética. No entanto, com erros e acertos, me parece que estamos sendo provocados a compreender a realidade a partir da própria realidade objetiva / subjetiva, e não apenas a partir da disputa entre as siglas e/ou dos estudos acadêmicos.
Vamos torcer para que as novas gerações nos questionem sobre alguns temas, tais como: 1) quais são as grandes corporações que estão disputando a hegemonia cultural e política no parlamento, nos tribunais, nas redes sociais e nos meios de comunicação? 2) Elas temem perder os parques industriais instalados em solo brasileiro durante os anos de regime militar? 3) o empresariado nacional é nacionalista ou se tornou totalmente dependente? 4) O jogo “Um desmonte para o Futuro” está servindo para punir um a um, os políticos e empresários brasileiros delatados e/ou envolvidos em “tenebrosas transações”? 5) A Operação Lava-Jato está punindo os corruptos ou apenas serve para evitar que o povo brasileiro faça uma reflexão mais profunda? 6) O alinhamento estratégico do Brasil com os BRICS e com o Mercosul está ameaçado? 7) Qual é o propósito maior do golpe de 2016?
É óbvio que, se mostrarmos que estamos vendo tal qual eles jogam, quebraremos as regras do seu jogo e receberemos uma, duas ou mais advertências e punições... O que devemos fazer? Jogar o jogo deles, e seguir fazendo de conta que não vemos o jogo que os bancos jogam, junto com as empresas norte-americanas, chinesas, francesas, canadenses etc.? Perguntem aos coletivos o que devemos fazer e quais são as peças que compõem os tabuleiros municipal, regional, estadual, nacional e internacional. Você está preparado para jogar esse jogo?

P.S. Nos anos 70 Henry Kissinger, conselheiro de relações exteriores de vários presidentes dos EUA, já sugeria para o G7 (depois G8) essa mudança de tática na dominação dos países dependentes, após a instalação dos parques industriais transnacionais em solo estrangeiro. Anos antes, o General Golbery do Couto e Silva, um dos grandes mentores da estratégia do regime militar, presidia a empresa norte-americana Dow Chemical do Brasil, uma das maiores fabricantes de produtos químicos agrícolas do mundo. Por curiosidade, fiquei sabendo que recentemente, em 2015, a Dow Chemical se uniu a Du Pont, segundo seus diretores, “devido à queda nos preços das commodities e o dólar forte, mesmo com seus negócios de plásticos prosperando graças aos preços baixos do gás natural”. Para um(a) leitor(a) atento(a), essas palavras bastam!
Março de 2017 (53 anos do Golpe de 1964 e 27 anos da primeira eleição direta após o regime militar).

Memórias do Movimento Estudantil - Anos 1970 e 1980.

Depoimento para o projeto Memória do Movimento Estudantil Universitário Gaúcho no período da redemocratização 1977 - 1985, criado e desenvolvido pelo IMA - Instituto Mário Alves, de Pelotas. Acredito que estas reflexões contribuem para entender algumas contradições da esquerda que ainda persistem neste novo período da história brasileira. Lamento, mas eu errei o nome da minha organização à nível nacional: era Caminhando e não Movimento. Aqui no RS era Resistência e a minha desmemória não me traiu :) Espero que vocês gostem... Abraços.

Um selfie com Mujica





“Não é só uma mudança do sistema, é uma mudança de cultura, é uma cultura civilizatória. E não tem como sonhar com um mundo melhor se não gastar a vida lutando por ele. Temos que superar o individualismo e criar consciência coletiva para transformar a sociedade.” – José Pepe Mujica

Quantas pessoas você conhece que admiram o ex-presidente Mujica? E agora, me responda: quantas dessas pessoas defenderiam as ideias de Mujica? Não estou me referindo à sua situação social e nem às escolhas de vida que José Pepe Mujica fez após passar 12 anos nas prisões uruguaias. Neste momento de crise ética e política, precisamos refletir sobre a sua dignidade e também sobre o exemplo que ele vem dando para todos nós ao falar de princípios e de valores não monetários. 

Poucas pessoas sabem que Mujica gosta de ler Sêneca (50 A.C) e diversos livres pensadores do passado e do presente, e pouquíssimas se dão conta de que ele também é fruto de um longo processo histórico vivido pelo seu país, o Uruguai. Por exemplo, lá as universidades foram criadas muitas décadas antes do que as brasileiras; há quase cem anos, na Constituição de 1917, o Estado foi separado da influência da Igreja; o presidente colorado José Batlle y Ordóñez incentivou um verdadeiro laicismo radical no país e, desde lá não se vê símbolos cristãos nas câmaras de “ediles” (vereadores), nas salas de aula, nos tribunais e nem nos hospitais da rede pública. Todas as religiões são respeitadas e, na posse dos presidentes o juramento é em nome da Constituição uruguaia e não da Bíblia. Isso, por si só, já revela a seriedade e a radicalidade da democracia republicana construída pelos hermanos.

Mas tem mais: os uruguaios aboliram a escravidão quarenta e seis anos antes do que o Brasil; o país foi o pioneiro ao permitir o divórcio por iniciativa da mulher em 1913 enquanto que a lei brasileira foi aprovada apenas no final dos anos 70 (cinquenta e sete anos depois); as mulheres uruguaias conquistaram o direito ao voto em 1917 e as brasileiras somente em 1932 (quinze anos depois). Recentemente eles conseguiram avançar ainda mais nos seus direitos civis, com a legalização da relação entre pessoas do mesmo sexo, com a não punição à prática do aborto até a 12ª semana de gestação e se tornaram o primeiro país no mundo a comercializar a marijuana pelo próprio Estado, como política de saúde e de combate ao tráfico de drogas. Nós, brasileiros, em pleno século 21, ainda estamos enfrentando o conservadorismo político e religioso que invadiu o parlamento, as prefeituras, as delegacias de polícia, milhares de residências e milhões de mentes desesperadas e solitárias.

Do ponto de vista do sistema político, os partidos uruguaios são seculares e o Frente Amplio, fruto da coalizão de várias organizações e de cidadãos independentes, reúne democraticamente toda a esquerda uruguaia desde 1971 e governa aquele país desde 2005. Essa maturidade política do seu povo dificulta as manobras espúrias e o surgimento de uma bancada que imponha as "leis divinas” e/ou defenda o monopólio da comunicação. José Pepe Mujica e quase toda a torcida do Penharol e do Nacional sabem disso!

Portanto, um selfie com Mujica deveria levar em conta que além de admirá-lo (o que não está errado!) todo fã precisaria compreender o que ele e o seu povo representam. Os brasileiros, por exemplo, deveriam valorizar os postos Petrobrás e evitar as multinacionais Esso, Shell e Texas Co. Ao comprar produtos orgânicos de produtores locais estariam reconhecendo a importância de fortalecer as cadeias produtivas regionais etc e tal. Enfim, todas as ações do dia-a-dia estariam sendo consideradas como atitudes políticas, ou melhor, adquirindo um sentido humano, local e universal.

Ou seja: a vida de qualquer pessoa está cheia de provações individuais e coletivas, principalmente para aquelas que assumem um cargo público ou fazem parte de um centro estudantil, desde um policial da esquina até um chef de cozinha, de um dirigente partidário e muito mais de um governador. Pois é numa dessas situações que a concepção de poder se manifesta e os indivíduos são testados. Nunca apenas pelo discurso ou nas postagens de ocasião. Ou melhor, se quisermos saber o verdadeiro grau de liberdade que um homem ou uma mulher defende, basta arrancar-lhes a sua concepção de mulher, ou como cada um(a) se refere ou se relaciona com as mulheres negras e/ou indígenas. E mais: perguntar-lhes se têm algum preconceito homoafetivo ou de religião. 

As concepções de poder estão por toda parte, mas muitas vezes algumas faces e representações ficam ocultas, e se manifestam apenas quando alguém assume um cargo ou uma função coletiva. Nas redes sociais qualquer um(a) se sente o rei ou a rainha da cocada, mas é na vida real que a porca torce o rabo. Por isso, é bom exercitar a capacidade que cada um(a) tem de solidariedade e de fraternidade, sem perder o senso de justiça, pois o mundo que queremos construir é de homens e mulheres livres e fraternos, e não de pessoas agressivas e odiosas. Não adianta ficar adjetivando os demais ou tratando o Mujica como uma estrela de rock, pois o nosso desafio é construir uma constelação de organizações autônomas com a máxima convergência possível dos olhares e dos saberes que aprenderam a ser solidários e propositivos.

Compartilhar o poder – micro e macro - não é para qualquer um(a). Ainda mais numa sociedade que segue gerando homens e mulheres individualistas e egoístas, em que muitas pessoas já perderam a fé na humanidade e recorrem ao divino, às verdades absolutas ou ao isolamento, pois perderam a crença nos seres humanos, que são elas mesmas. Às vezes é preciso passar por situações difíceis e adversas para se colocar no lugar de outra pessoa, e para entender a subjetividade e objetividade de cada cultura e moral existente. Não queremos apenas uma mudança do sistema, mas da cultura que dá sustentação a este sistema falido.

O nosso futuro será sempre construído por meio de passos objetivos, firmes e consistentes, pois esses sim serão lembrados daqui a dez, vinte e cinquenta anos, e não por aqueles que gritam mais alto ou falam somente frases genéricas. São as atitudes individuais e, principalmente as coletivas, que permitirão gerar novas reflexões bem mais complexas e que irão nos proporcionar outras dimensões da consciência. Por exemplo: é preciso compreender que se o conservadorismo cultural e político vencer o movimento contra o golpe no Brasil, en breve Mujica y nuestros queridos hermanos uruguayos serán agredidos como estamos siendo nosotros, los brasileños. Portanto, temos que superar o regionalismo e o nacionalismo até criar uma consciência planetária que seja capaz de transformar radicalmente a nossa sociedade.

                                                      Porto Alegre, 18 de maio de 2016.

Ricardo Almeida    


As crises e a síndrome das capivaras



"Ele não se apercebe de que há com ele algo de errado
porque
uma das coisas que nele andam erradas
é não se aperceber de que há com ele
algo de errado
portanto
temos que ajuda-lo a aperceber-se
de que o fato de não se aperceber
de que há com ele algo de errado
é uma dessas coisas
que nele andam erradas..." - R.D. Laing - Laços

Aprendi que um sistema baseado no mercado e em capitais especulativos entra em crises cíclicas (ou em ondas), assim como a noite vem depois do dia, que chove mais em determinadas épocas do ano e que surgem temporais devastadores em algumas regiões do planeta.  

         Esta crise brasileira de 2014, que começou no mundo inteiro em 2008, me fez lembrar que nos anos 70 ou 80 dezenas de capivaras foram encontradas mortas próximo à Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. E que, alguns meses depois os jornais anunciaram que uma equipe de cientistas conseguiu desvendar a origem daquele estranho fenômeno. Diziam eles: com a escassez de alimentos na região, as capivaras acabaram comendo umas às outras.

Este exemplo do reino animal revela que uma crise humana também pode ser analisada desse ponto de vista — da escassez — mas que existem outras maneiras de analisar uma crise. Ou seja: ela pode ser fruto de uma crise ética, ou de uma crise de consciência, da crise de valores e até de uma crise da criatividade, como, por exemplo, uma falta de entendimento de que é preciso realizar um pacto entre uma parte da sociedade para garantir direitos e avançar naquilo que as circunstâncias históricas permitem (aquilo que Antonio Gramsci, que lia Hegel e Engels, chamou de formação de um Bloco Histórico de classes). 

Uma questão importante para a compreensão das crises é a percepção de que elas não possuem uma causa única e nem acontecem de uma forma isolada, umas das outras. Ou seja, que de uma forma quase invisível elas acabam promovendo uma escalada de ações e de reações, de explosões e até de algumas atrocidades que muitas pessoas não querem saber os seus motivos. Numa sociedade acostumada com a banalização da violência, do medo e do ódio, é comum encontrar pessoas que elogiam a força bruta e gostam de provocar a inteligência das pessoas mais sensíveis. Como nos filmes e seriados de Hollywood, cidades inteiras começam a ser ameaçadas por “malucos" e reagem apavoradas, com a intenção de serem salvas por um super-herói ou por um “Salvador da Pátria”. 

Essas pessoas não conseguem ultrapassar a fase infantil das histórias em quadrinhos e caem — ingenuamente ou não — em velhas e conhecidas armadilhas. Elas ainda sentem medo quando o diabo, o bicho-papão, o cientista maluco, o Jason, o minotauro, os lutadores de UFC, os Malafaias e os Bolsonaros aparecem nas redes sociais ou na televisão. Como se fossem crianças esquecem que possuem uma capacidade de aprender e a elaborar raciocínios mais complexos, e assim reproduzem o medo e valores absurdos nas escolas, igrejas, redes de TV, jornais, blogs, revistas, amigos e nas famílias. 
Elas formam e contribuem para a criação de uma grande massa de pessoas desinformadas, que não entendem as crises de escassez econômica, ética, moral e política — e passam a procurar um culpado pela sua crise particular.  Como na Alemanha nazista e na Itália fascista, na maioria das vezes escolhem alguma cultura/etnia ou liderança política, partidos políticos e organizações sindicais, movimentos sociais e até a própria justiça, para criticar e desmoralizar, desde que essa não lhes seja favorável. O direito a julgamento é ignorado, pois elas não estão dispostas a ouvir o argumento dos acusados e elogiam delações de ladrões — tipo Barrabás —, acusações levianas e propagam essas suspeitas etc. 

No Brasil, pessoas com mais de 30 anos de idade já atravessaram crises semelhantes, mas isso não quer dizer que elas aprenderam alguma coisa com essas experiências. Poucas lembram, mas não falam, até onde uma crise aguda pode levar as multidões. Aquelas que não reconhecem as crises cíclicas - independente de posição ideológica - costumam agredir as que se revoltam contra as crises, e isso é um triste sinal de que nenhuma delas aprendeu com os livros e com as crises anteriores.

E o que isso tudo tem a ver com as capivaras e a escassez de alimentos? É que muitas pessoas vivem somente para o presente, não entenderam o passado e, assim, não conseguem imaginar um cenário futuro. Por se preocuparem apenas com o presente, nunca param para refletir e aprender sobre os motivos da crise que estamos vivendo. Sentem medo do futuro, pois em função da escassez, da alta dos preços e das suas limitações intelectuais (por que não?), o futuro acabou se tornou algo inseguro e incerto. 

Não querem saber, por exemplo, se os freeshops de Artigas, Rivera, Acegua, Río Branco e Chuy, no Uruguai – cuja maioria é de empresas multinacionais - estão vazios em função da subida dos juros nos EUA e que houve uma fuga do capital especulativo para aquele país, pois lá essas mesmas empresas lucram muito mais. Não entendem que muitas empresas e os banqueiros internacionais estão interferindo na cena política nacional para defenderem os seus velhos privilégios, pois o velho poder econômico está sendo ameaçado. E quando um país entra em perspectiva de tornar-se uma das grandes potências mundiais, aí é briga para “cachorro grande” (ou capivara grande). Os “gerentes” nacionais utilizam todos os meios possíveis para gerar pânico e histeria no cotidiano da população local, desde subir o preço dos alimentos ou desabaster as prateleiras dos supermercados, até bombardear as famílias com notícias negativas durante meses e meses, por meio dos jornais e dos canais de televisão. Se for véspera de um período eleitoral, aí sim que  o bombardeio se tornará insuportável, ao ponto de gerar e propagar irritações e histerias nos bares, nos lares e nas redes sociais. 

Neste contexto de crise, a luta contra a corrupção sempre ressurge, e se torna um prato cheio de ódio e de irracionalidades, com ameaças ao básico direito de “presunção da inocência” de uma pessoa. Como muitas estão desesperadas e "ameaçadas" pelas crises, já não param para pensar que corruptos podem estar querendo se passar por "bons meninos", que a sonegação de impostos também representa um desvio de verbas que poderiam ser destinadas à saúde, à educação e a outras áreas importantes para a própria população. Acreditam que quem está no governo possui todo o poder de mudar “as coisas”... Aprenderam na escola que existem três poderes, mas acreditam mais na televisão, pois ainda estão descobrindo as funções do Congresso e do Judiciário. Repetem em coro: "não gosto de política",  “a política é uma coisa ruim” e "nunca precisei dos políticos". No período de fartura o mérito era todo delas, mas no de crises é do governo de plantão e dos políticos. Mesmo assim, apesar de tudo, a vida  sempre será um processo vivo e dinâmico que ensina as pessoas que resolvem compartilhar suas experiências e prestam atenção aos fatos e a repetição dos fenômenos. Por isso, não dá para desistir!
Dá para aprender que “as coisas” e as circunstâncias mudam! Por exemplo: se antes os banqueiros e empresários compravam políticos e sindicalistas para defenderem as suas pautas políticas, agora eles já estão atuando no centro das disputas – é caso do Paulo Skaf, empresário e presidente da FIESP, candidato pelo PSB ao governo de São Paulo, em 2010, de Donald Trump, empresário, investidor e personalidade da mídia norte-americano, e candidato a presidente dos Estados Unidos nas eleições de 2016, e também do recém eleito empresário-presidente da Argentina, Maurício Macri. Ou indicando os seus representantes para fazer parte dos governos – como é o caso do Joaquim Levy, diretor-superintendente do Bradesco Asset Management (Bram), como ministro da Fazenda do Brasil. Todos apostam na alienação de setores das “classes médias”, que vacilam, com medo de não conseguir pagar as dívidas ou de perder o que conquistaram, sempre com o apoio de setores mais conservadores das igrejas e da sociedade.

Como foi visto, com a escassez dos alimentos, a alta do dólar, o aumento do valor das prestações do carro e da casa própria, assim como da diminuição do consumo, essa crise política e econômica também gera uma crise ética e cultural, e que sua compreensão é bem mais complexa do que uma simples partida de futebol, de uma disputa por siglas partidárias e/ou por crenças e valores religiosos. Essas ondas ressurgem de tempos em tempos e é preciso mergulhar no fundo do fundo do fundo das crises “cíclicas” e/ou “em ondas” do sistema capitalista para conseguir superá-las.
O desafio de quem não quer alimentar o ódio, o pânico e o canibalismo político-cultural é ultrapassar a fase da crítica pela crítica e também deixar de ser pautado pela grande mídia ou por comentários provocativos nas redes sociais. Esses medos, assim como as ameaças e as intrigas, perderão peso quando pessoas alegres e propositivas tomarem a iniciativa. Não adianta dizer que tal pessoa não entende isso ou aquilo, pois o problema dela é exatamente este: ela não entende o que está se passando em sua volta e prefere orar apenas pela sua prosperidade individual (é um egoísta divino).

Não há nada de errado em se indignar e criticar quem está incentivando o ódio e a alienação das pessoas, mas ficar apenas adjetivando a alienação, se vangloriando para os amigos mais próximos, ou postando provocações, desilusões e lamentos no Facebook deveria ser considerado como uma atitude de um(a) cidadão/cidadã ultrapassado(a) no seu próprio tempo. Estamos vivendo um momento da história com muitas informações disponíveis e, por isso mesmo, está mais do que na hora de compartilhar conhecimentos com pessoas que não pertencem aos mesmos círculos de amizade, pois não serão os mais rápidos que sobreviverão, nem os mais fortes, e sim os que ousarem, forem criativos e demonstrarem uma grande capacidade de argumentação, de convencimento e, principalmente, de organização.

Ricardo Almeida
Porto Alegre, março de 2016.