A política da inércia

 "O que o labirinto nos ensina não é onde está a saída,
 mas quais os caminhos que não levam a lugar nenhum."
Norberto Bobbio
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Existem algumas práticas políticas que podem ser comparadas com a inércia, ou seja: se "as coisas" estão em movimento, querem continuar em movimento; se estão paradas, não desejam mover-se. São fenômenos que se fortalecem quando não existem projetos coletivos locais e nem o debate público da "coisa pública" (res-pública). 
Infelizmente, a grande maioria das pessoas se movimenta apenas quando ocorre algum fator externo à sua vontade.  Em algumas sociedades já existe uma intervenção política mais madura, diferenciada e orgânica, pois a política passou a ser tratada como uma atitude pedagógica e se tornou parte da cultura hegemônica local. Em outras, essa inércia continua se manifestando com "naturalidade" (sic), pois as suas lideranças lembram-se das organizações locais, representações legítimas da sociedade civil, somente nos seus momentos difíceis ou nos períodos eleitorais. Assim, acabam reduzindo o fazer político e apenas se preocupam em representar um  bom "papel" na sociedade. Esse fenômeno cresce à medida em que se fomenta a escolástica, o espontaneísmo e o culto a personalidade .

A escolástica não é tão nociva, mas ela não tem um comprometimento prático com a vida e se alimenta do debate acadêmico sobre a realidade ou irrealidade das "coisas". Vive apenas da especulação acadêmica e abstrata, se distanciando da sociedade que sussurra e implora ao seu redor.

Já o espontaneísmo é um caso típico da falta de projetos propositivos. Aparece quando as chamadas "lideranças" não se relacionam organicamente com os movimentos sociais, não formulam e não constroem projetos pedagógicos capazes de sensibilizar o “senso comum” existente. Na maioria das vezes, essas “lideranças” acreditam que não lhes cabe propor alternativas e que tudo deve ser fruto da “espontaneidade” das pessoas. Na verdade, acabam confundindo projetos coletivos com a soma de pequenas demandas localizadas, corporativas ou não. Assim, o resultado acaba sendo a fragmentação e a dispersão “natural”(sic) em  frágeis e pequenas organizações, já que o envolvimento das pessoas passa a depender da existência de contradições localizadas. Ou seja: SE existir algum conflito local, SE as pessoas tiverem algum tipo de inquietação, SE houver o desejo de participar, e SE existir alguma identificação com as lideranças.


O culto à personalidade é o mais destruitivo deles, pois se utiliza da propaganda para divulgar e impor um projeto político pessoal. Não se relaciona como iguais e entre iguais; acredita que existem "Salvadores da Pátria". Pior do que isso, acredita que representa esse "salvador". Na nossa história temos vários exemplos práticos: os Cézares, o nazismo, o stalinismo e o maoísmo  sempre se utilizaram  destes "truques" para enaltecer certas “imagens” e a si próprios. A Igreja Católica também se utiliza dessa prática em seus cultos e na adoração aos santos (que eram humanos, como nós). Portanto, é um fenômeno antigo, mas que ainda perdura com muita força no nosso meio.

No entanto, tudo isso desaparece, ou tende a desaparecer, à medida em que se revela publicamente a falta de consistência das propostas. O bom debate e o questionamento detalhado será sempre a  melhor arma para revelar o que se esconde por trás de cada promessa e de cada interesse imediato.

O novo papel dos municípíos

Responda esta questão: o que devemos fazer quando os municípios brasileiros ganham mais e mais importância nas ações diretas de Governo Federal? O que fazer quando os municípios são reconhecidos como entes federativos, desde a Constituição de 1988? Eu acredito que precisamos avançar com o fortalecimento das ações maduras que existem no âmbito municipal e estadual. O Estatuto da Cidade (Lei 10.257, de 10.07.2001), por exemplo, regulamentou os artigos 182 e 183 da Constituição, e o município passou a ser o mais importante espaço de disputa política e de democratização da "coisa pública" (res-pública). Com essas mudanças, a organização de novas estruturas de poder e a implementação de novos projetos cidadãos passaram  a acontecer nas cidades (na Polis, πολις). As disputas estão se dando nas cidades... Da inclusão social à valorização da cultura local, da luta por direitos pelo saneamento básico à existência de um Plano Diretor Participativo, do reconhecimento das diferentes etnias e a luta das mulheres à diversidade de gênero.

Portanto, para avançarmos nesse novo contexto, precisamos  aproximar e reunir o máximo de pessoas livres e comprometidas com as lutas diárias, para fortalecer todas as ações de cunho federativo que estão despertando em cada esquina. Enfim, precisamos canalizar a nossa energia para as ações locais,  relacionando-as  com as questões estaduais e nacionais, de forma integrada. Evitar essas saídas "fáceis" que sempre surgem em épocas de eleições, principalmente aquelas que já sabemos que não nos levam a lugar nenhum.

Florianópolis, julho de 2010
Ricardo Marques Almeida

5 comentários:

  1. Salve a cultura local!
    besos primo querido
    Letícia

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  2. Quem não conhece aquela do Tolstói: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia." ???

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  3. Ótimo texto, Ricardo. Aí fica a pergunta: Como fazer para termos participação em níveis representativos se temos um povo omisso? Pode parecer chato e repetitivo, mas insisto na necessidade de melhorarmos a cultura de nosso povo, a começar pelo elemento Respeito, que, quando for inculcado nas mentes, por certo mudará drasticamente o comportamento de nosso povo; pra melhor, por certo! Insisto nessa ‘fórmula’ porque é simples e de fácil aplicação e prevejo resultados positivos em curto espaço de tempo. Mera questão de querer. Não adianta ficarmos nas velhas fórmulas, nos velhos, complicados e viciados caminhos. Abração! miguel angelo

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  4. Oi Miguel. Eu acho que não existem "fórmulas prontas" e muito menos "fórmulas fáceis", como algumas que iremos ouvir neste próximo período eleitoral. Acredito apenas na luta diária e permanente. Claro, com muita paciência, criatividade e persistência. Como dizia o Chico: "Vou pra rua e bebo a tempestade". Abração.

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  5. Paulinho Pequeno6 de julho de 2010 16:10

    Aí grande Ricardo Vagareza!!!! Ótimo texto! Aliás, tenho acompanhado tuas reflexões no blog e, apesar de não ter me manifestado antes, tens contribuído muito comigo. Concordo contigo. Temos que ter persistência. A mudança de mentalidade das pessoas é o elemento fundamental para a construção de uma sociedade cada vez melhor. Eu acredito muito nisso! E acredito cada vez mais! Luto todos os dias junto com o povo dos assentamentos do norte do estado do RS entendendo e percebendo que as coisas estão evoluindo em termos de cabeça das pessoas, apesar dos fluxos e refluxos. Afinal, a sociedade é formada por seres humanos, que são uns bichinhos complexos, né? Eu, como veterinário, acho os outros bichinhos bem menos complicados...rsrsrsrs.
    Abração.
    Paulinho Pequeno.

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